Nesta rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa.
Antes de entrarem de férias em agosto, as salas da Cinemateca tentam-nos a passar as tardes de verão no escuro. Mas para quem não quer fugir ao sol, a programação para as noites de julho é igualmente tentadora, especialmente devido às sessões ao ar livre que se farão na esplanada. A noite é, aliás, o tema que dá mote ao grande ciclo que se organiza este mês; por isso, quer de uma forma, quer de outra, não conseguimos resistir aos filmes que serão exibidos pela Cinemateca este mês.
A Noite
O conjunto de filmes que integram este ciclo engloba vários géneros, muito diferentes entre si, aqui aproximados por um tema que lhes é transversal. Pela presença da escuridão noturna, pelas emoções das aventuras noctívagas ou pela carga simbólica da noite, estas são histórias em que o período entre crepúsculos ganha vida. Adequadamente, algumas destas sessões (identificadas com um asterisco vermelho *) far-se-ão ao ar livre, às 22h30, o que certamente contribuirá para a sua magia. Estes são os títulos mais promissores:
• Quatre Nuits D’Un Revêur (Quatro Noites de um Sonhador, 1971) – o “sonhador” é Jacques, um jovem pintor sem grandes ambições que se depara com Marthe no preciso momento em que esta está prestes a suicidar‑se, na Pont‑Neuf, em Paris. Descobrindo gradualmente que, naquela noite, Marthe esperava alguém que nunca chegou, Jacques apaixona‑se por ela. O argumento nasce de Noites Brancas de Dostoievski, já anteriormente adaptado ao cinema por Visconti. Nesta versão, Bresson sublinha a dimensão sonhada da novela e entra na noite de Paris para observar os amantes e como as suas vidas fluem num mesmo mover das águas noturnas do rio Sena. Sessões: Segunda-feira, 1 de julho, 19h00 // Quarta-feira, 3 de julho, 15h30
Quatre Nuits D’Un Revêur
• They Live By Night (Os Filhos da Noite, 1949) – em toda a sua obra, Nicholas Ray está do lado dos que vivem na noite, sejam jovens amantes, jovens rebeldes, pessoas que se perdem, pessoas temperamentais, pessoas que se contradizem. O seu primeiro filme é adaptado do romance Thieves Like Us, vagamente inspirado na história de Bonnie e Clyde, e conta o destino trágico de um jovem revoltado que encontra no amor uma forma de redenção que o mundo, porém, não lhe permite. Sessão: Terça-feira, 2 de julho, 19h00
• Irma La Douce (1963) – proibido em Portugal até ao 25 de abril, Irma La Douce foi também um “caso” no seu país de origem: a forma como se representam prostitutas a trabalhar, sem eufemismos para a profissão, foi considerada demasiada audaciosa. Mas todo o filme joga tanto com o que é mostrado como com o que é elidido, e esta obra, que é uma das mais divertidas, irreverentes e provocantes comédias de Billy Wilder, foi outro prego no caixão do código de censura, com Shirley MacLaine como prostituta, num dos papéis da sua vida, e Jack Lemmon inesquecível na figura do polícia‑chulo que tem ciúmes de si mesmo. Sessões: Quarta-feira, 3 de julho, 19h00 // Terça-feira, 9 de julho, 15h30
• Sommarnattens Leende (Sorrisos de uma Noite de Verão, 1955) – o primeiro grande sucesso internacional de Bergman e o filme que definitivamente o impôs como um dos grandes nomes do cinema. Adaptação muito livre de Sonho de Uma Noite de Verão, de Shakespeare, este filme, sob o registo de comédia, é um verdadeiro tratado sobre a condição humana. Bergman chamou‑lhe um jogo a partir de uma equação matemática envolvendo dois homens e duas mulheres. Sessões: Terça-feira, 2 de julho, 15h30 // Quinta-feira, 4 de julho, 19h00
• The Night of the Hunter (A Sombra do Caçador, 1955) – esta única incursão de Charles Laughton na realização (que foi um completo fracasso comercial à época) resulta numa obra‑prima incomparável, ponte de passagem obrigatória do cinema clássico ao moderno, com uma nova exploração da iluminação expressionista. Nesta onírica história infantil, o ogre é um assassino em série que persegue duas crianças filhas de uma das suas vítimas, até se deparar com uma adversária à sua altura, a fantástica personagem de Lillian Gish. Sessões: Sábado, 6 de julho, 22h30 * // Segunda-feira, 8 de julho, 15h30
The Night Hunter
• Collateral (Colateral, 2004) – um taxista (Jamie Foxx) vê‑se envolvido com um assassino (Tom Cruise), que aluga o seu veículo por uma noite, a fim de levar a cabo um “contrato” para abater uma testemunha, enquanto o primeiro procura, a todo o custo, frustrar‑lhe as intenções. Um prodigioso exercício de suspense, filmado em vídeo digital com uma fotografia que trabalha as cores da escuridão e o que Mann referiu como o perturbador fenómeno da neblina e do luar de um anoitecer em LA. Sessões: Quarta-feira, 10 de julho, 15h30 // Sexta-feira, 12 de julho, 19h00
• Le Notti di Cabiria (As Noites de Cabiria, 1957) – Cabiria, a mais chapliniana personagem de Fellini, foi também um dos mais célebres papéis da maravilhosa Giulietta Masina. Embebida de uma vontade de incorporar a realidade e o documento na ficção, de fundir o sublime e o prosaico, esta história da desgraçada prostituta Cabiria é vista como um filme‑charneira na obra de Fellini, o ponto em que se começa a livrar da “narrativa tradicional” e do próprio “realismo” em sentido estrito. Sessões: Sábado, 13 de julho, 22h30 * // Segunda-feira, 15 de julho, 15h30
• Night Nurse (1931) – um dos primeiros filmes com Barbara Stanwyck, numa grande personagem feminina de William Wellman, e no qual Clark Gable tem uma das suas primeiras aparições marcantes. É um surpreendente filme pré‑código Hays, de transbordante energia, filmado no estilo duro e deliberadamente seco que caracteriza tantos filmes de Wellman. Segue a história de uma enfermeira recém‑formada que, no turno da noite, se confronta com um mundo de corrupta brutalidade e selvajaria a que falta a compaixão. Sessões: Terça-feira, 16 de julho, 19h00 // Quarta-feira, 18 de julho, 15h30
• Night and the City (Foragidos da Noite, 1950) – esplêndido exemplo do film noir, ambientado numa Londres de falsários de submundo. De contornos realistas, expressionistas, trágicos, é um filme da noite e de sombras noturnas. O protagonista da história é um pequeno oportunista e burlão, incansável em planos delirantes para enriquecer, que se vê num beco sem saída quando se envolve no mundo da luta greco‑romana e em combates falsificados. Sessões: Quarta-feira, 17 de julho, 19h00 // Quarta-feira, 24 de julho, 15h30
• La Notte (A Noite, 1961) – segundo filme da “trilogia dos sentimentos” de Antonioni (juntamente com L’Avventura e L’Eclisse), La Notte filma a morte do amor ao longo de uma noite de agonia. É sob o signo da morte que o filme começa, com o casal em crise visitando um amigo moribundo, que fora amante da mulher. Na reunião mundana da noite, o desespero, a náusea, a alienação dos sentimentos levam ao confronto, à separação e a uma reconciliação que mais parece um ato de desespero. Sessões: Sexta-feira, 19 de julho, 15h30 // Quarta-feira, 31 de julho, 19h00
• I Fiore Delle Mille e Una Notte (As Mil e Uma Noites, 1974) – terceiro episódio, sem dúvida o mais belo, da “Trilogia da Vida” em que cabem igualmente Decameron e Os Contos de Canterbury. Filmado em diversas regiões do mundo islâmico (Irão, Iémen, Etiópia), e tendo como eixo narrativo a história de um rapaz que sai em busca da escrava e amante que fora raptada, Pasolini narra diversas histórias, que se encaixam umas nas outras, umas graves, outras cómicas, num filme que é um canto ao prazer físico. Sessões: Sexta-feira, 19 de julho, 19h00 // Sábado, 27 de julho, 21h30
• They Drive By Night (Vidas Nocturnas, 1940) – o último papel secundário de Humphrey Bogart, visto que, logo no ano seguinte, o mesmo realizador, Raoul Walsh, dar‑lhe‑ia o seu primeiro grande papel como star em High Sierra. Neste They Drive by Night, Bogart é o irmão de George Raft, ambos condutores de camiões de transporte em luta contra uma organização, cuja história conjuga o realismo social e travessias noturnas menos literais e mais passionais. Sessões: Sexta-feira, 19 de julho, 22h30 * // Terça-feira, 23 de julho, 15h30
Only Lovers Left Alive
• Only Lovers Left Alive (Só os Amantes Sobrevivem, 2013) – à superfície, a décima primeira longa‑metragem de Jarmusch é um filme de vampiros, ambientado na americana e desolada Detroit e na romântica cidade marroquina de Tânger. Mas a história é também um conto de sobrevivência e amor, com um traço de fina ironia: Adam, um músico deprimido de personalidade poética, e a enigmática Eva são amantes de nomes bíblicos numa história de séculos vivida entre o idílio e separações geográficas. Sessões: Sexta-feira, 26 de julho, 21h30 // Quarta-feira, 31 de julho, 15h30
• After Hours (Nova Iorque Fora de Horas, 1985) – Nos anos oitenta, após os insucessos comerciais de Raging Bull e The King of Comedy e os problemas orçamentais de The Last Temptation of Christ, Scorsese quis provar que era capaz de fazer bom cinema, com poucos meios. O resultado foi After Hours, tragicomédia muito negra, que acompanha a micro‑odisseia do seu protagonista, o informático Paul Hackett, no difícil regresso a casa depois de uma noite que parecia normal. A atmosfera kafkiana, as personagens bizarras e sua dimensão moral labiríntica são tudo marcas do argumento do estreante Joseph Minion, que deram a Scorsese o prémio de melhor realização em Cannes. Sessões: Sábado, 27 de julho, 22h30 * // Terça-feira, 30 de julho, 15h30
• Let’s Get Lost (1988) – retrato documental da atribulada vida e carreira de Chet Baker, pelo fotógrafo Bruce Weber. O título do filme é retirado de uma música de Baker incluída no LP Chet Baker Sings and Plays with Bud Shank, Russ Freeman and Strings, cuja capa está na origem do fascínio que Weber desenvolveu pelo músico quando tinha apenas 16 anos. O seu leitmotiv é a viagem noturna de Chet Baker num descapotável que circula entre as luzes de cidade. Esta é a nota de jazz neste programa dedicado à noite. Sessão: Quarta-feira, 31 de julho, 21h30
Cinema Na Esplanada
Além das quatro sessões já destacadas na secção anterior, o programa para a esplanada da Cinemateca conta ainda com um clássico imperdível:
The Searchers
• The Searchers (A Desaparecida, 1956) – uma das obras‑primas de John Ford e o filme que contém todas as chaves do western. Foi considerado pelo American Film Institute o melhor western de sempre e várias publicações de excelência, como a Sight & Sound ou os Cahiers du Cinéma, consideram-no um dos melhores filmes da história do cinema. Esta é, portanto, uma excelente oportunidade para ver um grande marco da sétima arte. Sessão: Sexta-feira, 12 de julho, 22h30
Jean-Claude Brisseau
A propósito da morte de Jean-Claude Brisseau em maio passado, a Cinemateca mostra todas as longas-metragens deste controverso cineasta francês, cuja obra misteriosa e obscura é, pela primeira vez em Portugal, exibida integralmente no circuito comercial. Desta retrospetiva, destacam-se:
• Céline (1992) – um dos mais belos filmes de Brisseau, para muitos a sua obra‑prima, e um dos títulos da sua filmografia que mais limpidamente resumem um dos seus temas de eleição: a porosidade das fronteiras entre a vida material e a vida espiritual. É a história de Céline, jovem herdeira de uma família rica, que se tenta suicidar na sequência de uma série de tragédias pessoais. A enfermeira que cuida dela ensina‑lhe técnicas de meditação, e não tarda que Céline atinga peculiares estados de consciência, profundamente transformadores de si própria e do ambiente que a rodeia. Esta é uma imaginação contemporânea da subida a uma forma de santidade, evocando visões místicas de célebres santas de outras tempos, numa beleza e arrojo quase inacreditáveis. Sessões: Terça-feira, 2 de julho, 21h30 // Segunda-feira, 8 de julho, 18h30
Céline
• De Bruit et de Fureur (1988) – este é um grande choque (cinematográfico) entre o realismo e um universo mágico ou mítico. O realismo é o dos subúrbios de uma grande cidade francesa, de um liceu cheio de adolescentes problemáticos, de famílias caóticas em bairros degradados. A “magia” e o “mito” entram pela força dos “seres” que entram em diálogo com as personagens, assim criando um “compartimento” paralelo ao mundo reconhecível, capaz de evacuar todo o discurso de tipo “sociológico”. Filme extraordinário. Sessões: Terça-feira, 16 de julho, 18h30 // Quarta-feira, 17 de julho, 21h30
• Chose Secrètes (Coisas Secretas, 2002) – primeiro título da trilogia “Tabu”, concebida por Brisseau e centrada no desejo feminino – como Les Anges Exterminateurs e À L’Aventure –, Choses Secrètes tem sido referido como a história de uma tripla aprendizagem, sexual, sentimental e social, reveladora da visão do mundo deste que é um dos mais singulares cineastas franceses contemporâneos. Sessões: Segunda-feira, 22 de julho, 18h30 // Terça-feira, 23 de julho, 21h30
Herman Melville no Cinema
Propondo seis incursões cinematográficas que adaptam Herman Melville, a Cinemateca associa-se ao Congresso Internacional “Over__Seas: Melville, Whitman, and All the Intrepid Sailors“, a decorrer em Lisboa entre 3 e 5 de julho, organizado no contexto do bicentenário do nascimento de dois vultos maiores da literatura americana do século XIX, Herman Melville (1819-1891) e Walt Whitman (1819-1892). Esta secção concentra-se na relação das obras de Melville com o mar, propondo-se abordar a estética associada aos oceanos. Eis a nossa seleção:
• Moby Dick (1956) – é a mais conhecida adaptação ao cinema de um romance de Melville e, sem dúvida, a melhor versão para o ecrã da história da baleia branca e da caça implacável que lhe move o capitão Ahab. Moby Dick é também uma extraordinária experiência com a cor, trabalhada de modo a associar os registos realista e onírico. Sessões: Quarta-feira, 3 de julho, 21h30 // Quinta-feira, 4 de julho, 15h30
• Billy Budd (A Lei do Mar, 1962) – excelente adaptação em Cinemascope da novela homónima póstuma de Herman Melville, a partir da versão teatral levada à cena na Broadway na década anterior. O jovem marinheiro de figura angelical, Billy Budd (brilhantemente interpretado pelo então estreante Terence Stamp) confronta-se com o imediato Claggart a bordo do navio “Avenger”, ensaiando um confronto entre o Bem e o Mal. De acordo com a natureza dos conceitos e oposição simbólica em causa, a complexidade das personagens alia-se numa intrincada história de mar que segue os confins da natureza humana. Sessões: Sexta-feira, 5 de julho, 15h30 // Segunda-feira, 8 de julho, 19h00
Beau Travail
• Beau Travail (1999) – vagamente baseado em Billy Budd, este filme de Claire Denis passa-se em Djibouti, onde os protagonistas são soldados na Legião Estrangeira. Partes da banda sonora são da ópera de Benjamin Britta, baseada no mesmo texto de Melville, compondo-se o filme num registo que combina brilhantemente o naturalismo e o figurativo. Sessões: Quarta-feira, 10 de julho, 19h00 // Sexta-feira, 12 de julho, 15h30
Double Bill
Entre as sessões duplas que preenchem as tardes de sábado da Cinemateca, a nossa recomendação é para aquela em que nenhum dos dois filmes deixa a desejar:
• Hatari! (1962) & Mogambo (1953) – um dos maiores filmes de Howard Hawks e uma obra-prima do cinema de aventuras, praticamente sem história (a atividade de um grupo de homens que se dedicam a apanhar animais selvagens para os zoos), Hatari! é quase um filme de balanço da obra de Hawks, com os seus temas e situações clássicas e a eterna guerra dos sexos, liderada por John Wayne. Mogambo é a segunda adaptação da história de um caçador branco, guia de safaris em África, dividido entre duas mulheres: Grace Kelly e Ava Gardner. Henry Ford dirige aqui Clark Gable, que lidera um elenco impecável. Sessão: Sábado, 6 de julho, 15h30
Hatari!

