Comboio Noturno para Lisboa: uma viagem transcendente ou uma locomotiva ofegante?

(Fotos: Divulgação)

 

 O professor de uma língua morta (latim) Raimund Gregorius vegeta numa existência cinzenta na modorrenta Berna – onde a sua solidão é tal que até joga xadrez sozinho. Quando se depara com um casaco vermelhíssimo nas mãos, num chocante contraste com as paisagens marcadas por uma chuva torrencial – ainda para mais pertencente a uma potencial suicida e com um aliciante livro no bolso – todos os signos lhe são fornecidos para fazer o que se calhar já devia ter feito há muito: por sua vida em movimento e atirar-se rumo ao desconhecido. 
 
Enigmáticas para ele mas conhecidas de todos nós, as belas paisagens lisboetas fazem o seu próprio brilharete pelas lentes do fotógrafo Filip Zumbrunn – enquanto o professor perambula aqui e ali à procura dos vestígios do médico que lutou na resistência antifascista às vésperas do 25 de Abril (vivido por Jack Huston). Pelo meio depara-se com os sobreviventes dos velhos tempos, que entre cafés, cigarros e copos de vinho tinto (ou não estaríamos em Portugal) vão-lhe montando as peças do puzzle ao mesmo tempo que a oftalmologista Mariana (Martina Gedeck, do magnífico “A Vida dos Outros”) lhe conserta os óculos e lhe faz “olhinhos”. 
 

Festival de Berlim: comboio para o esquecimento 

Os bons números de bilheteira até o momento vão fazendo os produtores e o realizador Bille August esquecerem da sua passagem pelo Festival de Berlim, onde o crítico do Hollywood Reporter, fazendo eco aos seus entediados colegas, foi buscar clássicos dos Monkees e de Gladys Knight e saiu-se com essa: “Pegue um comboio para Clarskville, um comboio noturno para a Georgia, qualquer coisa, menos esta ofegante locomotiva”. O público austríaco, alemão e suíço não se importou com “bocas” do género e tem concedido ao filme belos índices no box-office.
 

Nós por cá

Em Portugal quase de tudo já se disse sobre o filme e depois de três conferências de imprensa, onde um sincero Jeremy Irons alertou repetidas vezes – olhando de soslaio para o presidente da Câmara – que não se permita que a ganância destrua a riqueza arquitetónica da cidade, pouco ficou por acrescentar. Resta saber se o público português, cada vez mais escasso nas salas de cinema, ingressará nesta viagem.
 

O pedigree Huston

O ator Jack Huston, que teve um papel no “Crepúsculo” e andou na série “Boardwalk Empire”, tem um sólido background familiar – não fosse ele neto do grande John Huston e sobrinho de Angelica. Ele fornece uma grande vitalidade ao protagonista – compondo com seus companheiros da resistência (a francesa Mélanie Laurent, o alemão August Diehl e o português Marco de Almeida), o núcleo dramático central do filme. 

 

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