Se o público português anda ausente das salas, pelo menos nesta semana a falta de qualidade dos filmes não poderá ser desculpa. Dos sete filmes que foram lançados, a qualidade é grande e para todos os gostos. A destoar apenas “Scary Movie 5”, exclusivo para entusiastas do franchise, e “Catch 44”, lançamento tardio de uma obra rotineira.
Política: nas selvas das Filipinas
Muçulmanos, terroristas e reféns entrincheirados no ambiente sufocante das selvas filipinas são o mote de “Cativos”, filme denso que recria um episódio verídico ocorrido em 2001. Isabelle Huppert está entre o grupo de pessoas sequestradas num hotel e levadas para a selva. Além das caminhadas e da vida dura sob intempéries e escassez, são constantemente apanhados em meio a tiroteios entre forças oficiais e guerrilheiros.
Obra estreada no Festival de Berlim do ano passado, com vários atrativos, entre os quais o facto do mais conhecido cineasta filipino (Melhor Realizador em Cannes em 2009), Brillante Mendonza, evitar um tom moralizante ou estereotipado das forças em causa.
Política: eram uma vez os 60s…
Já lá vão os “nobres” tempos em que os jovens declaravam guerra aos seus governos. Em “Regra de Silêncio”, de Robert Redford, vê-se que, nos “anos dourados”, mesmo numa nação rica como os Estados Unidos, havia teenagers enfurecidos dispostos a atos de violência para defender os princípios nos quais acreditavam.
Quarenta anos depois, os dilemas emocionais e familiares superam a ideologia e a preocupação agora é defender os filhos dos atos passados. Um dos antigos “guerrilheiros” a enfrentar o dilema é Jim Grant (Robert Redford) que, após ser desmascarado por um jornalista “abelhudo” (Shia La Beouf) tem de se pôr em fuga para encontrar uma forma de acertar as contas com o passado e garantir o futuro da sua filha.
Cinema de Autor: Goethe vai ao submundo
Um dos maiores nomes do cinema russo, Alexander Sokurov, mergulha a clássica peça teatral de Goethe, “Fausto”, no lodo. A história do médico (vivido pelo ator austríaco Johannes Zeiler, conhecido em Portugal por… “Rex e o Cão Polícia”!) que faz um estranhíssimo acordo com o diabo – personificado num bizarro e deformado homem de uma loja de penhores – para obter o interesse de uma jovem por quem estava apaixonado, ganha aqui contornos quase delirantes.
Ao recriar visualmente uma personagem que só interessava ao escritor alemão em termos filosóficos, Sokurov trouxe com ela a caracterização de uma época que, embora não determinada, é marcada por uma dimensão física bastante palpável. O responsável pela fotografia, Bruno Delbonnel, curiosamente é o mesmo do luminoso “O Fabuloso Destino de Amélie”… Ganhou o Leão de Ouro em Veneza, em 2011.
Sessão nostalgia: a mulher que viveu mais de duas vezes
“Vertigo” continua a inspirar cineastas nostálgicos e o filme de Alfred Hitchcock que melhor sobreviveu ao tempo é uma das principais fontes de inspiração de “A Melhor Oferta”. Giuseppe Tornatore, o realizador de “Cinema Paradiso” e “Estamos Todos Bem”, conta aqui a história de um famoso leiloeiro (Geoffrey Rush), tão bem sucedido quanto misantropo, que subitamente tem a sua atenção despertada por uma nova e misteriosa cliente (Sylvia Hoek).
A investigar o misterioso trauma da qual ela sofre (agorafobia agravada por pânico de pessoas, que a obriga a comunicar-se com o leiloeiro através de uma porta), Rush acaba por embrenhar-se em sentimentos e dilemas que desconhecida completamente. Um filme rico em mistério, beleza e nostalgia.
Blockbusters: a ficção científica de volta à inteligência
Lapsos de memórias, predadores, humanos enigmáticos, clones, computadores poderosos, devastação terrestre, uma casa entre as montanhas, o poder dos livros e, pelo menos, dois romances: “Esquecido” tem isso tudo e o argumento consegue a façanha de equilibrar os elementos e sair-se um produto de ficção científica no seu melhor nível.
Tom Cruise é um técnico responsável pela manutenção dos “drones”, instalações que garantem o envio de água para o planeta onde vivem os humanos sobreviventes de um holocausto nuclear. Ao lado dele, numa sofisticada vivenda futurista, vive… (Andrea Riseborough). Mas as coisas complicam-se, a todos os níveis, quando “cai do céu” uma cápsula trazendo uma misteriosa personagem (Olga Kurylenko). Por trás de tudo, John Krasinski, realizador de “Tron, o Legado”.

