7(00) razões para ir ao cinema ver “Era Uma Vez em… Hollywood”

Chegamos ao nono e penúltimo filme de Quentin Tarantino (se assim cumprir a promessa), Era Uma Vez em... Hollywood, que estreia nos cinemas nacionais após uma passagem gloriosa no Festival de Cannes (com polémicas à mistura) e uma projeção atmosférica na Piazza Grande de Locarno.

(Fotos: Divulgação)

É mais que uma carta de amor à cinefilia algo vampírica do realizador. É uma alusão ao peso da passagem do tempo.

Decorrido no final dos anos 60, com um dos mais notórios homicídios da zona encantada de Los Angeles à pendura, Tarantino centra-se na cumplicidade de dois homens que tentam sobreviver numa indústria que já não os reconhece, mas acima de tudo a um universo em constante metamorfose.

Por tal e sem mais demoras, aqui ficam 7 razões para assistir este delírio tarantinesco no grande ecrã.

Finalmente Brad e Leo!

Possivelmente uma das duplas que mais ansiavamos ver juntas no grande ecrã. Durante anos, os cinéfilos apenas poderiam imaginar a reunião destes dois eternos sex symbols, muito mais ao serviço de um dos autores mais prestigiados desta Hollywood pós-90. E diga-se por passagem, a dualidade o qual se apresentam é um deleite e em certa parte, um olhar atento para ambas as carreiras.


 Para entender mudanças é preciso voltar a atrás

Se a indústria atual está a sofrer com algumas – e por vezes – severas alterações, é também necessário entender que Hollywood nunca fora um território estagnado. O filme de Quentin Tarantino decorre em 1969, época em que o cinema norte-americano encontrava-se em plena renovação e cujo o assassinato de Sharon Tate demarcou-se como a imposição de uma nova era. Hoje, com os escândalos de Weinstein, a expansão do streaming e a dominância da Disney, assistimos a diferentes processos de produção que poderão condicionar ou (quem sabe) levar-nos a novos caminhos criativos. Tarantino aborda o passado sem nunca desligar-se da nossa atualidade.


O revisionismo de Tarantino frente ao zeitgeist

Por mais referências que Era uma vez em … Hollywood dispõe a favor de um cenário de reconstituição histórica, Tarantino volta a fazer das suas, que é adulterar a já “escrita” História através de um jeito revisionista que nunca se impõe à ditadura do “baseado em factos reais”. Como havia feito em Sacanas sem Lei, aqui a ficção mantêm a sua liberdade criativa, ou neste caso, contornando a imperatividade da “verdade” que já é senso comum. O efeito Titanic não é para aqui chamado e Tarantino sempre expressou a sua “repugna” por material biográfico.


Cultura pop … everywhere!

As referências num filme tarantinesco não se ficam somente pelo território cinematográfico (no final do visionamento existe espaço para explorar essa filmografia). Há todo um espaço cultural, político e sociológico. Contudo, talvez com mais enfoque neste Era uma Vez em … Hollywood está a sua representação musical. Uma banda-sonora diversificada que nos transporta para esta cápsula temporal. Deep Purple, Neil Diamond, Bob Seger, Aretha Franklin, The Mammas & The Papas, Jimi Hendrix, etc, etc, etc. O rádio de Brad Pitt deixa o seu rasto por esta Los Angeles iluminada pela (des)graça.


Uma menina chamada Julia Butters

De todos os talentos reunidos por Tarantino, sem mencionar a dupla principal e a Sharon Tate personificada por Margot Robbie, a pequena Julia Butters surge entre nós como uma espécie de asteróide. Sendo quase ingrato reduzir talentos infantis a promessas, visto que no geral os destinos nunca são favoráveis, a menina contracena com um DiCaprio na sua melhor forma sem se deixar intimidar.

Diremos que é a graça da sua tenra idade ou um carisma digno de quem tem pretensões para mais ou, e não vamos deixar cair por terra essa hipótese, um olho clínico e sobretudo uma direção impecável de atores por parte do próprio Tarantino (até porque com pouco tempo de antena consegue demonstrar-nos que Al Pacino está vivo). Mas em relação a Julia Butters, a atriz de 10 anos tem alguns dos melhores momentos do filme.


Tarantino não cede à pressão dos novos tempos

Poucos realizadores conseguem ser iguais a si próprios em Hollywood, como Quentin Tarantino é. Se por um lado admitimos que o seu nome é propício a essa liberdade, por outra é essa não-cedência às tendências atuais que nos faz sentir vivos e surpresos por um espectáculo inesperado quanto aos seus elementos narrativos.

A violência tem aqui o seu quê de satírico e possivelmente de um júbilo satisfatório que transporta o espectador à sua ala de experimentação emocional, or exemplo. Por mais controvérsias que cerquem este projeto (a “ridicularização” de Bruce Lee e até à escassez de diálogos da personagem de Robbie), Tarantino nunca se vergou perante essa pressão direcionada dos mais diferentes pontos. Nem um pedido de desculpas.

Falta de humildade? Pode ser, mas a determinação também entra nesta equação e isso é cada vez mais raro na indústria que se insere.


 É Tarantino e basta!!

Poderíamos arranjar mais razões para ir ver este seu nono filme e éramos capazes de “puxar” umas setecentas se fosse preciso, porém, basta só referir que é um filme de Quentin Tarantino. Ama-se ou odeia-se é um evento no cinema autoral que resta nos EUA- É um “canónico”, se poderemos considerar, para o paladar cinéfilo. Para além de tudo, são poucos o que apresentam um coração tão dedicado ao legado do Cinema, e por sua vez tão enciclopédico.

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