Depois de vários mails de leitores a queixarem-se que a nossa antiga fórmula de apresentar as estreias da semana tinham pouco sentido critico, e apenas mostravam as embelezadas sinopses fornecidas pelos distribuidores nacionais, voltamos esta semana ao modelo “Esta Semana” que utilizávamos em 2003.
Nesta semana de 17 de Março voltamos a ter muitas estreias, talvez demasiadas para um mercado tão pequeno, mas que vêm suprimir, de certa maneira, algumas carências cinematográficas, especialmente no cinema de autor.
Assim, estrearam oito filmes, mas no meio de tanta oferta, há que dizer que não há nenhuma estreia do outro mundo, sendo notório que a maioria das obras já chega tarde e a más horas, e até já se encontram editadas em DVD nos países de origem.
Gnomeu & Julieta (Gnomeo & Juliet)
Talvez comecemos por “Gnomeu & Julieta”, uma versão de animação da famosa história criada por William Shakspeare com gnomos de jardim. Dois desses gnomos vivem em jardins rivais, não sendo aceite a sua relação.
Destaque nesta obra para a banda-sonora de Elton John, e o dueto com Lady Gaga, num filme que triunfou nos EUA, mas que gerou alguma polémica. Segundo Elton John, a Disney nunca simpatizou muito com o filme e tratou de forma desmazelada a sua estreia americana, que segundo o musico poderia ter tido muito mais impacto do que o que teve.
Para quem tem crianças mais pequenas, esta é a sugestão da semana.
Sou o Número Quatro (I am Number Four)
Já para os adolescentes, há três trabalhos que merecem relevo. O primeiro é “Sou o Número Quatro”, um filme de ficção cientifica que tem alguns trajeitos de “Twilight” ou da série de TV “Smallville”. O modelo “adolescentes giros, poderes sobre-humanos, e a descoberta do primeiro amor” está bem presente, numa história que segue um rapaz de outro planeta que tem de fugir de um bando de assassinos também extra-terrestre. Pelo caminho, esse jovem vai descobrindo os poderes que tem e apaixonar-se, colocando-se assim a ele e aos mais próximos em perigo.
O filme ficou aquém das expectativas nos EUA, e apesar de ter um pedido de sequela descarado no fim, é difícil que tal aconteça, tornando-se assim um projecto inacabado. Talvez haja futuro para esta obra na TV?
Depois há também “Guerreiros de Amanhã”, um filme australiano baseado numa série de livros. Neste filme seguimos um grupo de jovens que é confrontado com uma invasão ao seu país, tendo assim de lutar pela sobrevivência. Apesar de não deslumbrar, “Guerreiros do Amanhã” é um interessante produto cinematográfico, especialmente para fãs do filme “Red Dawn”, e das séries de TV “Jericho” e “Sarah Conner Chronicles”.
Guerreiros de Amanhã (Tomorrow When The War Began)
Merece mesmo uma olhadela.
Já os fãs da mais pura acção devem optar por “The Mechanic – O Profissional”, filme que coloca Jason Statham no papel de um assassino exímio que depois de um trabalho que não lhe agradou vai virar-se contra os seus “patrões”. Para o ajudar, ou talvez não, ele vai contar com a companhia de um homem (Ben Foster), cujo maior desejo é encontrar o assassino do pai (Donald Sutherland). Sendo realizado por Simon West (Con Air) seria obrigatório boas sequências de acção e um herói e vilão equiparáveis, e pode-se dizer que tudo isto é cumprido nos limites normais.
The Mechanic – O Profissional
Para um público mais adulto, realce para três estreias do cinema francês. A primeira chega muito tarde, e é o mais recente filme de Jean-Pierre Jeunet, o responsável por Amelie. “É melhor viver com uma bala alojada no cérebro, mesmo que isso signifique que possas morrer a qualquer instante? Ou preferias retirar a bala e viver como um vegetal para o resto da vida? As zebras são brancas com listas pretas, ou pretas com listas brancas? Valem mais os estilhaços que as minas? Cabe uma mulher num frigorífico? Qual o recorde mundial de um homem lançado num canhão?” E porque diabo sempre que procuramos uma localização num mapa ela está numa dobra com pouca visibilidade. Estas são algumas das questões absurdas que se colocam em “Micmacs à tire-larigot’”. Essencialmente trata-se de um filme bastante cómico, que por vezes excede-se em demasia na surrealidade e repega nos velhos “pequenos detalhes”, que de certa maneira já estão esbatidos, na forma, em outros trabalhos do cineasta.
Micmacs – Uma brilhante confusão (Micmacs à tire-larigot)
O filme é de 2009, chegou a Portugal na última Festa do Cinema Francês e passou ainda pelo Fantasporto. Para os fãs da cinematografia de Jeunet, esta é uma obra a não perder.
Quem também tem muitos adeptos no cinema de autor é François Ozon, que regressa aos nossos cinemas com “Potiche”. O filme é altamente estilizado e acompanha a França provincial de finais dos anos 1970. Suzanne Pujol (Catherine Deneuve) é uma esposa dedicada ao seu marido, Robert Pujol (Fabrice Luchini), um empresário com tiques de ditador e com grande consciência do lugar das classes. Após uma greve na sua fábrica de guarda-chuvas, Pujol é hospitalizado, ficando a sua esposa a substitui-lo no cargo. Mas será que uma mulher cujas opiniões nunca foram levadas em conta consegue responder a tal responsabilidade?
Potiche
Após um pobre “Le Refuge”, Ozon regressa com olhares intimistas, mas muito mais audazes e interessantes. Voltando a trabalhar com Deneuve, com quem tinha colaborado em “8 Mulheres”, Ozon consegue criar uma obra charmosa, visualmente interessante e frequentemente divertida.
Mas há mais cinema francês esta semana nas salas. Após a antestreia no Estoril Film Fest, “Copacabana” chega às salas, com uma verdadeira tour de force da sua protagonista (e pessoalmente a minha actriz preferida) Isabelle Huppert. Neste filme ela interpreta Babou, uma mulher exuberante e de espírito livre que contrasta com Esmeralda, a sua filha. Quando Babou descobre que a filha tem vergonha de si, e que nem pensa convidá-la para o casamento, esta eterna hippie decide fazer algumas mudanças na sua vida.

Copacabana
Vencedora do Prémio Especial do Júri João Bernard da Costa, Isabelle Huppert (“La Pianiste”) é a força matriz da obra, onde é ainda possível encontrar muita bossa nova e grandes motivos para rir e pensar.
Finalmente, e entrando talvez no tema mais presente da actualidade, “Homens de Negócios” (The Company Men) segue os meadros do desemprego em quadros técnicos com mais estudos e estatuto social.
Homens de Negócios (The Company Men)
“O filme segue a história de três homens: Bobby Walker (Ben Affleck), Gene McClary (Tommy Lee Jones) e Phil Woodward (Chris Cooper), de idades e responsabilidades diferentes. Todos trabalham para uma empresa chamada GTX, em que ocupam diferentes cargos de topo, acabando por ser dispensados pela companhia.
Com particular incidência na vida de Bobby, o filme mostra as diferentes fases de se assumir o desemprego no contexto actual – sendo que passar a fase da negação seja muitas vezes o caminho mais tortuoso de se seguir.”
Este é um filme contemporâneo e que incide na capacidade do ser humano em se adaptar, ainda que com dificuldade, a novas situações. E mais que a perda de um emprego, denota-se a vergonha da descida da posição social junto dos seus pares.
Jorge Pereira

