Mais um festival que terminou, mais um balanço a fazer. Este ano marcou-se por ser tão pouco impressionante: vistos 37 filmes dos mais de 200 seleccionados, incluindo todos os que estavam nas competições nacional e internacional, não houve nenhum que tivesse verdadeiramente apaixonado ou surpreendido. O que não quer dizer que não tenha havido bons filmes: desde os delirantes “Rubber”, “Finisterrae”, “Kaboom” ou “O Barão”, passando pelos documentários “Tabloid”, “Detroit Ville Sauvage”, “Grande Hotel” ou “A Linha Vermelha” até aos mais calmos “Les Amours Imaginaires”, “Brownian Movement”, “Simon Werner A Disparu”, “The Myth of the American Sleepover” e “Memory Lane”. O festival ficou também marcado pelos trabalhos (longe de perfeitos, mas que revelam um grande potencial) de novos realizadores portugueses como “América” e “O Que Há De Novo No Amor?”.
Com cortes nas verbas disponíveis, desapareceram algumas secções do festival, mas não foi isso que causou a sensação de vago descontentamento, antes, parece ter havido uma mudança nos critérios de selecção de filmes dos últimos anos para este. Ou poderá ter sido a selecção que fiz que não se revelou a melhor, apesar de ter recebido mais ou menos a mesma sensação de outras pessoas no festival.
Anos difíceis se aproximam: com os cortes progressivos no financiamento público da Arte, o cinema será, como se pode ver já na situação actual da Cinemateca, profundamente afectado, isso e a guerra de algumas salas de cinema e produtoras independentes com as grandes distribuidoras, que acabaram de fazer como vítimas as salas do Saldanha Residence, parecem indicar que o cinema em Portugal poderá estar sujeito unicamente aos interesses económicos dos grandes jogadores na indústria. Por outro lado, os meios de produção estão disponíveis agora a mais pessoas, permitindo fazer grandes produções com orçamentos mais pequenos (como se pode ver no “Monsters” agora em exibição nas salas nacionais) o que poderá resultar num surgir de pequenos filmes de baixa produção com ideias interessantes, talvez permitindo que o Cinema se transforme numa arte social, “do Povo”, como o que Brecht queria fazer com o Teatro no início do século passado.
Quanto ao indie, ficam as promessas nacionais e alguns filmes que farão o circuito comercial nos próximos tempos.
De resto há apenas a considerar um elemento que marca o festival. O Indie continua muito centrado em dramas, tragicomédias e documentários. É raro encontrar obras de terror, thrillers e outros trabalhos de um género mais fantástico. Seria curioso «imitar» Sundance e criar verdadeiras midnight sessions, ainda que seja possível (ou quase certo) passar a ouvir «ainda mais bocas» do Fantasporto, que este ano se mostrou indignado pela imprensa não ter valorizado em 1999 a homenagem que o certame nortenho fez a Júlio Bressane.
Falta assim ao indie ser mais abrangente em géneros, até porque no citado não faltam é obras verdadeiramente independentes e dignificantes para o realizador e herói independente.
Especial c7nema sobre o IndieLisboa’11
João Miranda

