Nesta nova rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa.

São variadíssimas as personalidades, as temáticas e os contextos envolvidos nas mais de 100 obras que serão exibidas em maio na Cinemateca, onde decorrerão duas secções da 16ª edição do festival IndieLisboa. O programa conta ainda com a presença de dois dos nomes mais enigmáticos do mundo do cinema na nossa capital: Anna Karina e Artavazd Pelechian. Aqui ficam as nossas sugestões para navegarmos pelas iniciativas da Cinemateca sem perder o rumo.
A Cinemateca com o IndieLisboa: Anna Karina

A «Heroína Independente» do IndieLisboa, Anna Karina, estará em Lisboa entre 5 e 9 de maio para apresentar alguns dos seus filmes e participar num encontro com o público no dia 8 de maio, às 19h00. As suas colaborações com alguns dos mais conceituados realizadores europeus, particularmente com Jean-Luc Godard, Jacques Rivette e Rainer Werner Fassbinder, são as principais atrações desta retrospetiva:
⦁ Alphaville (1966) – Ditadura tecnocrática. Abolição de sentimentos. Inexistência de poesia. Eis o cenário desta misteriosa ficção científica futurista realizada por Godard que lhe valeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim. Sessão: Terça-feira, 7 de maio, 15h30
⦁ Bando à Parte (1964) – Dois cinéfilos convencem uma estudante a ajudá-los num furto; mais tarde correm durante nove minutos contínuos pelos corredores do Louvre… Este filme é um dos grandes momentos do cinema moderno. Sessões: Segunda-feira, 6 de maio, 15h30; Terça-feira, 7 de maio, 18h30
⦁ Roleta Chinesa (1976) – Um casal vai passar um fim de semana num castelo, separadamente, cada um com o seu/a sua amante e têm a surpresa de se encontrar frente a frente. A filha do casal põe em movimento um cruel “jogo da verdade”, gerando um ambiente ameaçador sobre o qual paira a ameaça do nazismo e a inquietação de um enigma por desvendar. Sessão: Sábado, 11 de maio, 21h30
⦁ A Religiosa (1966) – A segunda longa‑metragem de Rivette adapta o romance homónimo de Diderot sobre uma jovem que é posta num convento à sua revelia. Essa jovem é personificada magnificamente por Karina. Sessões: Quarta-feira, 8 de maio, 21h30; Sexta-feira, 17 de maio, 19h00
⦁ O Soldado das Sombras (1960) – Contando a história de um desertor francês que se alista num grupo de extrema‑direita suíço, do qual mais tarde tenta fugir por amor a uma mulher, Le Petit Soldat foi um dos mais polémicos filmes de Godard, chegando a ser proibido em França durante três anos. Sessão: Sexta-feira, 3 de maio, 15h30
⦁ Pedro, o Louco (1965) – Indubitavelmente o mais famoso, tresloucado, intenso e leve, inovador e moderno filme de Godard. Pierrot e Marianne deixam subitamente Paris e seguem pelas estradas de França, recusando a civilização burguesa e preferindo viver o instante e o dia a dia. Sessão: Segunda-feira, 6 de maio, 19h00
⦁ Uma Mulher é Uma Mulher (1961) – Esta é a primeira colaboração de Karina com Godard e apenas a sua segunda atuação no grande ecrã. Angela é uma dançarina de cabaret que pensa na maternidade, enquanto se entende e desentende com o marido e com o amigo dele, com quem encena um triângulo amoroso. Um filme de humor elegante. Sessão: Sexta-feira, 3 de maio, 21h30
⦁ Viver a Sua Vida (1962) – Um dos mais conceituados filmes de Godard, e na verdade apenas a sua terceira produção, que dá conta da ambição de uma jovem mulher que entra no mundo da prostituição para concretizar o seu sonho de ser atriz de cinema. Assombroso. Sessões: Quinta-feira, 2 de maio, 15h30; Quinta-feira, 9 de maio, 18h30
A Cinemateca com o IndieLisboa: Director’s Cut

Esta pequena secção da programação conjunta do IndieLisboa com a Cinemateca propõe-se a celebrar a história do cinema, a sua memória e o seu património. Destacamos:
⦁ Ladrão de Alcova (1932) – Esta é uma comédia de sexo e dinheiro, sobre enganos e mistificações, sobre ladrões de luva branca e joias preciosas, para quem o roubo é um estimulante erótico ou o prolongamento natural do amor. Com diálogos atrevidíssimos, esta obra escapou a tempo ao Código Hays, sob o qual nunca poderia ter passado. Sessão: Quinta-feira, 2 de maio, 19h00
1939 – Dançando Sobre um Vulcão

O vulcão que dá título a esta secção é a alegoria do início da 2ª Guerra Mundial, que a Cinemateca nos convida a repensar com vinte obras que assumem aqui o papel de “sismógrafo”: se queremos sentir como a terra tremeu anunciando a erupção do vulcão de 1939, vejamos os filmes desse ano:
⦁ Conto dos Crisântemos Tardios (1939) – A tragédia do amor de uma mulher por um homem, que a ele tudo devota com plena consciência de que o seu triunfo na arte do teatro kabuki implicará a renúncia a esse amor. Esta reflexão sobre as tradições e sobre os sacrifícios dos indivíduos em prol da comunidade e da arte é uma das mais ousadas obras de Mizoguchi. Sessões: Quinta-feira, 23 de maio, 15h30; Sábado, 25 de maio, 21h30
⦁ A Regra do Jogo (1939) – O mais lendário filme de Jean Renoir. Sem personagem principal, com nada menos do que oito protagonistas, “sem história”, implacável e demencial, objeto de tanta ira como de admiração, La Règle du Jeu é a obra máxima de Renoir, mostrando‑nos uma coreografia em que a câmara acompanha as fugas e jogos de amor das personagens numa mansão senhorial. Sessão: Segunda-feira, 13 de maio, 21h30
⦁ Peço a Palavra (1939) – Frank Capra assume o seu empenho sociopolítico com esta produção em que James Stewart, no papel de um americano idealista, descobre a corrupção no Senado americano e entra em luta com os elementos corruptos do sistema. Sessões: Terça-feira, 14 de maio, 15h30; Quarta-feira, 15 de maio, 21h30
⦁ Ninotchka (1939) – Este filme de Ernst Lubitsch é uma prodigiosa sátira antissoviética, que transforma Greta Garbo numa insípida agente comunista que se deixa seduzir pelos encantos do capitalismo – as noites de Paris, o champanhe, os trajes elegantes e o amor de Melvyn Douglas. Sessão: Quinta-feira, 16 de maio, 15h30
⦁ Paraíso Infernal (1939) – A única coisa mais bela que o estoicismo sacrificial dos heróis desta história é descobrir que a moeda que Cary Grant atira ao ar sempre que se depara com uma dúvida não tem, na verdade, coroa. Um filme tão belo quanto o seu título. Sessão: Segunda-feira, 13 de maio, 15h30
⦁ Young Mr. Lincoln (1939) – Inspirando‑se num episódio da vida de Abraham Lincoln no começo da sua carreira de advogado, John Ford dirige esta ficcionalização da primeira década profissional daquele que viria a ser um dos mais populares presidentes norte-americanos. O extraordinário Henry Fonda protagoniza o filme. Sessão: Quarta-feira, 15 de maio, 15h30
Double Bill

Para aqueles que desejam dedicar o seu sábado à cultura cinéfila, eis duas sessões duplas imperdíveis:
⦁ À Beira do Abismo (1946) & O Imenso Adeus (1973) – O clássico de Howard Hawks é a quintessência do filme noir: pleno em “ambiente” e fobias, repleto de personagens traiçoeiras e vidas noturnas, e filmado em jogos de luz e sombra, é ainda protagonizado por uma mítica dupla de atores, de um período de ouro de Hollywood – Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Nas mãos de Robert Altman, o irreverente The Long Goodbye constitui uma das mais curiosas revisitações a essa herança do filme noir, incluindo a inusitada performance central de Elliot Gould, num papel de anti-herói. Sessão: Sábado, 25 de maio, 15h30
⦁ Os Inadaptados (1961) & Touro Enraivecido (1980) – The Misfits é um filme de despedidas, comovente e poético, que captou as últimas atuações de duas gigantes estrelas de Hollywood: Clark Gable e Marylin Monroe. Já Raging Bull veio consagrar o sucesso de Martin Scorsese atrás da câmara e de Robert De Niro à frente dela. Quer numa obra, quer noutra, os atores dão tudo de si e a espantosa fotografia a preto e branco tenta roubar-lhes protagonismo. Lado a lado, são dois filmes contrastantes: o primeiro marca o fim de uma época e o segundo o auge de outra. Sessão: Sábado, 18 de maio, 15h30
Cinemateca Júnior

Na sala de cinema mais confortável de Lisboa salientamos dois filmes que deslumbrarão qualquer um:
⦁ Mary Poppins (1964) – Quem não quer ver no grande ecrã a mais encantadora Julie Andrews? Ou ouvir a sua voz soprano inesquecível cantar as mais cativantes músicas de infância? Quem não quer, a bem dizer, reviver aquela inocência que faz ver como real o puro imaginário? Sessão: Sábado, 4 de maio, 15h00
⦁ Serenata à Chuva (1952) – Esta obra-prima de melodias, coreografias, cores e diversão é sem dúvida um dos maiores sucessos de Hollywood. E ensina-nos aquela lição existencial que já celebrava Alberto Caeiro: «Não desejei senão estar ao sol ou à chuva – ao sol quando havia sol e à chuva quando estava chovendo (e nunca a outra coisa)». Sessão: Sábado, 18 de maio, 15h00
A obra selecionada este mês de entre as sugestões dos espetadores é ainda uma oportunidade a usufruir, bem como a escolha da secção «Inadjetivável», que conta com uma das mais brilhantes comédias de Billy Wilder:
⦁ Esposas e Concubinas (1992) – Com a ação a decorrer na China da década de vinte, o filme retrata a vida de uma jovem mulher que se torna numa das concubinas de um homem rico durante a Era dos Senhores da Guerra (1916‑1928), quando o país se encontrava dividido em chefias militares. Sessão: Segunda-feira, 27 de maio, 19h00
⦁ Um, Dois, Três (1961) – Sátira genial da autoria de Wilder numa sarcástica incursão pela Guerra Fria. James Cagney é um executivo da Coca‑Cola em Berlim Ocidental cuja filha se apaixona por um comunista empenhado numa campanha contra a multinacional. Hilariante. Sessão: Quarta-feira, 29 de maio, 21h30


