‘Torre Bela’ por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

No período pós-25 de Abril, muita confusão havia sobre o que fazer e como o fazer. Ainda antes da reforma agrária, um grupo de trabalhadores rurais ocupa a propriedade da Torre Bela e tenta organizar uma cooperativa agrícola, esforço registado em dois livros: “Die Landnahme von Torre Bela” de Helga Novak e “Torre Bela, On a tous le droit d’avoir une vie” de Francis Pisani; e dois documentários: “Cooperativa Agrícola da Torre Bela”, de Luís Galvão Teles e “Torre Bela” de Thomas Harlan. É este último, estreado em Portugal apenas em 2007, apesar de filmado em 1975 e estreado em Cannes em 1977, que é mostrado no festival.

Torre Bela era a propriedade do Duque de Lafões que, apesar da sua extensão, não era cultivada, sendo usada principalmente como uma reserva de caça. No Verão Quente de 1975, em pleno PREC, e apesar dos atrasos legais relativos à Reforma Agrária e à distribuição de terras, centenas de trabalhadores rurais juntaram-se e ocuparam a propriedade, acompanhados por outras personagens cujos objectivos poderiam não ser tão claros. É um filme, tal como o período, confuso (a qualidade de som não ajuda), com muitas vozes a sobreporem-se umas às outras, com muitas ideias e ideais mal compreendidos ou mesmo deturpados e com a vontade de mudança a antecipar-se à forma de a fazer.

Para qualquer estudante de política ou revolucionário, é um objecto de estudo, mas, para qualquer português, é um filme carregado também de nostalgia. O momento em que Zeca e Vitorino cantam o “Grândola” sobre os muros da propriedade, com centenas de pessoas a juntarem-se em coro, transporta-nos directamente para a ingenuidade e entusiasmo daquela época e arrepia a pela, naquele que assumiu na altura o papel de hino, à semelhança de uma “Marselhesa”.

É um filme fascinante, a nível político, antropológico e histórico, que deveria ser mostrado e discutido nas escolas, agora que tornamos a passar momentos políticos e económicos difíceis e que necessitamos novamente de ideais e de pensar em formas alternativas ao capitalismo selvagem e ao ultra-individualismo consumista que caracteriza a nossa sociedade nas últimas décadas.

Há muitos recursos disponíveis na internet sobre o tema para qualquer pessoa interessada no tema. Um bom sítio para começar é, inevitavelmente, a wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Torre_Bela_(filme). Para quem possa estar interessado no que aconteceu a algumas das personagens que aparecem no filme, há um artigo n’”O Mirante” interessante: . Podem também encontrar-se entrevistas e artigos sobre o filme no dossier da Atlanta Filmes: http://www.atalantafilmes.pt/PDFs/torre_bela.pdf.

O Melhor: O arrepio nostálgico-onírico quando Zeca canta “Grândola”.
O Pior: A qualidade do som, uma versão legendada poderia ajudar.

A Base: É um filme fascinante que deveria ser mostrado e discutido nas escolas…7/10

João Miranda

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