
Como festival de documentários, o próprio festival se torna um documento do estado deste tipo de cinema e das preocupações das pessoas que o fazem e que o vêem. Mantém-se, mesmo que o realizador e o tema não o sejam, uma visão ocidental do mundo, propagada pela globalização económica e mediática. Mantêm-se também as diversas dúvidas na diferença entre o explorar um sistema que explora pessoas e o explorar dos explorados por um sistema, no voyeurismo jornalístico dos casos pessoais em detrimento da explicação menos visual da situação geral, bem como outros temas já muito debatidos sobre a criação de documentários. No entanto, o tema que mais surgiu nas introduções dos realizadores foi a economia e a falta de apoios na produção.
Ainda que os custos na realização de documentários possam ser reduzidos, todo o sistema de produção e distribuição dependem de fundos. Se estes fundos forem exclusivamente privados, corremos o risco de tudo o que possa ser incómodo para os mecenas desapareça, originando-se um único discurso, previamente censurado e livre de qualquer polémica, em paralelo com a maioria da produção mediática comercial. É essencial a subsidiação pública da arte e da cultura, onde se originam várias narrativas e onde a dissensão pode ter lugar. Uma das áreas onde mais se sente essa necessidade é na do cinema documental, já que esta pretende representar uma versão dos acontecimentos que se tornará “História” com os anos (mesmo apesar de todas as suas limitações). Corremos o risco de estarmos a reescrever continuamente a História para servir interesses que não interessam nem servem o público, perdendo a nossa identidade e a possibilidade de crítica. Quando o Orçamento de Estado fala em reduzir o apoio às artes, este é um cenário assustador.

