Curtas de Vila do Conde 2010 – Um Balanço

(Fotos: Divulgação)

 

 


Decorreu a semana passada em Vila do Conde, a edição de 2010 do ‘Curtas’, um dos mais importantes festivais de cinema do norte do País. A edição deste ano contou com curtas, longas, ‘showcases’ e uma revisitação às origens do 3d.

 

 
Curtas-metragens

Durante o jantar, enquanto o pai e a mãe comem, o filho aparece trazendo nos braços uma pomba ferida. “O que é isso?” pergunta o pai. “O que te parece?” responde o filho. A mãe olha para a pomba e continua a comer. “Eu quero ficar com a pomba”, diz o filho. “Impossível”, responde o pai. “Eu quero que a pomba fique e quero uma gaiola para ela!”, insiste o filho. “E quem vai pagar a gaiola?” pergunta o pai. “Tu”, diz o filho. A mãe não diz uma palavra. Mais tarde o pai e a mãe encontram-se no quarto…

Esta é a premissa de ‘Colivia – The Cage’, vencedor do Grande Prémio ‘Cidade Vila do Conde’, galardão máximo do Curtas. Esta co-produção entre a Polónia e a Holanda, vem realizada pelo polaco Adrian Sitaru e já havia vencido o DAAD Short Film Award no Festival de Cinema de Berlim. Pode ver um trailer da curta ‘Colivia – The Cage’ aqui:

Blokes’, uma curta chilena sobre um rapaz voyeurista, venceu o prémio de melhor Ficção. Melhor Documentário foi para ‘Vostrau Belarus’ de 52 minutos sobre a Bielorrússia.

Nos prémios principais, o grande triunfo luso foi para ‘Viagem a Cabo Verde’ de José Miguel Ribeiro como Melhor Animação. Este trabalho convida-nos a fazer uma caminhada durante 60 dias (em apenas 17 minutos) por Cabo Verde.
Poder ver algumas imagens da curta de animação portuguesa ‘Viagem a Cabo Verde’ aqui:

O prémio do público foi para ‘I Love Luci’, mais uma prova da vitalidade do cinema independente britânico. Nesta curta de Colin Kennedy seguimos as desventuras de um cão e duas almas perdidas com azar no amor, e problemas de dentes. Pode ver algumas imagens da curta ‘I Love Luci’ aqui:

 

 

Longas-metragens

O Curtas conta também com filmes de longa-duração, de realizadores que já passaram por Vila do Conde, numa demonstração de como o certame nortenho tem vindo a descobrir novos talentos.

O filme de abertura, no entanto, desiludiu: ‘Nowhere Boy’ de Sam Taylor-Wood. Este filme britânico conta a adolescência de John Lennon e os seus dramas familiares, acompanhando o processo que levou à génese dos Beatles. No entanto, o filme não se eleva ao nível do mundano e não respira nenhuma da originalidade da banda de Liverpool.

Un Poissent Violent’ de Katell Quillevere revelou-se um trabalho bem mais fascinante, dentro da veia mais tradicional e de autor do cinema francês. No filme, que esteve na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes,  seguimos Anna, uma adolescente de 14 anos, que volta a casa nas férias da Páscoa para descobrir que o seu pai deixou a família. A sua mãe vive isolada em casa e virada para a religião. Numa terra pequena e muito religiosa, Anna vai apaixonar-se por Pierre, um adolescente de espírito livre e ateísta. Um dos destaques do filme é, sem dúvida, a estreante actriz Clara Augarde, numa performance soberba para uma actriz tão jovem.

O filme-surpresa que fechou o festival foi ‘O Tio Boonme Que se Lembra das Suas Vidas Anteriores‘, filme tailandês que venceu a Palma de Ouro na passada edição do Festival de Cannes. O filme de Apichatpong Weerasethakul é um mergulho na selva que explora temas como a reencarnação e as vidas passadas. Boonmee está muito doente e resolve passar os seus últimos dias rodeado pelas pessoas que ama. O fantasma da mulher já morta aparece para cuidar dele, tal como o filho que regressa numa forma não-humana.  Se o cinema asiática é já uma fonte de criatividade e de bom cinema confirmada, a cinematografia tailandesa raramente surge no nosso país e ‘Tio Boonme’ é uma surpresa que valerá a pena conferir em Dezembro, aquando a sua estreia em Portugal.
Pode ver o trailer do filme aqui:

 

3d a sério

Uma das preciosidades da edição de 2010 do Curtas foi mesmo o ciclo dedicado ao 3d analógico, a primeira vaga da tridimensionalidade que surgiu nos anos 50 e se prolongou até ao início dos anos 90.
‘THE BUBBLE’, ‘FLESH FOR FRANKENSTEIN’, ‘HOUSE OF WAX’ e ‘DIAL M FOR MURDER’ de Alfred Hitchcock (e último, uma verdadeira raridade quase nunca exibida comercial) foram exibidos na retrospectiva Analog 3D do festival. ‘House of Wax’ foi um dos filmes mais emblemáticos da primeira vaga do 3d, e a sessão de sexta-feira à noite onde este pequeno mostruário de horrores regressou aos ecrãs portugueses foi memorável.
Há que constatar que, visto em cinema, o 3d analógico não passa nenhuma vergonha face ao 3d digital, e sobrevive ao teste do tempo.
O festival dedicou uma secção também a Ken Jacobs, um dos nomes mais fortes do 3d dos últimos 50 anos. Houve uma exposição e exibição de filmes, mas a grande curiosidade foi “Nervous Magic Lantern”, a performance ao vivo de Ken Jacobs. Esta complexa manipulação óptica procura provocar uma reacção singular no espectador, um 3d vivo e ao vivo. Uma “performance” com uma lanterna mágica mas sem filme – Jacobs procura a tridimensionalidade na sua essência mais básica e na sua origem.


Ana Almeida e José Pedro Lopes

 

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