Quiosques de venda de jornais e revistas de Veneza hoje alternam publicações sobre o festival local – a maioria delas com fotos de Joaquin Phoenix em Joker e imagens de Scarlett Johansson em Marriage Story – com fumetti (termo italiano para BDs) sobre heróis europeus, como Zagor, Dampyr e Mister No.

Mas, nesta sexta, a imagem do jovem Alejandro Jodorowsky, estilizada em forma de desenho, toma conta dos pontos de venda de comics para promover a publicação local da série de graphic novels ‘The Sons of El Topo’. Até a revista de culto “Linus” deu capa para o regresso do cowboy metafísico criado por Jodorowsky em 1970. E a promoção da banda desenhada acaba por ganhar holofotes venezianos sobre o regresso do cineasta aos ecrãs, aos 90 anos, com o documentário Psychomagie, un art pour guérir” que estreia no dia 2 de outubro em França. No Lido, o regresso do cineasta ao écrã é debatido por todos com alegria e avidez, mesmo que ele tenha preferido não enviar sua a longa metragem para cá. Trata-se, afinal, de um exercício muito intimista de filosofia aplicada à fé, a partir do credo xamanista criado por ele, com base na Cabala, nas pesquisas espirituais chilenas (de onde ele vem) e em Aristóteles.
Mas enquanto o .doc do nonagenário realizador não sai, o Lido debruça-se sobre a sua obra nas BDs. Nom meio à comemoração dos 90 anos do (escritor, tarólogo, artista de BD, xamã e, antes de tudo) cineasta, as livrarias de toda a Europa, sobretudo as especializadas em banda desenhada, estão abarrotando suas estantes com um álbum que se candidata ao posto de best-seller ilustrado de 2019: The Sons of El Topo, que Jodorowsky escreveu e o ilustrador José Ladrönn desenhou. Idealizada em vários volumes (o número definitivo ainda não é sabido), esta graphic novel centrada numa releitura metafísica do Velho Oeste, com tradições judaicas e Nietzsche no recheio, é mais do que um fetiche para fãs de BDs: os cinéfilos fazem filas nas lojas atrás desta continuação de um marco nos ecrãs. É nela que Jodorowsky dá continuação a seu filme mais famoso, El Topo, que, ao ser lançado em Nova York, em 1970, inaugurou a cultura dos midnight movies, as projeções à meia-noite de filmes considerados pouco apropriados para plateias de gosto mais conservador. O próprio cineasta – um judeu chileno radicado em Paris – assumia o papel central, o de um pistoleiro místico.

“Nem todas as boas BDs vivem de poesia, assim como nem todos os grandes filmes são oníricos, mas a realidade a que nos agrilhoamos, nas últimas décadas, é uma contingência bruta, pautada por referências mediáticas de Hollywood, que nos levam a associar o desejo à violência física“, disse Jodorowsky ao C7nema, quando lançou Poesia sem fim (2016) em Cannes, iniciando a produção da graphic novel. “Eu idealizei ‘El topo’ a partir da vontade de fazer um filme sem que eu precisasse pedir permissão para contar o que quisesse, com a absoluta liberdade de fantasiar. Passei anos com o desejo de voltar a ele não apenas por haver algo a ser dito sobre aquele cowboy errante, mas por estarmos a viver hoje tempos crus, intolerantes, carentes de desbunda“.
Em 2016, no Brasil, a editora Gryphus lançou no Brasil a coletânea de ensaios “A jornada espiritual de um mestre“, em que Jodorowsky explica a génese de seu xamanismo, que classifica como “psicomagia” (uma mistura de Freud com signos arcanos). É essa prática xamânica que dá base às páginas da BD The Sons of El Topo, que servirá de base para a nova longa-metragem do realizador a ser lançada em 2020, no cinquentário da sua personagem mais lendária. Na trama, Caim, filho mais velho de El Topo, pensa em matar o pai, para libertar energias que o Universo necessita para se expandir espiritualmente, mas desiste de seguir a trilha do ódio. Prefere ir atrás de um irmão, Abel, que não conhece. Começa aí uma jornada regada de magia, sensualidade e chumbo quente.
“Quando ‘El Topo’ ficou pronto, nenhum exibidor viu um pingo de sentido naquilo. Só um amigo meu que era dono de um cinema pornográfico, o Elgin. Ele ofereceu-me a última sessão que tinha. O sucesso da gente, mesmo naquele horário, foi tanto que muitos diretores foram atrás do Elgin querendo exibir seus trabalhos mais autorais na madrugada“, conta Jodorowsky no prefácio do quadrinho, que só nasceu pelo impasse de nenhum distribuidor querer apoiar a volta de El Topo aos cinemas. “Mesmo com o sucesso do primeiro, a continuação era vista com suspeita, o que me levou a contar sua história em desenhos do meu amigo Ladrönn“.

Aluno do mimo Marcel Marceu (1923-2007) e colega de dramaturgos como Fernando Arrabal (autor de “O arquiteto e o imperador da Assíria“), Jodorowsky seguiu a sua carreira no cinema com longas como Santa sangre (1989) e A dança da realidade (2013). No mercado editorial do Velho Mundo, lançou livros sobre misticismo e muitas BDs, como O Incal, com o mítico Jean “Moebius” Giraud (1938-2012). Mas El Topo ainda é o seu cartão de visita nos grandes festivais do mundo, onde é recebido como um ícone da experimentação nas narrativas audiovisuais e literárias.
“Já trabalhei muito com teatro, no México e em França, ao lado de Arrabal e outros grandes na busca por uma desconstrução dos cânones do palco. Mas uma peça raramente se torna um fenómeno mundial, que consegue alcançar vários lugares ao mesmo tempo, como os filmes fazem, ou as Bds. E existem mensagens que precisam se propagar rápido pelo mundo sem concessão ou sem permissão oficial“, disse Joforowsky em Cannes. “Escrevo BDs para sobreviver e pelo prazer da invenção. É um meio que ainda cultua a fantasia, sem culpa de sonhar e inventar trincheiras de ilusão. Uma ilusão que liberta“.

