Gatos computorizados e assassinos sintéticos: CGI extermina o prático

Um olhar sobre a morte dos efeitos práticos em função do CGI (Computer Generated Imagery)

(Fotos: Divulgação)

Se Hollywood escarafuncha tudo e mais alguma coisa para conseguir o seu próximo lucro, já sabíamos. Que o CGI é utilizado de forma desalmada para que sejam possíveis todas as formas estetizadas ou imaginadas, também conhecíamos. Porém, existe uma dependência e quando isso existe, é necessário haver uma intervenção.

Se existem produções cujo chamariz é a sua inovação tecnológica, seja ela bem-sucedida e por vezes bem-vinda (Matrix, Avatar, Terminator 2 e Forrest Gump) ou esquecidas (Speed Racer, Sky Captain e o Mundo de Amanhã e Beowulf), há também a existência de um outro lado, o facilitismo e porque não o lobby de forma a favorecer empresas de efeitos digitais frente aos efeitos práticos.

O veterano Alec Gillis, que trabalhou bem perto com o mítico Stan Wisnton e hoje é detentor de uma produtora de efeitos práticos [Studio ADI], para além de ser responsável pela criação de alguns monstruosos adereços em filmes como Starship Troopers: Soldados do Universo, A Morte Fica-vos Tão Bem e Tremors: Palpitações. Constantemente refletindo sobre o seu presente e futuro, os seus pensamentos são tudo menos “felizes”. Recentemente, em conversa no podcast português VHS: Vilões, Heróis e Sarrabulho, Gillis falou sobre a decadência do ramo e o facto dos grandes estúdios optarem facilmente pelo computorizado face ao “manual”. Questões de logística, recursos humanos e sobretudo orçamento são algumas das linhas guias para que as “majors” embiquem pelo artificialismo.

The Thing: A Coisa

Nesse mesmo programa, ele relatou um episódio algo “trágico” deste confronto entre prático e o computorizado: a forma como a sua equipa, designada para a criação dos monstros da prequela/remake de The Thing: A Coisa (Matthijs van Heijningen Jr., 2011), foram descartados. A Universal Pictures decidiu à última da hora minar a sua obra com CGI, deixando todo um trabalho concebido durante meses para trás. A solução encontrada por Gillis, de maneira a evitar o desperdício, foi reutilizar o conteúdo num produto de baixo-orçamento (possível por uma campanha de crowfunding) dirigido pelo próprio: Harbinger Down, com Lance Henriksen no elenco.

A extinção destas empresas é tida como cada vez mais certa, até porque experienciamos atualmente a um assalto à sofisticação de uma nova versão de O Rei Leão, executado quase totalmente num fotorrealismo digital, ou, recentemente, Cats, que dispensa a caracterização e os adornos pelo qual o musical original é notório por um híbrido de motion-capture. O trailer, lançado no âmbito da Comic Con San Diego, causou uma repulsa quase generalizada, gerando em simultâneo um debate sobre os limites do artificialismo CGI e a sua fusão na carnalidade dos atores (assim como a razão para tal decisão).

Cats

Não querendo seguir as questões trazidas pelo tão pertinente O Congresso, de Ari Folman, sobre a condição do ator e da validação dos métodos de atuação, o que condiciona este frenesim por criações de bytes e megabytes é uma instantânea dubiedade do que é real e falso. Instantâneo, porque ao contrario dos efeitos práticos, onde atribuem a textura, dimensão e peso ao que quer que seja produzido, o CGI tende em ser uma especialidade de baixa longevidade, diversas vezes atingindo pela vinda de novas definições, pela sofisticação e, sobretudo, pelo olhar cada vez mais experiente do espectador. Desde pequenos somos mesmerizados pelo contingente computorizado, pela escassez da animação tradicional (o Japão resiste como último reduto, convertendo o anime numa prática nacional), e – principalmente – pelos cada vez mais realistas videojogos. É natural que com esta exposição, estas gerações sejam entendedoras do que é e não é criado em chroma key.

Em contraposição, um filme que tem de tudo para ser irrelevante nesta indústria, e até mesmo numa colheita cinematográfica – O Boneco Diabólico –, apresenta-se como contra-natura destas tendências produtivas. Porque a verdade é que o animatrónico Chucky é um símbolo de resistência de 2019 à dominância do vácuo artificial.

Enquanto isso, jovens de hoje continuam deslumbrados pela metamorfose de Um Lobisomem Americano em Londres, de 1981. Como diriam os americanos: “CGI Free”.

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