Depois do tributo a Agnès Varda, chega-nos as cordialidades. O júri entra em palco de forma a dar inicio a uma Competição que promete antes de mais ser diversificada, quer pela sua origem, dispersa pelos quatro cantos do Planeta, quer pelos temas, alguns atuais, outros já mobília na História do Festival. O Cinema, esse, será discutido no desenrolar da edição … e esperemos que sim, para o bem de Thierry Frémaux e a sua posição anti-Netflix. Contudo, Cannes faz o seu arriscado gesto, e na sessão de imprensa, transmitida em simultâneo do Grand Theatre Lumieèe, as reações foram instantâneas.
O Festival decide dedicar uma compilação caprichada que condensa a carreira de Alejandro G. Iñarritu, o realizador mexicano vencedor de dois Óscares da Academia, que se assume presidente deste Júri de 2019. A dedicatória visual chega a ser longa, colocando à nossa mercê as seis longas-metragens que constituem a sua obra. E depois do ensaio motivacional, o mesmo sobe ao palco motivando uma disputa sonora na bancada de jornalistas presentes. Por entre aplausos, apupos, e até mesmo repreensões, a presença de Iñarritu não deixa ninguém indiferente, sendo para alguns o “pior realizador da atualidade”, para outros um dos últimos a conceber o drama como um espetáculo cinematográfico.

Na verdade foi o seu tempo de antena – que tão bem poderia apaziguar as tribos com um discurso ao apelo da preservação do Cinema e o dito legado (terminando por referir que é o tempo que ditará tudo) – que converteu tudo numa pura chacota por um corte de edição que levou-nos para a expressão aborrecida de Bill Murray. A trégua entre os fãs e os “haters” concretizou-se, a anedota foi contada, e por breves segundos o riso uníssono e endurecedor de centenas de jornalistas emudeceram as palavras inspiradas de Iñarritu.

Já que falamos de piadas, o filme de abertura deste 72º Festival de Cannes pode muito bem se enquadrar nesse registo. Mesmo que Jim Jarmusch mine o seu The Dead Don’t Die com “pequeníssimas” pérolas numa revisitação pós-modernista do universo zombie, este é um daqueles filmes que o seu lado de paródia parece querer ocultar o óbvio: a falta de imaginação e criatividade alicerçada a um subgénero tão saturado.
O elenco é de luxo, disso não há dúvidas, indo de Bill Murray a Chloë Sevigny, Adam Driver a Tilda Swinton, Selena Gomez a Iggy Pop, passando pelos “desaparecidos” Steve Buscemi e Danny Glover, todos eles estrelas dos seus próprios sketches, peões de uma obra que não se reconhece na caricatura ou no “camp” que por vezes segue com casualidade passional.
A plateia riu … e o quanto se riu … mas no final a desilusão tomou o Palais. Esperava-se mais que uma simples anedota. A expetativa era alta e o desafio de fazer algo frutífero nesta mesma temática era grande. Nem um, nem outro. Jim Jarmusch brincou com mortos-vivos … só isso.

