Há uma ideia falaciosa, que está na base de muitas outras da classe média, em que houve, a algum momento da História, um momento paradisíaco onde os indivíduos eram livres para fazerem o que queriam sem prejuízo para a sociedade. Foi em busca dessa liberdade que partiu José Miguel Ribeiro para Cabo Verde e, baseado nos cadernos que desenhou nessa altura, fez esta curta de 17 minutos. É um filme graficamente interessante, com um estilo característico a uma literatura de viagem que apareceu há uns anos e onde constantemente podemos ver essa ideia do paraíso de fugir a horas e a pessoas. Na sua ingenuidade, há-de agradar a muita gente, mas acaba por estar a propagar essa ideia falaciosa original. (6/10)
“Li Ká Terra” segue o dia-a-dia de dois jovens origem cabo-verdiana, nascidos em Lisboa, enquanto tenta regularizar a sua situação no país. Na apresentação do filme, a co-realizadora Filipa Reis referiu que haveria situações ridículas pelas quais passariam os dois, mas, no desenrolar do filme, vemos apenas os problemas causados pela inactividade das pessoas perante a burocracia e os protestos destas pela dificuldade de regularizar uma situação causada por elas. No meio disso, temos dois adolescentes a crescerem e a tentarem definir-se, muitas vezes de forma contraditória, reforçada pelas diferenças culturais. É um filme que terá um interesse relativo, mais para a auto-vitimização de algum imigrante descontente ou para a auto-diminuição culposa da classe média liberal. (5/10)
João Miranda

