Uma série de excelência não merecia um fim banal!

[Spoilers]
Sabem quando entramos numa loja e vislumbramos o casaco mais bonito do mundo? Caríssimo. Valores acima de uma renda de casa. A compra imediata é impossível. Estratégia? Esperar pela época de saldos. Tiramos fotografias, tomamos nota da referência. Primeiro dia de saldos, vamos à loja e tipo trabalho arqueológico, escavamos prateleiras, desbravamos cabides e nada… o casaco, nem vê-lo. Desesperados, perguntamos à funcionária que, olha para nós, com ar de piedade e diz: “acabei de vender o último”. Nós, meio em choque, meio incrédulos, saímos do estabelecimento comercial e percebemos que a única solução é aceitar, com tristeza, que aquela peça de vestuário não fará parte do nosso guarda-roupa.
Foi assim que terminei de ver o episódio final de Guerra dos Tronos, resignada à tristeza. Chocada com o facto de ter esperado 8 anos por saldos.
Quem anda nesta vida do cinema e da televisão já aprendeu, com custo emotivo, a não criar expetativas e a lidar com desilusões. Lost, Dexter, Seinfeld, etc, ensinaram-nos tudo aquilo que não deve acontecer no fim de uma série mas, mesmo assim, parece que os profissionais da área não aprendem, nem nós aprendemos a lidar com a certeza da desilusão. Durante 8 anos tivemos uma relação com os Stark, os Lannister, a/os Targaryen, entre tantos outros. 8 anos!

Ao longo de 8 temporadas criamos teorias, esperamos que George R.R. Martin terminasse de escrever os livros, não tanto porque os queríamos ler, mas porque esta escrita representaria a existência de uma base sustentável para o processo criativo de David Benioff e D.B. Weiss. Mas tal não aconteceu e no momento em que a série HBO deixou de ter um documento como fonte e apesar de, nas últimas temporadas, terem existido alguns rasgos de genialidade criativa, o erro começou a ter lugar, mas pior do que o erro, foi a desilusão.
Ontem, estava preparada para o pior. Felizmente tenho certificado de luto, cortesia de Sons of Anarchy, cuja morte final ficará registada para sempre na minha mente. Às 2h da manhã, sentei-me em frente à televisão e esperei o pior. Não esperava ou temia mortes, esperava uma conclusão. Mas o fim não foi de todo o que esperava. Não estou triste, estou profundamente desiludida. Atordoada com perguntas, chocada com a pressa demonstrada em chegar ao fim, pesarosa por, enquanto fã, não ter tido a conclusão merecida. Ficamos sem muitas respostas, tantas pontas soltas, tantas personagens sem um fim digno, tanta injustiça para com 8 anos de relação.

Como é que um fã pode aceitar a morte diminuta de uma líder com uma simples facada no coração? Ao menos Cersei Lannister morreu num cenário de batalha. Como é que um dragão que matou milhares de pessoas de repente ganha consciência e põe fim ao trono de ferro, destruindo a metáfora vigente na série desde o minuto zero? Como é que o verdadeiro pretendente ao trono é submetido à justiça e a uma pena por um sujeito cujo “poder” podia facilmente ter sido destronado? E Bran? Tantas perguntas, nenhumas respostas. Arya? Virou pirata? Perceberam? E Sansa, transformou-se numa espécie de Rainha Virgem, “casada” com o Reino, tipo Elizabeth I de Inglaterra? Que patetice foi aquela em torno de Edmure Tully? Uma tentativa de restabelecer o poder feminino a Sansa Stark depois da polémica em torno do discurso de “aceitação da violação”?

Sinto-me injustificada. Não era o fim que desejava. Não gostei do encerramento com um sentido de “porta aberta à continuidade” – se tivermos em conta a reunião de Mesa do novo Conselho Régio. Queria mais, mesmo que isso representasse ou justificasse mais uma temporada. Mesmo que implicasse mais polémica ou mais navegar por terrenos desconhecidos.
Merecíamos mais, nós os fãs. Mereciam mais as incríveis personagens.

