Artavazd Pelechian: a Natureza e a “realidade ausente”

(Fotos: Divulgação)

O documentarista e teórico Artavazd Pelechian apresentou na Cinemateca em estreia mundial o seu primeiro filme em 26 anos: A Natureza

Nem Caos, nem política“. Assim respondeu Artavazd Pelechian à questão levantada por uma espectadora de La Nature, o seu novo trabalho documental, 26 anos depois de Kyanq, o seu último filme. A questão tinha o propósito de saber se este novo filme, que teve ontem, 29 de maio, a sua estreia mundial, teria uma conotação ecológica e política na sua conceção.

Nele, e durante sensivelmente uma hora, o espectador é confrontado com os habituais contrastes presentes nas obras do cineasta e teórico arménio, como aquelas observadas em Os Habitantes e A Estação, entre outros. Havia alguma pertinência na questão, muito em voga nos dia hoje (O Clima nas agendas politicas), mas Pelechian preferiu responder de forma seca: o que lhe importa no processo criativo é “a realidade ausente” e o “invisível” , de certa maneira sugerido que é perceção do espectador que cola “os buracos/os espaços em branco” que a montagem propositadamente deixa destapados. “Sim, 50% são imagens ausentes. Isso torna a obra mais viva (…) Se olhar para um prédio, quero é saber o que está atrás dele“, disse Pelechian na sala Félix Ribeiro, mais uma vez repleta de espectadores, destacando-se um enorme contingente de conterrâneos do realizador, que assumiram as lides na sessão de perguntas e respostas.

Curiosamente, La Nature, pode aparentar o tal caos (de onde surgirá a ordem, tal como a dor leva à construção/nascimento no belíssimo Vida), mas Pelechian dá mais a sensação de sugerir a magnificência da Natureza, capaz de destruir e construir no mesmo ato. “É possível ver beleza na destruição?“, questiona outra voz na sala. O arménio não responde diretamente, mas lá diz que não sente a necessidade de apenas mostrar a beleza, apesar de o ter feito num segmento ao som de Mozart.


Basta, porém, olhar para as imagens das explosões vulcânicas, da lava a escorrer, para ver um duplo sentido nelas, uma ambiguidade, um paradoxo. Na verdade, assistimos a um ato de destruição para uma (re)construção, uma defesa e procura de equilíbrio de um planeta que nos tem como meros convidados.

Maremotos, sismos, degelo, deslizamentos, fluxo pirolástico, tornados e outros fenómenos naturais invadem as imagens de La Nature como esses elementos de caos, de destruição, avessos ou quiçá ligados ao Homem, mas,  inversamente, esses mesmos fenómenos são pontes para o tal equilíbrio natural que desequilibra o Homem.

Mas o que está então por trás de isto tudo? O que é o “invisivel”? Qual é a realidade ausente? É o Homem? Sim, até certo ponto. A própria Natureza? Certamente. E o que é essa natureza? A resposta fica para cada um, pois o que o cineasta oferece são colagens de imagens de arquivo – sem causas, mas com efeitos – bem construídos e delineados ao seu estilo, onde sequências cortadas abruptamente dão lugar a novas de índole diferente, tal e qual com a própria natureza o faz. Nisto, Pelechian destrói e reconstrói o seu filme nos seus 60 minutos de duração, tudo numa linhagem de pensamento de quem “escreve um argumento” na sala de montagem ao ritmo de quem compõe música, não faltando por aqui a sonoridade de Mozart, Terterian e do inevitável Shostakovitch – paredes meias com os sons gritantes e pavorosos da natureza a “trabalhar”: “Shostakovitch é um compositor genial para filmes. É verdadeiramente cinematográfico e é por isso que gosto de trabalhar com a música dele. Pela sua profundidade do pensamento “.

Isto tudo não é magia. É Natureza. É cinema…E agora só falta o cineasta completar a segunda fase do seu plano de vida: levar o guião de Homo Sapiens a filme. E sem imagens de arquivo. Que venha depressa…

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