
Há uns anos, numa discussão com um colega do c7nema, tentava fazer uma taxonomia possível de críticas de cinema: para além da formal (fotografia, edição, encenação, etc.), que ele favorecia, defendi a análise textual (personagens, narrativas, consistência, etc.), a da História do Cinema e da produção cultural (referências, semelhanças, etc.), a da sua produção (entrevistas que revelam intenções, mas também o contexto social, como sexismo, whitewashing, etc.), e possíveis interpretações temáticas (políticas, filosóficas, etc.).
Na realidade, estas costumam misturar-se, é raro encontrar alguém que se dedique unicamente a uma, mas há sempre quem procure evitar ou mesmo rejeite alguma. Depois da excitação inicial de Avengers: Endgame, após o impacto emocional do fim de uma série de mais de vinte filmes e de uma dezena de anos, talvez agora seja o momento de analisar com calma este filme dentro dessas possíveis taxonomias e, talvez, chegar à conclusão que sofre do mesmo problema que Avatar ou Titanic: uma análise mais a frio mostra que não são tão bons quanto a reação inicial poderia indiciar. Como será de esperar, quem não o viu e não queira saber detalhes deve evitar ler este texto.
—-SPOILER ALERT—
Crítica formal
Herdeiro da estética da origem destas histórias, os visuais são uma mistura de épico e ridículo que sempre caracterizaram as bandas desenhadas. Ainda assim, mesmo evitando os excessos camp do Thor de Kenneth Branagh, torna-se difícil evitar o ridículo quando o antagonista principal tem um queixo que parecem testículos roxos. No entanto, uma das grandes qualidades dos filmes da Marvel, ao contrário da maioria dos da DC, é assumir essa faceta com humor, sem se levar demasiado a sério, mesmo quando o destino do universo está (outra vez) em risco.

Depois da participação de 2005 de Roger Deakins no Wall-E da Pixar, é difícil negar a cinematografia na animação, ainda que, como no caso deste filme, a maioria das imagens sejam criadas e não captadas. Também neste campo se sente a tensão épico-ridículo, com cenas, devidamente assinaladas pela banda sonora, que vão surgindo entre a exposição e a ação. Em conclusão, pode afirmar-se que não há nada que distinga visualmente este dos outros filmes da Marvel.
Um dos pontos fortes da Marvel é a clareza da edição e do espaço construído: a qualquer momento é possível compreender (a nível geográfico, mas nem sempre de sentido) onde estão as personagens e no que estão envolvidas, se bem que, com a quantidade enorme de heróis que surge aqui, se torne por vezes num exercício de equilíbrio complicado. Isso também se aplica a Endgame, mesmo com o elenco enorme que tem de manobrar, especialmente no último ato, quando as personagens de vários dos filmes anteriores se juntam todas.
Crítica textual
Todos os filmes têm buracos no argumento. Inconsistências, erros, decisões guiadas pela necessidade de se chegar a determinado ponto, etc. Por vezes é tão mau que parece que é o argumento que dita as ações das personagens e não uma qualquer vida ou vontade interior. Como seria de esperar, este não é uma exceção. Até os fãs o reconhecem e, de alguma forma, o assumem quando dizem: “Não é um filme perfeito, mas…“. Já muito foi escrito sobre alguns desses buracos, mas ainda é possível adicionar mais alguns.

As mais óbvias são decisões tomadas a nível de género (de filme, não no sentido identitário, apesar de esse ser também um problema que abordaremos adiante) e de estrutura. Veja-se a intenção de fazer o segundo “movimento” do filme num heist baseado na premissa de que não há unidades suficientes de partículas “Pym” para ativar a máquina do tempo e que, por isso, tudo tem de correr quase milimetricamente bem, e a maneira atabalhoada como isso é descartado no ato seguinte e o antagonista consegue movimentar uma frota através do espaço e do tempo sem essa máquina ou sem essas partículas apenas pela necessidade causada pelas cenas seguintes.
Mas a pior é a tentativa de sentimentalismo que leva este filme a usar o que agora consideramos tosco à conta da sobre-utilização em filmes de guerra: a construção apressada de uma das personagens para tentar aumentar o impacto da sua morte. Todos conhecemos o cliché: o soldado que mostra a fotografia da noiva e que anuncia a vontade de regressar, casar e comprar uma quinta. Nem sequer é necessária a cena seguinte, é óbvio o que vai acontecer. Em Endgame há essa construção, numa personagem que era uma caricatura e que vivia mais do que se sabia do ator que a desempenhava, um ideal para muitos no Silicon Valley, inteligente, mulherengo, mas que, no fundo, “só queria ser amado”. Neste caso, chega a casar e a comprar a quinta, mas continua a ser o mesmo cliché. É pior por causa do resto do filme e das histórias de outros à sua volta, mas já falamos sobre isso. Aqui só quero mesmo apontar a boçalidade desta premissa e negar quem a pensa original ou sofisticada. Infelizmente, é o ponto crucial da emoção deste filme e as cenas finais falham miseravelmente depois de se perceber o que se passa.
Depois dessas há as menores, como saber as respostas a como raio vai o Capitão América devolver as pedras que foram retiradas do corpo da pobre da Natalie Portman ou trocadas pela vida da Scarlett Johansson (imagino as discussões na sala de escritores à volta destas duas e a decisão de tentar esconder a coisa num filme que já é demasiado extenso) ou como pode o capitão aparecer nesta linha do tempo depois de criar uma nova quando não regressa, e a perene aplicação do dispositivo narrativo que é aplicado em todos os filmes da Marvel que se pode descrever com a frase “mas quando tudo parecia perdido” e que leva sempre aos mesmos pontos e tempos, com muito pouca variedade, mesmo quando usado de forma fractal, numa espécie de paradoxo de Zenão que parece tornar impossível chegar ao final.

Crítica histórica
Já há décadas de filmes de super-heróis, com níveis de popularidade diferentes, mas esta é a primeira série de filmes e TV que consegue o nível de sucesso com que as outras sonham. Em parte, isto tem a ver com a sua origem nos comics (que são, em seu mérito, também muito populares), mas também com um tom que a Marvel conseguiu encontrar e manter, misturando o sentimento e o humor, sem cair na pretensiosidade.
Por causa disso, a mais clara referência deste filme é à série em que se insere. Podendo parecer redundante é, no entanto, importante referi-lo porque se percebe que não há aqui originalidade quer a nível visual, de storytelling ou de ideias. Qualquer pessoa que tivesse visto alguns (nem seria necessário todos) dos anteriores poderia ter chegado a uma variação deste sem grandes dificuldades, como o mostram vários sites na net. Se se poderia considerar esse um ponto fraco, é ele mesmo que se traduz na popularidade da MCU, oferecendo sempre algo relativamente novo e, ao mesmo tempo, familiar.
Também, como nos comics (e em parte forçada pela dimensão das histórias que são contadas), há várias referências a situações e personagens de outros filmes, premiando-se a lealdade dos fãs com uma sequência do que se chama “Easter egg”, num desvio do sentido original desta expressão. Uma simples pesquisa dá a resposta a qualquer dúvida sobre um momento desses, havendo imensos artigos escritos sobre eles. Poder-se-ia argumentar sobre o que trazem a determinado filme todas estas referências para além do premiar fãs dos filmes ou dos comics.

Há também, na transformação polémica de uma das personagens que já tanto deu que falar, uma referência ao Big Lebowski dos irmãos Coen. Uma piada descartável sem grande interesse e que não consegue nem assim alcançar o humor do original, mas conhecida o suficiente para que a maioria das pessoas a reconhecessem. Mais descartável, só mesmo a feita aos Salteadores da Arca Perdida ao qual Don Cheadle tenta recuperar uma das pedras.
De resto, e como seria de esperar num filme que se insere na cultura popular que fala de viagens no tempo, há toda uma sequência de piadas e referências aos vários outros que já o fizeram, como o Regresso ao Futuro, O Exterminador Implacável, etc. Curiosamente, estas ajudam a perceber a teoria de time travelling usada no filme de uma forma ligeira, evitando mais buracos que poderia criar se o tentasse fazer de uma forma mais “científica”.
Crítica da produção
A Marvel tem feito, de há uns anos para cá, um esforço para tentar diversificar os seus protagonistas, com filmes como Black Panther e Captain Marvel, mas tem tido várias acusações contínuas de whitewashing, racismo e de sexismo. Este filme não é diferente, bastando contar o número de protagonistas brancos, masculinos e hetero contra qualquer alternativa. Os defensores acérrimos vão apontar para as cenas, preparadas milimétrica e cinicamente na forma como são construídas, em que estas “minorias” são apresentadas, esquecendo todas as outras que constituem o resto do filme. Nas milhares de horas de entrevistas, os envolvidos não saem muito do universo Marvel a não ser para papaguear a forma como estão a tentar reparar os erros anteriores, sem grande profundidade ou consciência social ou política.

Este é um problema da indústria, não percebendo as críticas feitas, pensa que um gesto grande corrige a discriminação sistémica. Como a presidência de Obama mostrou bem, estes momentos grandiosos não resolvem estas questões. Pior, muitas vezes só servem para que quem discrimina se sinta moralmente permitido para assumir comportamentos ou ideias deste tipo, já que “até houve um presidente…” ou “já tiveram um filme, que mais querem?” Uma cena ou outra pode ser um primeiro passo, mas num filme em que estereótipos feios e demasiado antigos são usados em cenas cruciais, mostra que se trata apenas de uma apara por debaixo da mesa para calar o cão. Vejamos a cena em que a Black Widow, uma “mulher caída”, cuja sexualidade, pela incapacidade de se reproduzir anunciada em Avenger: Age of Ultron (e vivida como algo que a transforma em monstro), é ameaçadora da ordem familiar patriarcal, se tem de sacrificar em vez do pai que cometeu vários crimes a pensar na sua família. Este ponto leva-nos perfeitamente para a última secção deste texto.
Crítica temática
Este é um filme profundamente conservador e retrógrado. Um dos pontos é o que acabámos de abordar: as representações de género. Sim, há uma cena só com heroínas e música épica, mas a que se segue desfaz tudo isso, num anti-clímax dececionante. Sim, o protagonista mais forte é uma mulher, mas está subaproveitada e acaba por ela própria falhar no momento mais importante e ter de ser um homem a fazê-lo por ela. Toda a construção em torno desses dois pontos revela-se como um mau truque de magia, com todo o racional patriarcal intocado por detrás. Os clichés utilizados mostram a incompreensão das pessoas por detrás do filme do que se está a passar a nível cultural. Pior, dão a permissão moral a muitos para continuarem com os seus comportamentos e ideais.
A nível de temas raciais, persiste-se em erros do passado, com asiáticos a seguirem um branco “iluminado” e a servirem apenas como escape humorístico ou dentro dos estereótipos de espiritualidade e destreza física, e negros a assumirem personagens secundárias ou a aparecerem no final e com pouca presença. Com tantas personagens principais, é normal que algumas tenham sido deixadas para trás, mas o problema é que são sempre as mesmas…

Mas o cerne da ideologia que guia este filme é o retorno à ordem. Centrado nos contratos que estavam a acabar de dois dos protagonistas principais deste universo, foram construídas duas histórias que se centram na reposição da ordem familiar e patriarcal (a este ponto pareço um papagaio, mas é importante tornar a repeti-lo). Um sacrifica-se, depois de vários filmes em que mal era capaz de assumir um compromisso, pela família que fez, mas comprou uma quinta, por isso acho que não havia alternativa. Não poderá ser porque, para o espírito tacanho das pessoas que fizeram este filme, essa é a maior forma de sacrifício possível, mas por causa da quinta, só pode. Este é um dos fulcros da imagem do patriarca, tanto usada no sentido do sacrifício do mesmo, como exemplo máximo da proteção que este oferece, como no sentido do sacrifício da família, normalmente para despoletar uma resposta emocional e uma vingança, mas ambas baseadas na personagem principal, masculina, e na violência e na capacidade de a exercer de forma justa.
O segundo é o retorno literal aos “bons velhos tempos” do pós-guerra norte-americano, mostrado numa cena final revoltante, com direito a banha na lente e tudo. Seria de esperar que o Capitão América, o mais jingoísta dos heróis, se pudesse sentir atraído por tal fantasia, mas todo o trabalho feito nos filmes anteriores pareciam oferecer outras alternativas. Que, mesmo no final, tenham escolhido a saída mais simples e menos complicada (leia-se: com menos reações por parte dos espectadores), mostra que, na realidade, esta fantasia continua bem viva. Ao final de 18 anos de guerra, de uma crise económica destruidora, da desigualdade crescente e de tantos outros problemas sociais, Capitão América poderia ter tido outro fim, um que quase se vislumbra no início do filme.
A acompanhar, temos o sacrifício da mulher caída em vez do pai que caiu em desgraça a pensar na sua família (ah! A velha história da puta com coração de ouro traz sempre uma lágrima ao olho!), e a de Hulk, um representante perfeito da masculinidade infantil e tóxica, a conseguir integrar a sua ira com a sua inteligência, um pouco como o Elon Musk no Twitter, mas, espera-se, com melhores resultados.

Tudo isto se junta a um misticismo encoberto por elementos e termos científicos, mas que se revela em toda a sua grandeza na demanda da Pedra da Alma, à qual apenas a morte de quem nos é mais querido nos dá acesso porque… “ciência”. Por muitos “quântico”, “nuclear” ou qualquer outra buzzword utilizada para fornecer autoridade e objetividade a teorias, esta é a cena que mostra que, apesar do fascínio pela tecnologia que é demonstrado de forma contínua nesta série, esta tem um discurso opaco e não-falsificável, do mesmo tipo que é usado na política quando se procura respostas emocionais e não conscientes. Também este é mais um aspeto da ideologia (conjunto mais ou menos aleatório de ideias e posições) retrógrada deste filme e um retrato assustador da cultura norte-americana que, estranhamente, é reconhecida internamente como “liberal”.
Neste momento os fãs mais tóxicos desta propaganda cretina e cínica já estão a espumar e a martelar respostas acéfalas, da mesma forma que perseguem e atacam qualquer pessoa que vêem como opositor à perfeição das suas séries queridas, enquanto que, ao mesmo tempo, dedicam horas a decifrar elementos dos milhares de imagens, posters, trailers, teasers e qualquer outra parafernália que as precede e acompanha. Veja-se o que aconteceu recentemente com a atriz que faz de filha de Stark, Lexi Rabe, (https://www.bbc.com/news/newsbeat-48757580) e, antes disso, com outras séries “sagradas” também nas mãos da Disney, que chegou a levar muitas pessoas a afastarem-se das redes sociais.
Se há um grande problema com a cultura geek, que se apresentava como marginal e perseguida nos anos 80, é um alinhamento perfeito à masculinidade tóxica e patriarcal da cultura mainstream. Basta ver alguns dos filmes produzidos nessa época para o perceber, o voyeurismo, a mentira, o assédio e até mesmo a violação são usadas de forma casual e até humorística. As pessoas que cresceram a ver esses filmes estão agora à frente dos que são feitos agora e, ainda que haja elementos novos e contextos sociais distintos, continuam a propagar os mesmos ideais retrógrados e há muitos “fãs” que defendem esta identidade geek e os pilares que a sustentam (Star Wars, Marvel, etc) como intocáveis, sem perceber que defendem mais do que apenas personagens de quem gostam.

A Marvel e a Disney têm feito um trabalho louvável para se adaptar às exigências de um público que se mostra mais sensível aos contextos sócio-políticos à sua volta mas, se Endgame mostra alguma coisa, é que ainda há um grande caminho a percorrer. Há passos iniciais, como o Black Panther, que se mostram promissores, mas fora deles ainda agem dentro de um sistema de quotas, com personagens essencialmente secundárias a serem representadas por minorias, e de atos morais conspícuos, inserindo de forma canhestra cenas e situações que tentam apaziguar essas exigências sem, no entanto, fazerem o trabalho necessário ou assumir posições. A reação positiva a este filme é mais devido à sua posição na série, marcando o fim de uma época, o que causa, só por si, uma reação emocional, do que em relação ao seu mérito como filme individual. Não deixemos a nostalgia cegar-nos e continuemos a exigir melhores filmes e novos valores.

