À luz de John Carpenter, o medo ganha contornos poéticos em Cannes

(Fotos: Divulgação)

John Carpenter em grande destaque no Festival de Cannes com a atribuição da Carroça de Ouro

Apaixonado por Howard Hawks (1896-1977) no seu humanismo capaz de tratar os conflitos sociais ou políticos sempre no alcance dos olhos, na dimensão do corpo, John Carpenter, 71 anos, desenvolveu um estilo tão plural,na sua conexão com o cinema de género, quanto o de seu mestre, o que levou a sua obra a ser premiada no Festival de Cannes nesta quarta-feira, 15 de maio.

Criaturas de um mundo sinistro, resgatadas do baú cinéfilo das décadas de 1970, 80 e 90, materializaram-se em fumo de gelo seco e em acordes musicais no Théâtre Croisette, na cerimónia de abertura da Quinzena dos Realizadores (mostra paralela à luta pela Palma de Ouro), como um tributo a um dos maiores artesões do horror da indústria audiovisual de todos os tempos, responsável por Halloween (1978), Eles vivem (1992) e outros filmes de culto. Coube a ele o troféu Carroça de Ouro. Batizada com o nome de um clássico de Jean Renoir, a distinção é concedida a mestres da realização desde 2002, tendo contemplado cineastas autorais como Agnès Varda, Werner Herzog e Martin Scorsese.

Transportar plateias para o mundo da luz e para as sombras que as rodeiam é a minha missão como cineasta“, disse Carpenter, numa plateia que incluía fãs ilustres como o italiano Dario Argento.

Antes do prémio ser entregue, uma cópia restaurada de A Coisa (The Thing, 1982) foi projetada em honra do arquiteto cinematográfico do assombro que, hoje, compõe mais músicas e escreve guiões de banda-desenhada do que faz filmes. Seguidamente, ele conversou com os cineastas Katell Quillévéré e Yann Gonzalez sobre o conjunto da sua obra. 


A Coisa

Há um mistério que me acompanha desde a minha primeira incursão por uma sala de cinema, em 1951, quando tinha 3 anos e fui ver A Rainha Africana, protagonizado por Humphrey Bogart, com o meu pai. Perguntei-lhe onde ficavam aquelas pessoas que eu via no ecrã e ele respondeu; ‘Elas moram na luz’. Até hoje, já aos 70 anos, ainda vivo atrás dessa luz“, disse o cineasta.

Elogiada pela imprensa no Velho Mundo em peso, a escolha de Carpenter para receber a Carroça é um reconhecimento tardio ao legado de um mestre do terror, o qual não filma mais por falta de financiamento. A sua última longa-metragem, O Hospício, é de 2010. O que hoje ele faz é compor músicas e lançar discos com melodias não aproveitadas em filmes, como o caso do CD Lost themes, e a banda-sonora do novo Halloween (2018), de David Gordon Green, que estreou no Dia das Bruxas e encheu salas no mundo todo.

O cinema de horror é político, crítico por natureza, o que exige dos seus realizadores a necessidade de se trabalhar de forma independente da vontade dos estúdios“, disse Carpenter numa entrevista à Associação de Críticos do Rio de Janeiro para o livro O medo é só começo, onde faz um balanço da sua carreira. “Filmes como ‘A noite dos mortos-vivos’ só foram possíveis, com toda a excelência que carregam, por terem sido gestados de forma livre. De modo geral, as pessoas têm medo das mesmas coisas: morrer, sofrer… Com a consciência do medo, eu posso trabalhar de modo mais frio, até porque, fui parar no terror para poder sobreviver, mas queria mesmo era fazer westerns. No terror, encontrei um espaço para criar“.

Com a fama de ter um temperamento de indigesto para o padrão das grandes corporações de Hollywood, Carpenter acabou perdendo espaço como realizador depois do fracasso comercial de Fantasmas de Marte, em 2001. O seu último sucesso de bilheteria, Vampiros, já contabiliza 20 anos. Porém, as suas longas de juventude como Assalto à 13ª Esquadra (1976) são citados como referência por realizadores do mundo todo, de Quentin Tarantino a Kleber Mendonça Filho. Há uns três anos, versões em BD de dois dos seus maiores êxitos de público – As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim (1986) e Nova Iorque 1997 (1981) – tornaram-se best-sellers nos Estados Unidos, desafiando a hegemonia dos heróis da DC e da Marvel na venda de comics. E a toda hora surge um novo remake dos seus clássicos.


Assalto à 13ª Esquadra

Estou velho, cansado de trabalhar, mais interessado em me distrair e em receber os cheques gordos que me pagam para refazer minhas ideias do passado“, disse ele numa entrevista ao The New York Times no início do ano, antes de ser convidado pelo festival de Veneza. “Não é mau envelhecer com as pessoas a pagarem para usar o seu nome em versões requentadas de filmes que me deram muito trabalho no passado“.

Diante de todo o prestígio do realizador, acaba de ser lançado no Brasil uma caixa de DVDs com o melhor da sua obra. A box reúne as longas Dark Star (1974), Someone’s Watching Me! (1978); e Body Bags (1993), além do já citado Assault on Precinct 13.

Após a homenagem ao realizador, a Quinzena dos Realizadores projetou uma bizarríssima comédia francesa do cineasta Quentin Dupieux (de Rubber – Pneu): a hilária, porém esquisita Deerkskin (Le Daim). Nela, Jean Dujardin (vencedor do Oscar por “O Artista“) vive um sujeito que gasta 700 euros com um casaco de camurça e fica obcecado pelo traje, fazendo dele um amigo a quem abre o seu coração. Ele enlouquece em nome do projeto pessoal de eliminar todos os outros casacos que existam no mundo. Chega ao ponto de assassinar pessoas encasacadas, para assegurar que só ele tenha um traje desse tipo. Só pela descrição dá para notar que é uma trama excêntrica, como todas de Dupieux. Mas é difícil não cair na gargalhada com ela. E Dujardin tem um desempenho luminoso em cena. A fotografia esmaecida é assinada pelo próprio realizador.

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Deerskin

Na competição oficial, a quarta foi marcada pela língua portuguesa, na projeção de Bacurau, um enervante estudo sobre controle e vigília, construído como um thriller de Walter Hill, com ação ininterrupta e uma fotografia preciosa de Pedro Sotero. Num texto da Indiewire, o crítico David Ehrlich define o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles como uma mistura de Os sete samurais com Hostel, meio Kurosawa, meio Eli Roth. Analogia precisa. Tradição e pós-modernidade convivem na saga de um vilarejo para frear uma horda de caçadores de pobres: um grupo de estrangeiros liderados pelo alemão Michael (Udo Kier, em estado de graça) mata habitantes de uma cidadezinha do Nordeste, num Brasil do futuro com drones em forma de disco voador. Silvero Pereira, no papel do poeta bárbaro Luga, é um dos destaques entre a trupe de talentos dramáticos, assim como Bárbara Colen, como Teresa.

Nesta quinta-feira, a competição segue com Atlantique, da cineasta Mati Diop, e com o novo trabalho do vencedor de duas Palmas, Ken Loach, do Reino Unido: Sorry we missed you. Mas a atração principal do dia é a passagem de Elton John pela Croisette, para a antestreia de gala de Rocketman, de Dexter Fletcher, releitura da trajetória de sucessos e fracassos do cantor.

Cannes termina no dia 25, com a entrega de prémios e a projeção de Hors norme, da Olivier Nakache e Éric Toledano, dupla responsável pelo fenómeno Untouchables (Amigos Improváveispt; Intocáveisbr).

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