O resgate do primeiro amor torna-se um tema díptico Fora de Competição em Cannes, trazido por dois realizadores de gerações bem diferentes e, cada um à sua maneira, impondo um cinema sobretudo emocional. E existe uma linha que os liga que dá pelo nome de Claude Lelouch, o veterano cineasta que regressa à passadeira vermelha do Palais para colocar o espectador na crença das paixões resistentes e dos escapismos amorosos.
No seu Les Plus Belles Années d’une Vie, a última parte da trilogia iniciada em 1966 com Um Homem e Uma Mulher (Un Homme et una Femme), revisitamos as personagens interpretadas por Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant (já não as víamos há 33 anos), que vivem sob os ditames de uma prisão cercada pelo desejo e arrependimento. Trintignant, mostrando mais uma vez como os anos não lhe estão a ser favoráveis, é novamente Jean-Louis Duroc, outrora piloto de carros, agora estagnado e restringido aos sonhos e mais sonhos, uma fuga idealizada do lar onde reside com previsão até à sua mortalidade, que só poderá ser trazida por Aimée e a sua doce Anne Gauthier. Sentimos aqui um onirismo algo “failsafe”, uma fantasia de octogenário que acolhe todo um historial cinematográfico. Por exemplo, ver Trintignant de volta à estrada é um encontro imediato com a inesquecível jornada de Ultrapassagem de Dino Risi.
As fantasias persistem atravessando os códigos gerais da ficção cinematográfica, idealizados desde a sua Idade do Bronze (como diria D.W. Griffith, para um filme basta uma rapariga e uma arma). É um cinema de memória que faz vénia ao legado, este emanando o seu encanto através do esperado reencontro, instalado numa autêntica narrativa de camadas, mas vinculadas numa só tendência – a primeira paixão como uma fénix que é reavivada após o contacto entre Trintignant e Aimée.
As lágrimas acompanharam a projeção, até porque nos familiarizamos com a história e muito mais o destino que a reserva, não apenas narrativo, como também meta. “O tempo destrói tudo” retiramos nós de um certo filme de Gaspar Noé com Monica Bellucci, que, aliás, faz uma curta mas pujante aparição. Ela prevê esse fim, os olhos lacrimejantes dirigidos a Trintignant são de alguém que conhece a sentença.

E Lelouch persiste, agora apenas como “fantasma”, no gesto de La Belle Époque, o novo filme de Nicolas Bedos (Mr & Mme Adelman), que em termos equacionais é uma espécie de Truman Show com After Life de Hirokazu Koreeda, tudo embrulhadinho em papel de “feel-good movie“.
O título do filme é também o café construído em estúdio que replica a memória de um cartunista (Daniel Auteuil) que deseja reviver o seu primeiro amor. Resumindo tudo a um teatro interativo, onde um psicótico Guillaume Canet controla todo o ambiente de forma a satisfazer o seu cliente. Todavia, é quando as emoções começam a tomar conta do “palco” que alguém compara: “é como ver um filme de Claude Lelouch”.
O realizador confirmou ao C7nema (entrevista a ser publicada brevemente) a importância do veterano na sua carreira e, coincidentemente, as “vibes” que recebe do “mestre” com o qual partilha a mesma Selecção. As referências terminam, o resto é um punhado de acasos, tal como Les Plus Belles Années d’une Vie, La Belle Époque joga com esse revisitar de paixões passadas como antídoto a um estado acelerado do ponto final existencial. Porém, as emoções são outras, disfarçado como comédia, nem que seja pelas suas caricatas personagens (Canet incluído), a obra prossegue num registo melodramalhão, porque de resto aprendemos com o enredo, a nostalgia é somente um estado nunca uma repetição: “nunca voltes ao lugar onde já foste feliz“.


