doclisboa 2010: ‘Cuchillo de Palo (108)’ por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Durante a ditadura de Alfredo Stroessner no Paraguai, já de si um país com uma forte cultura católica e conservadora, a homossexualidade era proibida. Num episódio conhecido, 108 homens foram presos, torturados, humilhados e exibidos em praça pública, dando origem à expressão “108”, ainda hoje usada para se referir a homossexuais e o nome não-espanhol do filme. “Cuchillo de Palo” é a segunda parte de um ditado espanhol, correspondente ao nosso “Em casa de ferreiro, espeto de pau”. E é a filha de um ferreiro, a realizadora Renate Costa, que tenta perceber o contexto da morte do seu tio, Rodolfo Costa, falando com várias pessoas, incluindo o seu pai.

É um filme que se desenrola a vários níveis: a história pessoal de Rodolfo, que assumia à noite o nome Hector Torres e que sofreu às mãos do regime pela sua homossexualidade, a relação entre a realizadora e o seu pai, um representante do irredutível conservadorismo, o tratamento dos homossexuais num regime brutal, onde era publicada uma lista com todos os homossexuais e espalhada por escolas e bancos para humilhar e impedir o acesso destes a locais e cargos de importância. Conforme se vai compreendo melhor a história de Rodolfo, vai-se percebendo a extensão do tratamento da ditadura dos homossexuais e vai aumentando a tensão entre a realizadora e o seu pai.

Apesar do final do regime de Stroessner em 1989, a sociedade paraguaia continua muito conservadora: aquando da estreia do filme, este teve de ser estreado na Casa de Espanha, porque todos os cinemas são em centros comerciais, onde os travestis não podem entrar. Só com a derrota do partido conservador em 2008, começaram a surgir mais testemunhos que ajudaram ao filme, ainda assim, houve quem preferisse ficar anónimo. É um documentário histórico, mas também o retrato da separação geracional entre a realizadora e o seu pai, onde os silêncios se vão impondo entre os dois ao ponto do desconforto.

O Melhor: O Pai, tão irredutível, mas sem nunca se tornar um monstro.
O Pior: Há situações em que não se percebe o grau de manipulação/preparação envolvida.

A Base: É um documentário histórico, mas também o retrato da separação geracional entre a realizadora e o seu pai…7/10

João Miranda

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