Foram divulgados os resultados do box-office deste fim de semana e apesar de ser óbvio o fraco resultado de «Homens de Negro 3», há que ir mais longe e ver que todo o box-office foi calamitoso. Assim, e antes de nos começarmos a debruçar sobre a razão deste fim de semana ter sido o desalento que foi, há que contextualizar alguns tópicos.
Os meses de maio, junho, setembro e outubro são, normalmente, os mais fracos em termos do box-office em Portugal. Assim o foi em 2004 (junho foi o pior), 2005 (junho), 2006 (junho) e 2010 (maio).
Somando todos os espectadores por mês desde 2004, junho é mesmo o pior mês, com um total de 8,33 milhões de espectadores. Logo a seguir surge maio, com 9,1 milhões de espectadores. Isto em 8 anos.
Convém dizer que estes dois meses são verdadeiros híbridos nos hábitos das pessoas. É normalmente neste período que ocorrem os exames escolares, que levam muitos espectadores a «estarem de férias» mas a terem de se focar nos estudos. A isto soma-se uma espécie de inicio oficial de muitos festivais de música urbanos, e não podemos esquecer os santos populares, tudo elementos que de certa maneira afastam as pessoas das salas de cinema. Se somarmos a isto um Europeu de Futebol (8 de junho a 1 de julho) e um sol que tem aquecido de forma esquizofrénica (levando muita gente às praias), então avizinham-se tempos ainda mais complicados para os exibidores e distribuidores.
Assim sendo, não é de estranhar que num fim de semana com Rock In Rio e muitos exames prestes a começarem o publico se afaste das estreias, especialmente num ano de crise e onde o espectador é cada vez mais seleto a escolher as suas obras (ainda que para concertos o dinheiro pareça interminável). Para além disso, há que dizer que ir ao cinema já não é um evento por excelência. Os filmes invadem mil plataformas, e nem é preciso ir à pirataria para encontrar culpados. Há filmes no videoclube da TV, há canais de cinema, há VOD na internet, há DVD’s, Blu Ray, etc. Tudo isto são formas de apresentar os filmes de forma doméstica e o espectador habituou-se e vai continuar a habituar-se cada vez mais a ver os filmes no pequeno ecrã e não no grande.
Querem um bom exemplo do fim do cinema como um evento de grande magnitude? Apesar de ter sido anunciado há umas semanas atrás, ainda há bilhetes à venda para antestreia de luxo do filme «Cosmopolis» no CCB. De notar que é publico que David Cronenberg e Robert Pattinson vão estar presentes. Se estivéssemos a falar de uma banda ou cantor, provavelmente já não havia bilhetes há vários dias…
Posto isto, vamos às particularidades da tabela desta semana:
O fim de semana de 25 a 28 de maio foi o pior do ano em termos de espectadores. Pegando no Top 40 de estreias, temos valores a rondar os 118 mil espectadores em quatro dias, o que significa que em 2012, os dois piores fins de semanas do ano estão no mês de maio. Se as coisas não melhorarem nos próximos três dias, até pode bem acontecer que todos os filmes da tabela não atinjam os 200 mil espectadores, o que transforma o resultado num dos piores dos últimos dois anos.
O Ditador
Pode-se dizer que «O Ditador» foi a única força resistente a este colapso. Com 36.064 espectadores, o filme conseguiu o primeiro lugar da tabela outra vez e ao segundo fim de semana ficar com uma média de 32 espectadores por sessão, um valor que comparado com o resto do box-office, é muito bom. O filme vai agora com 113.628 espectadores, um número, por exemplo, acima de «Bruno» em 2009.
Homens de Negro 3
Por mais voltas que se dê a este valor, o seu resultado no fim de semana é bastante mau, sendo de esperar que durante a semana exista uma correcção acima. Com uma presença (que se revelou) exagerada em 86 salas, o filme alcançou 21.332 espectadores, ou seja, 16 pessoas por sessão. Este é um valor extremamente baixo para uma estreia, ainda para mais tratando-se de um potencial blockbuster. No final da semana, a obra nunca chegará perto dos resultados alcançados por «Eu Sou a Lenda» (155.231 espectadores em dezembro 2007) e «Hancock» (103.058 em julho de 2008).
O melhor que o filme pode conseguir é chegar perto/ultrapassar «Sete Vidas» (38.864 em janeiro de 2009) – isto falando de filmes protagonizados por Will Smith. O facto de se tratar de uma sequela muito tardia não ajuda em nada a promoção da obra – que tem ainda como desvantagem o facto do segundo filme ter sido uma verdadeira trapalhada e de Will Smith não ser o ator mais apetecível do momento para o público português.
Para empurrar ainda mais para baixo o valor desta obra, há que ter em consideração que em épocas de crise (há exemplos vários no tempo da depressão e do pós guerra) os géneros mais fantásticos (terror e ficção cientifica) colapsarem no box-office. O público prefere algo que os anime, mas algo mais terreno e não agentes a lidar com extraterrestres (outro elemento que não atrai muito o português). Por isso, «American Pie – O Reencontro» foi o sucesso que foi. E embora tenha sido uma sequela também tardia, trazia com ela uma nostalgia adolescente que «Homens de Negro» não possui.
Sombras da Escuridão
O último filme de Tim Burton conseguiu mais 15 mil espectadores ao terceiro fim de semana, um valor positivo mas numa obra que sofreu – à sua maneira – no box-office um pouco como «Homens de Negro 3». A fita tem contudo uma parceria (Burton/Depp) que os portugueses confiam minimamente e por isso os seus valores mostram-se mais sólidos, ainda que muito longe de serem espectaculares. O certo é que o filme já ultrapassou os 105 mil espectadores, mas o facto de ter valores mais fracos que «O Ditador», por exemplo, é revelador de alguma surpresa. Sinais dos tempos e mais uma vez o fenómeno da fraca reação do público a comédias de horror (apesar do culto, elas têm sido um fiasco, umas atrás das outras).
As restantes estreias:
O fim de semana foi diabólico para todas as estreias, mas ainda assim que há menções positivas (sempre nivelando as coisas por baixo). «Amigos, Amigos…sexo à parte» teve 4.649 espectadores em 22 salas e uma média de 14 espectadores por sala. Não estamos perante um valor muito positivo, mas esta é uma obra profundamente indie e o seu resultado é comparativamente (salas/espectadores) superior ao de «Espera aí… que já casamos» há umas semanas atrás…
«A Pesca do Salmão no Iémen» abriu com 3.710 espectadores em 15 salas, nada mau para um filme independente que conseguiu ter a mesma média que «Homens de Negro 3».
Pior sorte teve «Impune», filme carregado com algumas estrelas (sendo Al Pacino a maior). O filme abriu em 15 salas (mais 19 sessões que «A Pesca do Salmão») mas conseguiu apenas 2.485 espectadores, o que deu uma média de 10 espectadores por sala.
Ainda mais fraco foi o resultado de «Marley», embora o facto de ser um documentário ajude a que o filme tenha menos audiência. Em sete salas a obra conseguiu 487 espectadores, o que deu uma média de 7 espectadores por sessão (o valor mais baixo do Top 25, ex-aequo com «À Segunda não me escapas»).
Mais abaixo na tabela está «Machos contra fêmeas», filme que estreou em apenas duas salas e conseguiu 465 espectadores, um valor (tal como o acima de «Marley») verdadeiramente residual, mas mais positivo que «À Queima Roupa» (189 espectadores em quatro salas) e «Michael» (99 espectadores em 1 sala).
Fim de semana de 25 a 28 de maio

