Uma loucura bem presente na série HBO desde a primeira temporada.

[Nota: o texto que se segue inclui spoilers]
Na história da televisão nunca uma série teve tanta influência como este projeto criado por David Benioff e D.B. Weiss. Com Lost aconteceu algo parecido – no sentido de que exigia aos fãs uma espécie de trabalho de casa em que se discutiam teorias e possibilidades – mas quando Lost teve o seu ponto máximo de sucesso, a internet e sobretudo as redes sociais não tinham o desenvolvimento nem o impacto que têm hoje. Guerra dos Tronos ultrapassou todas as expetativas e está constantemente na ordem do dia, em sites, nas redes sociais e até na mente e ação do Presidente dos Estados Unidos da América.
Ao longo de oito temporadas, oito anos, conhecemos algumas das personagens mais fascinantes da televisão. Ao longo de oito temporadas, apaixonamo-nos por algumas figuras, criamos ódios por outras. Muitas vezes invertemos as paixões e os ódios. Fomos surpreendidos positivamente quando menos esperávamos, assistimos ao crescimento e desenvolvimento de muitas personagens e cedo aprendemos a não nos apegar a ninguém.
Esta última temporada tem sido a mais polémica de todas. Muito pelas decisões no âmbito da escrita, por opções cinematográficas, pelos arcos narrativos das personagens e sobretudo pelas mortes de elementos que seguimos ao longo de oito anos – mais tempo do que muitas relações nas nossas vidas. Na fase final desta aventura com características medievais e repleta de magia, muito se tem escrito acerca de que a série tem tido manifestações de racismo, de machismo e, neste último episódio, de injustiça para com Daenerys Targaryen.

No que diz respeito às duas primeiras polémicas, compreendo algumas das “acusações”, mas no que diz respeito à Daenerys, não estou de acordo. Acho que o fim da Khaleesi, Mhysa, A Nascida da Tormenta, A Não Queimada, A Quebradora de Correntes, A Mãe de Dragões, está traçado há muito. Daenerys Targaryen desde muito cedo na cronologia da série mostrou ser uma pessoa complicada. Uma pessoa que, por motivos trágicos, nunca conheceu uma família no verdadeiro sentido da palavra mas da qual herdou uma delicada informação genética; foi criada por um irmão sociopata que a vendeu para beneficio próprio e tornou-se uma mulher que quando ganhou consciência do seu poder, usou a sua força para conquistar cidades, culturas e força militar. Mas, como em qualquer processo de conquista, que como nos contam milhares de anos de História da Humanidade, nunca é correto ou justo.
Se em Cercei Lannister era explícita a ânsia e o desejo pelo poder e pelo trono com Daenerys e sob a sua figura angélica, pele branca, cabelos prateados, vontade óbvia de domínio, os seus métodos despóticos foram sendo disfarçados ou adormecidos entre atitudes de humanidade. Na sua missão de libertar os escravos, de terminar com a tirania, de conquistar tudo e todos, a Nascida da Tormenta foi se transformando ela própria numa ditadora. Vamos às provas.
Na primeira temporada, depois de “vendida” a Khal Drogo, percebeu que com sexo conseguia manobrar o mais poderoso dos dothraki. Aprendeu a língua nativa, ficou grávida do Garanhão Que Monta o Mundo e perante a perceção de que a sua popularidade estava a crescer, tal como a inveja do irmão, não evitou a morte de Viserys, nem a lamentou. Ainda na primeira temporada matou o marido (travando o seu sofrimento), perdeu o filho, incendiou-se e viu nascer três dragões a que chamou de filhos.
Na temporada seguinte, depois de passar dias e dias no Deserto Vermelho, chegou a Qarth e aqui, depois de pouco conhecimento acerca de diplomacia e política, viu os seus dragões serem roubados. Como resposta imolou um feiticeiro e trancou vivos num cofre os traidores.
No terceiro capítulo Daenerys chegou à cidade de Astapor, na Baía dos Escravos. Aqui, “comprou” um exército de Imaculados, queimou vivos mais uns quantos seres humanos, libertou escravos e matou os seus senhores. Adicionou ao seu exército os Segundos Filhos que tinham Daario Naharis como líder.
Chegamos à quarta temporada e vimos Daenerys a marchar sobre a última cidade da Baía dos Escravos, Meereen. Aqui, impulsionou mais uma revolta de escravos. Executou 163 governantes como “justiça” pela chocante morte de 163 crianças escravas e quando descobriu que os seus dragões foram responsáveis pela morte de uma criança, aprisionou, nas catacumbas da cidade, dois dos seus dragões: Rhaegal e Viserion (sendo que Drogon na altura está desaparecido).

Quinta Temporada. A popularidade da libertadora de escravos começa a entrar numa espiral negativa. Os próprios escravos não sabem lidar com a liberdade, o negócio das arenas / gladiadores que gera receita e que tem séculos de tradição está em risco e os nobres da cidade tentam fazer com que Danny perceba isto. Os Filhos da Harpia levam a cabo uma revolta pois não aceitam a liderança da mulher. A frágil disputa diplomática termina numa arena, com Drogon a incendiar culpados e inocentes.
Na sexta parte da aventura HBO, e depois de raptada por uma horda dothraki, a Targaryen incendeia um templo e mata todos os khals e guerreiros que lá estão dentro.
Sétima temporada e a vida da Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens torna-se cada vez mais complicada. Se em Essos chegou, viu e conquistou, quando chega a Westeros, tudo muda. Em Dragonstone cria uma espécie de Conselho de Guerra, com o qual planeia a tomada do trono mas conhece Jon Snow e faz uma pausa na sua demanda pelo poder para ajudar a luta dos vivos contra os mortos. Pelo caminho apaixona-se, vai a King’s Landing e conhece Cersei Lannister e quando começa a lidar com homens e mulheres habituados a jogar o jogo do poder depressa percebe que o seu papel e sobretudo o reconhecimento e manutenção do título de Rainha não será fácil.
É também nesta temporada que mata violentamente Randyll e Dickon Tarly (o pai e irmão de Samwell Tarly). Os dois homens foram queimados vivos por Drogon, após a derrota na Batalha da Goldroad. Estas mortes serviram para Daenerys Targaryen mostrar ao mundo que quem não estava do seu lado estava contra ela e merece a morte. Ignorando valores, séculos de história e sobretudo “honra de cavalaria”. Em momento algum mostrou arrependimento por estas mortes, nem quando, numa tentativa de saldar uma dívida para com Sam (por este ter salvo Jorah Mormont) lhe conta que matou o seu pai e o seu irmão.


