District 9: o Apartheid Alien

(Fotos: Divulgação)

Estreia próximo dia 24 de Setembro em Portugal, “District 9” o filme de ficção científica mais aguardado de 2009. Depois da recepção espectacular que o projecto teve no Comic-Con, veio a consagração nas salas americanas: foi um sucesso de bilheteira inquestionável e recebeu uma gigantesca ovação pela crítica.
A estreia do sul-africano Neill Blomkamp vem produzida por Peter Jackson (“The Lord of the Rings”) e faz-nos ver e viver uma versão mais real do que seria a presença de extra-terrestres a viver na terra. Um apartheid humano-alien com contextos intensos e dramáticos, num filme que parece querer fazer história.

Uma produção acidental

Neill Blomkamp, realizador de “District 9”, nasceu na África do Sul em 1979 mas aos 18 anos mudou-se para Vancouver (Canadá) e desenvolveu uma carreira como técnico de efeitos especiais. Trabalhou em séries como “Stargate SG-1”,“Smallville” e “Dark Angel”, tendo chegado a ganhar um Emmy por este último trabalho.

Realizou também anúncios para a Nike e Panasonic. Paralelamente, produziu e realizou algumas curtas metragens bem sucedidas como “Alive in Joburg”, um grande sucesso em festivais de cinema, e “Crossing the Line”, uma curta que marcou a primeira colaboração entre Blomkamp e o seu mentor, Peter Jackson.
Foi pela mão de Peter Jackson que o realizador sul-africano veio a chegar ao seu primeiro projecto como realizador de uma longa-metragem, e logo num “blockbuster” aparatoso: “Halo”, uma adaptação de um muito bem sucedido videojogo.
Com três empresas envolvidas – a Universal, a Fox e a Microsoft – e com um orçamento musculado de 150 milhões de dólares, “Halo” era produzida por Peter Jackson e requisitava um realizador com experiência na área dos efeitos especiais.
Mas este projecto megalómano acabou por ser cancelado, por desentendimentos entre os executivos das diversas empresas, e pela falta de confiança que o filme fosse dar lucro perante tamanho investimento.
Peter Jackson incentivou então Neill a escrever uma versão longa da curta-metragem que o havia notorizado: “Alive in Joburg”.
Com a ajuda da argumentista Terri Tatchell, Neill escreveu “District 9”, um projecto bem mais pessoal que “Halo”, e que prometia abanar o cinema de ficção científica.
A Wignut, de Peter Jackson, produziu com o apoio da Tri-Star, com um orçamento bem abaixo da média de um filme de ficção científica com a sua projecção: 35 milhões de dólares.

Apartheid Alien

Há vinte anos atrás, uma nave espacial gigante apareceu nos céus de Joanesburgo. Depois de muita tensão e antecipação, os humanos aperceberam-se que a nave se encontrava… encalhada no céu. Dentro dela, milhares de extra-terrestres, com um aspecto ameaçador mas um comportamento até bastante pacífico.

Estes refugiados alienígenas foram colocados numa zona exclusiva, o tal “District 9” do título, onde criaram uma pequena comunidade. Os atritos entre os “aliens” e a comunidade humana eram inevitáveis e foram-se agravando com o tempo, forçando as autoridades a isolarem cada vez mais o “District 9”.
Passados vinte anos, a tensão continua no “apartheid humano-alien”. Os humanos querem que os extraterrestres sejam expulsos, enquanto estes reclamam por melhores condições de vida.

Para resolver a situação, a organização governamental MNU (Multi-National United) encontra um novo local mais remoto e tenta remover a comunidade “alien” de Joanesburgo. Para o processo de transição envia um perito para o “District 9”, Wikus Van Der Merwe (Sharlto Copley, em estreia no cinema) para analisar a situação. Ele irá descobrir que há muito na zona “extra-terrestre” que os humanos desconhecem…

Um projecto muito pessoal

Considerando que Neill é natural da África do Sul, é mais que evidente que “District 9” é, para além de um grande filme de acção e ficção científica, um filme muito pessoal e até, porque não, de autor.

Isto salta logo à vista na aparência fotográfica do filme. Tudo é filmado debaixo da luz ofuscante do sol africano, uma escolha fotográfica inédita para um filme com extra-terrestres, que geralmente aparecem à noite e em cenários escuros. Em “D9” vemos “aliens” em plena luz do dia, a andar na rua, com a imagem a roçar o branco e cheia de vento e poeira.
Neil explica que sempre fora um entusiasta da ficção científica e tivera pena que, no seu país natal, o género fosse quase inexistente. Um dos seus objectivos principais com “D9” passava por introduzir um conceito de uma presença “alien” na Terra fora dos cenários habituais dos EUA e da Europa.
“As pessoas já estão demasiado habituadas a que os filmes de ficção científica sejam escuros e soturnos. Se mostras elementos fantásticos em plena luz do dia, com poeira a passar, será muito mais real. E esse era o meu objectivo: fazer um filme fantástico mas que fosse muito realista”.
“D9” faz justiça à ambição de fazer um filme realista presente nesta citação de Neill, mas não só na posta em cena e na fotografia, mas também na sua narrativa. O herói, Merwe, faz amizade na comunidade com um pai e filho extra-terrestre, que têm uma relação verdadeiramente carinhosa e familiar. Muitos críticos dizem que o filme tem dos momentos mais emocionantes do género fantástico desde… “ET, o Extra-Terrestre”!
E ainda injectando um tom mais realista ao relato, vem o seu contexto geopolítico: o filme faz enormes paralelismos com o apartheid da África do Sul e com as actuais tensões raciais do “melting-pot” que é o Mundo na área pós-11 de Setembro.
 
 
 

Os monstros e os intervenientes

Apesar de “D9” apresentar dramas familiares do ponto de vista dos extra-terrestres, a aparência das criaturas é, no entanto, repelente e inquietante.

Na criação dos monstros, Neill queria que eles fossem visualmente assustadores mas com contornos capazes do espectador criar empatia por eles.
Por isso mesmo, as criaturas parecem insectos gigantes, fazendo lembrar segundo Neill “criaturas de colmeias”, pois o seu objectivo passava por ter a repelência dos insectos assim como o seu sentido de unidade e comunidade – todos muito iguais. Estes “aliens” deviam ser vistos como “todos iguais” aos olhos dos humanos mais temerosos.
Por outro lado, as criaturas tem um rosto com características algo humanas, para que o espectador sentisse carisma pelos extra-terrestres principais e não os visse com indiferença. O equilibro entre monstro e humano é o que encontramos no filme.
Para além dos extra-terrestres, temos outro grande interveniente: Wikus, interpretado por Sharlto Copley, um estreante em cinema.

Este foi outro cunho pessoal de Neill, a escolha de um actor da sua terra natal que o realizador descreve como o “Borat da África do Sul”, mas que nunca havia actuado para o grande ecrã nem planeia fazer carreira disso. A crítica foi unânime em aplaudir a performance de Copley, que tem doses perfeitas de seriedade e humor.

A campanha

“District 9” foi um dos filmes mais esperados de 2009. Uma história nova (nada de “remakes” ou “sequelas”), um conceito arrojado, o envolvimento de Peter Jackson e uma campanha bastante bem conseguida, que manteve a incógnita e a curiosidade até à estreia.

Tudo começou no Comic-Con de 2008, com salas “reservadas apenas para humanos” e pistas para o site do “District 9” (http://www.d-9.com) pertencente a uma falsa agência governamental que faz o controlo de toda a área e que divulga propaganda anti-alienígena. Meses depois apareceu um site pirata (http://www.mnuspreadslies.com) criado por um dos extra-terrestres, que tenta expor a verdade por detrás da D-9 e os crimes do governo humano. Uma campanha que funcionou mais do que só como um paralelismo com a situação de África do Sul, pois ganhou contornos muito semelhantes ao que se passou, ao mesmo tempo, no rescaldo das eleições no Irão este ano.
Nos EUA, dias antes da estreia, haviam posters nas paragens de autocarros e forrados em prédios, designando áreas “só para humanos”, sem referirem o filme em questão (como boa propaganda governamental) apenas com um número de telefone para se ligar em caso do avistamento de extra-terrestres. Para os mais curiosos o número era 866 666 6001 (não esquecer o indicativo americano).
Marketing viral de “District 9” chega a Portugal

O autocarros da STCP e da Carris já estão restritos só para humanos…

 
 
 
 

A recepção

“District 9” estreou nos EUA a 14 de Agosto deste ano em número 1 conquistando 38 milhões no fim-de-semana de abertura (ultrapassando logo o seu custo).

A recepção foi mais que positiva. O passe de palavra do público fez com que o filme já tenha ultrapassado os 100 milhões de receita na América e seja aguardado com grande expectativa na Europa.
No agregador Rotten Tomatoes, o filme tem 89% de críticas positivas e um consenso da crítica é no mínimo animador, com muitos a considerarem o filme como um novo clássico da ficção científica.
Já se fala numa sequela, e Neill afirma que gostaria de fazer uma e que tem ideias para tal, mas que o seu novo projecto não terá “nada a ver” com “D9” ou sequer com ficção científica.
Para já o autor parece querer gozar um pouco do seu estado de graça. Mas também que melhor estreia na realização pode pedir um cineasta?

José Pedro Lopes

 
“District 9” estreará em Portugal no dia 24 de Setembro de 2009.

Últimas