
O cerco de Leninegrado é um dos episódios importantes da Segunda Guerra Mundial. Cercada por dois anos e meio, com milhão e meio de evacuados e outro tanto de mortos, quer pelos bombardeamentos, quer pela fome, a cidade foi a primeira a receber o título de Cidade-Herói. Em 1981, Daniil Granin e Ales Adamovich publicaram um livro com centenas de testemunhos de pessoas que sobreviveram ao cerco. Apesar de ter sido muito censurado pelo regime soviético, porque o sofrimento nele retratado ia contra a imagem oficial de heroísmo, as histórias nele incluídas dão uma ideia do que terá sido viver esse período. Alexader Sokurov, prolífico realizador nascido na Sibéria, filma, para este seu “Reading Book of Blockade”, várias pessoas a lerem passagens deste livro.
É um filme arriscado, com resultados desiguais, dependendo da pessoa e da passagem lida, mas que acaba por funcionar e consegue dar uma imagem da situação tremenda em que se encontravam as pessoas durante o cerco. O cenário da leitura é um estúdio improvisado e a emoção que existe é a passada pelos próprios leitores, de tipos tão diferentes como alunos de escola, militares, actores ou uma assistente de loja. Entre a voz modulada e as entoações enfáticas dos actores, o tom mais ríspido dos militares e a casualidade inocente das crianças, é mesmo na leitura de uma assistente de loja que a emoção atinge um dos picos, incapaz ela própria de a conter perante o lido.
É uma lição de história e um olhar inconveniente para a nossa cultura de excesso e de impaciência. Infelizmente, para os muitos adolescentes que enchiam o Pequeno Auditório da Culturgest, essa mesma impaciência impede-os de perceber o filme e acabam por sair dele com pouco mais do que uma colecção de histórias desagradáveis de fome e morte.
O Melhor: Os resultados de um conceito tão simples.
O Pior: As leituras estão desiguais.
A Base: É uma lição de história e um olhar inconveniente para a nossa cultura de excesso e de impaciência…7/10
João Miranda

