Nesta rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa.

O mês de junho verá o fim do programa comemorativo dos 70 anos da Cinemateca, que se encerra com um capítulo dedicado ao cinema português. Mas, em bom rigor, as comemorações não terminam aí, visto que as sessões da Cinemateca nunca cessam de celebrar a sétima arte. Neste primeiro mês de verão, o ritmo será marcado pelas ardentes emoções do melodrama; e se o sol abrasador lá fora não for do agrado de todos, há mais uma dúzia de outros filmes a ver que raramente se mostram no grande ecrã em Portugal. Seja pelo sol, seja pelo cinema, junho será um mês para se ser arrebatado.
O Que é o Património? Diálogos no Cinema Português

A pergunta que dá título a esta secção não é retórica. A Cinemateca preparou sete sessões de filmes portugueses e cada uma terá como epílogo uma conversa entre personalidades que se envolveram na produção da respetiva obra. O objetivo é discutir-se o conceito de património e como ele é percecionado pelas várias gerações do cinema nacional. Deste pequeno ciclo destacamos:
⦁Douro, Faina Fluvial (1934) & Uma Abelha na Chuva (1971) – esta dupla mostra inicia-se com o primeiro trabalho de Manoel de Oliveira, um belíssimo «filme-sintonia» próprio da vanguarda da época, que será complementado com a adaptação do famoso romance de Carlos de Oliveira ao cinema por Fernando Lopes. A história segue as frustrações de um casal formado por um proprietário rural e uma aristocrata arruinada. A conversa pós-sessão será entre os críticos João Lopes e Ricardo Vieira. Sessão: Quarta-feira, 19 de junho, 18h00
⦁Mudar de Vida (1966) – na segunda longa-metragem de Paulo Rocha (depois do poderosíssimo Os Verdes Anos) encontramos Adelino, um pescador que regressa da guerra colonial em África e reencontra a sua aldeia natal, onde descobre muitos sinais de um desejo de mudança – de vida, e de cinema. A conversa após a sessão contará com a presença de Isabel Ruth e Beatriz Batarda. Sessão: Segunda-feira, 7 de junho, 18h00
⦁Trás-os-Montes (1976) – este é um canto de amor a uma região que exemplifica a capacidade artesanal do cinema português, uma qualidade que o diferencia de outros patrimónios cinematográficos e que conta, aqui, com a fotografia de Acácio de Almeida. A conversa, depois da projeção, será feita com este último e também com o diretor de fotografia Vasco Viana. Sessão: Segunda-feira, 17 de junho, 18h00
Revisitar os Grandes Géneros: O Esplendor do Melodrama

O segredo, a confissão, o engano, o adultério, a enfermidade, a doença mortal, o amor impossível, a pureza do campo e a corrupção moral da cidade: eis as situações típicas do género melodramático que se encontrarão em abundância neste conjunto de obras. Independentemente da sua origem geográfica (são mais de uma dezena os países aqui representados), o melodrama é tão extremo quanto as reações dos espetadores costumam ser. Aqueles que se deixam levar pela emoção não devem perder em particular os seguintes filmes:
⦁Autumn Leaves (Folhas de Outono, 1956) – reconhecido no festival de Berlim, Robert Aldrich realiza Joan Crawford neste soberbo melodrama de suspense, em que uma mulher obcecada pelo trabalho casa, num impulso, com um homem muito mais novo, que conhece numa festa. Após o casamento, a personalidade esquizofrénica do marido vai-se revelando e ela, a pouco e pouco, descobre e enfrenta as razões… que são os seus sogros. Sessões: Terça-feira, 4 de junho, 21h30 // Quinta-feira, 6 de junho, 15h30
⦁Aventurera (1959) – o México foi provavelmente o país que concebeu e produziu os melodramas mais delirantes: Aventurera, um dos clássicos deste cinema, é um dos seus pontos altos. O filme aborda o clássico tema da mulher de província que é enganada e levada para uma cidade onde é obrigada a trabalhar como cantora e prostituta num cabaré, ao serviço da malvadíssima dona e “madame” do bordel. Sessões: Terça-feira, 11 de junho, 21h30 // Sexta-feira, 14 de junho, 15h30
⦁Dark Victory (Vitória Negra, 1939) – Bette Davis, numa das suas maiores atuações (uma entre as onze que foram nomeadas aos prémios da Academia ao longo da sua carreira), interpreta uma mulher rica e fútil que é abalada por uma doença mortal. O elenco conta ainda com Humphrey Bogart, antes de ascender a estrela dois anos depois, e Ronald Reagan, antes de ascender a Presidente 42 anos depois. Sessões: Terça-feira, 4 de junho, 15h30 // Quarta-feira, 12 de junho, 19h00
⦁Dowa Al-Kawrawan (O Assobio do Maçarico-Real, 1959) – uma jovem criada testemunha o homicídio da sua irmã pelo seu tio, porque “desonrara” a família. A mulher decide vingar-se do jovem engenheiro que seduzira e abandonara a irmã e vai trabalhar na sua casa, como criada, com a intenção de envenená-lo. Os seus planos sofrem, contudo, uma reviravolta, neste filme que é um clássico das cinematografias árabes. Sessões: Quarta-feira, 6 de junho, 19h00 // Terça-feira, 11 de junho, 15h30
⦁Mother India (1957) – a Índia foi durante muitos anos o maior produtor mundial de filmes, sendo origem de uma filmografia vastíssima que teve o seu “boom” quando integrou as antiquíssimas tradições de canto e dança nas suas histórias. Na sua imensa variedade regional e linguística, esse cinema correspondeu sempre a uma forma básica, altamente convencionada, de melodrama no seu sentido original, com números cantados e dançados. Mother India é um dos arquétipos e um dos maiores êxitos absolutos deste género, que narra os esforços de uma mulher que luta pela sua família perante as maiores adversidades. Sessão: Terça-feira, 25 de junho, 21h30
⦁To Each His Own (Lágrimas de Mãe, 1946) – um dos grandes melodramas dos anos 40 considerado na época um “woman’s picture” por excelência, típico tearjerker sobre uma mãe (Olivia de Havilland, que recebeu o seu primeiro Óscar pelo seu desempenho). Esta mãe é solteira e, por este “pecado”, não pode criar o seu filho, por isso faz-se passar pela sua tia, sem nunca lhe confessar a verdade. Sessões: Quarta-feira, 5 de junho, 15h30 // Quarta-feira, 12 de junho, 21h30
Histórias do Cinema – Mário Jorge Torres: O Melodrama do Trágico ao Operático

Estas “Histórias do Cinema” complementam o ciclo anterior, enriquecendo os graus de leitura sobre o mesmo tema. Tratam-se de sessões-conferência com o crítico e professor Mário Jorge Torres, com quem poderemos debater, entre outras obras:
⦁Magnificent Obsession (Sublime Expiação, 1954) – ao perder o controlo da sua lancha, um playboy contribui para a morte de um ilustre médico. Algum tempo depois, ao tentar redimir-se, provoca outro acidente que causa a cegueira da viúva do médico, por quem entretanto se apaixona. Então o homem decide estudar medicina para encontrar maneira de a curar. Se o enredo aparenta ser encantadoramente artificial, também mise-en-scène de Douglas Sirk o é: a fotografia é feita de cores que só existem no cinema. Sessão: Segunda-feira, 24 de junho, 18h00
⦁Vaghe Stelle Dell’Orsa… (1965) – qualquer programação sobre melodrama ficaria incompleta sem a inclusão de um filme de Luchino Visconti. Filmada a preto e branco, esta produção, cujo título cita o início de um célebre poema de Giacomo Leopardi (“Belas estrelas da Ursa”), conta a paixão incestuosa de um jovem pela irmã, quando se reencontram na mansão paterna a que ela regressa, acompanhada pelo marido, para se confrontar com um passado intolerável – a mãe denunciara o pai, que morrera num campo de concentração. Sessão: Terça-feira, 25 de junho, 18h00 // Quinta-feira, 27 de junho, 15h30
In Memoriam Bibi Andersson

Mais conhecida pelos seus papéis nos filmes de Ingmar Bergman, Bibi Andersson tornou-se um rosto para sempre associado ao melhor que o cinema sueco produziu. A sua presença imponente estará sempre imortalizada nas obras em que atuou, algumas das quais poderemos ver este mês, em especial:
⦁Babettes Gaestebud (A Festa de Babette, 1987) – adaptação literária, esta é a história de uma mulher que foge de Paris no momento da repressão da Comuna, em 1871, e se refugia na Dinamarca, onde entra ao serviço de duas velhas senhoras de uma aldeia. Quando ganha a lotaria, ela, que fora uma reputada chefe de cozinha, resolve servir um banquete às velhotas e seus convidados. Todo o filme é a descrição da preparação do banquete. Sessão: Sexta-feira, 28 de junho, 19h00
⦁Smultronstället (Morangos Silvestres, 1957) – o encontro dos dois maiores nomes do cinema sueco, o clássico Sjöström e o moderno Bergman (que tanto foi beber ao primeiro), numa das mais belas meditações sobre a vida e a velhice que o cinema nos deu. Sjöström dá vida a um professor cuja viagem para o seu jubileu se transmuta na vertigem de uma revisitação ao passado, que coincide com o tempo presente e o tempo futuro, fazendo conviver o realismo com um onirismo absolutamente perturbador e surreal. Sessão: Segunda-feira, 24 de junho, 19h00
Double Bill

Os cinco sábados de junho planeados pela Cinemateca estão repletos de filmes de uma variedade imensa (temática, geográfica, de género,…) que certamente preencherão os interesses de uma vasta audiência. Escolhemos duas sessões duplas em que ambos os filmes a projetar valem por si sós:
⦁Running on Empty (Fuga sem Fim, 1988) & Drugstore Cowboy (No Trilho da Droga, 1988) – em Running on Empty, River Phoenix é Danny Pope ou Michael Manfield, um rapaz que viveu toda a vida com uma falsa identidade por ser filho de um casal que, no início dos anos setenta, fez explodir um laboratório em protesto contra a guerra do Vietname e que, desde então, foge ao FBI. Se os pais fizeram as escolhas deles, Danny quer fazer a sua, mas sair da clandestinidade implica uma opção: ou nunca mais vê a família, ou faz com que esta seja apanhada. Um dos mais aclamados filmes de Sidney Lumet, e um dos mais belos filmes americanos dos anos oitenta. Drugstore Cowboy vem do mesmo ano, mas dum cineasta num ponto da carreira oposto ao de Lumet – era apenas a segunda longa-metragem de Gus van Sant, e a primeira com atores da primeira linha hollywoodiana (como Matt Dillon). Baseado na autobiografia de James Fogle, traficante e toxicómano, é um olhar sobre a mais radical contracultura “jovem” da América dos anos setenta, construído numa espécie de negativo das figuras arquetípicas da rebeldia juvenil que o cinema americano tanto filmou. Sessão: Sábado, 1 de junho, 15h30
⦁Tucker: The Man and his Dream (Tucker, o Homem e o Seu Sonho, 1988) & La Voce Della Luna (A Voz da Lua, 1989) – O filme de Francis Ford Coppola conta a história de Tucker, um construtor de automóveis revolucionário com uma visão nova para esse meio de transporte, que enfrenta o poder dos grandes industriais de Detroit que procuram destruí-lo, os mesmos que, mais tarde, explorarão as suas inovações. Através de Tucker é de si e do seu trabalho que Coppola fala. Já La Voce Della Luna foi o ponto final da obra de Federico Fellini, e uma despedida bastante amarga –porque é um filme esquecido, é um filme dum luto (não do cinema, mas duma sociedade que tinha o cinema no centro), e é um filme que aponta claramente um inimigo: a televisão. Fellini morreu em 1993, mas este seu filme anunciava muito do que aconteceu e continua a acontecer, na Europa, depois da sua morte. Revê-lo agora será percebê-lo melhor, e fazer justiça à extrema lucidez de Federico Fellini. Sessão: Sábado, 29 de junho, 15h30
Cinemateca Júnior

Entretanto, nos fins de semana do Salão Foz, haverá com certeza muita areia – poderemos embarcar na maior aventura de verão dos anos 80 para depois irmos à praia com o desastrado Sr. Hulot:
⦁Goonies (1985) – Steven Spielberg, Richard Donner e Chris Columbus colaboram na criação deste magnífico épico de aventuras para crianças em que cavernas subterrâneas, galeões afundados e um tesouro perdido de piratas esperam ser descobertos por um grupo de amigos denominado “os Goonies”. Sessão: Sábado, 29 de junho, 15h00
⦁Les Vacances de Monsieur Hulot (As Férias do Senhor Hulot, 1953) – O senhor Hulot é o homem que perturba as normas, revelando os pequenos vícios e o ridículo que fazem parte da vida comum de todos nós, num mundo que tem aqui o seu microcosmo numa estância balnear. Os atos de Hulot são, contudo, involuntários e inocentes e é do contraste com a reação dos outros que nasce o humor. Sábado, 22 de junho, 15h00
Finalmente, em secções paralelas e ciclos mais curtos, realçamos ainda a oportunidade de ver novamente o Sr. Hulot em ação, bem como a iniciativa do Cineclube das Gaivotas, que irá projetar um dos filmes mais populares de Pedro Almodóvar:
⦁Trafic (Sim Sr. Hulot, 1971) – o senhor Hulot é, neste filme, representante de uma firma automobilística que vai expor no Salão Automóvel de Amesterdão o seu mais recente modelo de caravana de campismo. A viagem é cheia de acidentes que são outras tantas caricaturas dos problemas de tráfico de hoje, com acidentes e engarrafamentos que fazem com que Hulot só chegue ao destino depois de encerrada a exposição. Sessão: Sábado, 1 de junho, 21h30
⦁Hable Con Ella (Fala Com Ela, 2002) – Almodóvar filma a história de dois homens que se ligam de amizade, quando se encontram no hospital onde um deles trabalha. Um vela amorosamente uma jovem bailarina em coma há vários anos. O outro não sabe como agir com a mulher também em coma. “Fala com ela”, diz-lhe o primeiro. Enquanto esperam um milagre, passam os sonhos, as ilusões e a fantasia. Sessão: Terça-feira, 18 de junho, 19h00


