Fleabag: deixai-vos cair em tentação

(Fotos: Divulgação)

Phoebe Waller-Bridge, uma força da natureza

Numa das cenas da primeira temporada da série britânica Fleabag, a nossa protagonista (a super expressiva e sensacional Phoebe Waller-Bridge) apresenta-nos a sua irmã quando assiste com ela a uma palestra feminista. Aí, a oradora questiona a audiência de quem estaria disposto a abdicar de alguns anos da sua vida para ficar com uma aparência mais apelativa. A nossa estrela e a sua irmã – que nem se dão muito bem no início da série e nem se conseguem abraçar – levantam a mão. Os olhares em redor condenam-na e entre elas dizem que não devem ser “boas feministas“.

Numa entrevista ao The Andrew Marr Show em março, Phoebe Waller-Bridge fez a mesma revelação: que tem medo de ser uma “má feminista“. E isto porque a sua personagem desafia as convenções do género, das pessoas que se dizem ser tal. “Quando eu a escrevi pela primeira vez, parecia a coisa mais honesta e assustadora para se lançar (…) será que estou a fazer isso certo?

Certamente não sou a pessoa mais indicada para dar uma opinião sobre o seu feminismo, mas retirando isso da equação, posso dizer que Fleabag é uma das séries mais divertidas, bem escritas, genuinamente bem ensaiadas, transgressivas sem plasticidade  – ou de choque pelo choque – dos últimos anos.

Waller-Bridge é uma verdadeira força da natureza, construindo diálogos e situações que nos confrontam a cada esquina, desafiam cada momento, e surpreendem pela total fuga aos lugares comuns. Os ataques de humor são frequentemente furtivos e imparáveis, verdadeiros rasgos de comicidade inspirada que transformaram-na numa das mais apetecíveis escritoras da atualidade .

É que até o derrubar da quarta parede, tão brechtiana e tão na voga no cinema e TV – até no mundo Marvel via Deadpool – encaixa aqui “que nem gingas“. É que a nossa Phoebe, num estilo muito próprio de narração, fala e interage constantemente com as outras personagens, mas liberta os seus pensamentos e ideias num monólogo frontal com quem a assiste: nós, que nos tornamos cúmplices e os únicos a saber exatamente o que ela sente e o que se passa.

E se a primeira temporada arranca-nos gargalhadas enquanto analisa a vida de uma trintona, dona de um café apaixonado por Porquinhos-da-Índia, mas com sérios problemas (afetivos, monetários, para além de estar ferida por um trauma e luto), a segunda consegue o mesmo ir mais além ao introduzir um interesse amoroso na forma de um padre católico. E fá-lo sem artificialismos, clichés ou uma necessidade provocatória pelo choque, sem rebaixar, menosprezar ou parodiar a fé, mas através de uma evolução cuidada na construção de personagens – é certo que a partir de ideias bem liberais – com uma suavidade e entrosamento genial podendo até os homens se identificar em muitas questões apresentadas pela protagonista e companheiros de cena: “A ficção nunca falou tanto sobre o sexo feminino como do masculino, ainda que também não acho que este tenha sido mostrado de forma sincera. Na vida, as duas experiências são parecidas. Por isso os homens sentem identificados com Fleabag quando se fala de inseguranças sexuais.“, disse a autora ao El Pais.

Um rol de personagens secundários fabuloso

Acrescente-se a Fleabag a sua família, onde o pai e a madrasta (a galardoada com o Oscar Olivia Colman nos limites do cinismo e perfeição na atuação), a irmã (amarrada numa vida costumeira), e o cunhado (um oportunista asqueroso) são um show dentro do show. E junte-se ainda os amigos e conhecidos, alguns deles que só aparecem em flashbacks ou apontamentos à parte. Nenhum deles é negligenciado ou tratado como uma personagem de cartão, e embora o registo seja por vezes caricatural, não deixa de lançar muitas verdades sobre gente que também conhecemos na nossa vida.

Uma qualidade tremenda em tão poucos minutos

O mais espantoso de Fleabag é que esta série de seis episódios consegue no formato de 23 minutos por capítulo, uma forma que outrora só servia quase exclusivamente para o cansado modelo das sitcoms, um dos melhores trabalhos televisivos da década (sim, vou assim tão longe no elogio), onde a escrita, as personagens (apaixonantes vs odiosas, mas todas relevantes) e até a realização (há um jantar no início da segunda temporada que é um verdadeiro espetáculo cinematográfico e um triunfo da montagem em comédias) conectam-se com tal harmonia que tornam a produção em algo absolutamente imperdível. E é profundamente arriscada. Um sucesso.

A Origem

Na origem da série Fleabag está uma peça criada e protagonizada pela própria Phoebe Waller-Bridge no Edinburgh Festival Fringe em 2013. O impacto foi tal, o tremor tal, que instantaneamente a autora foi convidada a adaptá-la para a TV, recebendo dezenas de outros convites para trabalhar em séries (como Killing Eve).

Muitos dos elementos dessa peça e da série vêm da sua vida. Sim, ela namorou com um documentarista e na série, a certo ponto, ela conhece um produtor de documentários. E sim, a sua melhor amiga na série é inspirada em Vicky Jones, amiga e colaboradora da vida real, embora esta se distancie muito do apresentado. Outros dos elementos vêm da sua interação diária com a vida, com os homens, e com uma sociedade que ainda olha com desconfiança (e cada vez mais) para a liberdade sexual das mulheres, para a estereotipização dos seus desejos e necessidades (no amor, no trabalho, no ter ou não filhos) e para as capacidades femininas em fazer comédias.

O fim

Como as melhores e mais marcantes séries, Fleabag terminou à segunda temporada. “Fiz a segunda [temporada] porque a BBC deu-me tempo. É preciso saber abandonar coisas. Um projeto não deve te definir” explicou a autora ao El Pais.

De Fleabag, passando por Killing Eve, até James Bond

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O sucesso da escritora levou-a a ser contratada pela produção do novo filme da saga James Bond para “polir” o guião do próximo filme da saga, transformando-se assim a segunda mulher a trabalhar no argumento de um filme da franquia depois de Johanna Harwood, coautora de Agente Secreto 007 (1962) e 007 – Ordem para Matar (1963).

Waller-Bridge minimiza a sua participação no guião, originalmente escrito por Neil Purvis e Robert Wade e reescrito por Scott Z Burns, mas confirmou que quer sentir as personagens femininas no novo filme como “reais” e deseja que Lashana Lynch, Léa Seydoux e Ana de Armas leiam o texto e digam: “‘Mal posso esperar para fazer isso.’ Como atriz, raramente tive essa sensação no início da minha carreira. Isto dá-me muito prazer, saber que estou a oferecer isso a uma atriz.”

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