Laurence Anyways: “Titanic” e o homem que queria ser mulher

(Fotos: Divulgação)

Pouco provável que alguém tenha percebido, mas o famoso blockbuster de James Cameron foi uma importante inspiração para a terceira obra do realizador canadiano Xavier Dolan. Pelo menos foi o que ele explicou à Slant Magazine. “’Titanic’ é uma das mais ambiciosas histórias de amor de sempre e era algo assim que eu queria fazer. O resultado foi esse…”

Existe, de facto, uma love story por aqui. O professor de literatura Laurence (Melvil Poupaud) forma um saudável casal hipster com Fred (Suzanne Clément), uma gente colorida do início dos anos 90 cercada de livros, música, drogas, paixão e… romance.  Tudo muda, no entanto, quando o protagonista resolve assumir uma inclinação que teve durante toda a vida: vestir-se de mulher. Aparentemente, nada tem a ver com homossexualidade, mas nestes tempos de suposta tolerância e indiferença “pós-moderna”, o relacionamento e toda a vida de Laurence leva uma grande volta depois desta decisão. Daí para a marginalidade social e a solidão é um pequeno passo.  

Sem icebergs, nem transatlânticos, talvez as suas quase três horas vão um bocado além do desejável mas, segundo Dolan, a duração não é a mesma da obra do naufrágio. “’Titanic’ tem exatamente 3h18min”, diz o especialista. Mas não haverá, certamente, maiores paralelos. A história baseia num facto verídico e o cineasta/argumentista levou “20 segundos” para decidir fazer um filme do relato que ouvia. Mais difícil foi a concretização: se as primeiras trintas páginas saíram de rajada, o aperfeiçoamento contínuo do material levou um ano para que ficasse pronto.

Dolan não tem uma paixão por aí além pelos 90s – apenas achou que servia bem como pano de fundo para a história dos seus personagens. “Não era meu maior desejo fazer as pessoas usarem aquelas roupas horríveis. Apenas me pareceu que esta época tinha um contexto social e político fixe. As pessoas tinham aquela ilusão de progresso social, devido a acontecimentos como a queda do muro de Berlim. Ao mesmo tempo, coisas como a SIDA e suas implicações reforçaram os preconceitos contra os homossexuais”, observou.

Terceiro filme da carreira fulminante do menino-prodígio canadiano Dolan, que com apenas 20 anos chegou a seleção do Festival de Cannes com seu filme de estreia “J’ai tué ma mère” (2009). No currículo ainda “Amores Imaginários”, que estreou por cá em 2011. 

Melvil Poupaud teve uma atuação elogiadíssima por esse “Laurence”. Ator que deve a Raul Ruíz alguns dos seus melhores títulos, participou de “Mistérios de Lisboa” e “As Linhas de Wellington” (onde fazia o marechal Massena). No currículo destaque ainda para dois trabalhos com François Ozon e “Uma Americana em Paris”, com Posey Parker. Poupaud já teve duas nomeações aos Césars.

Suzanne Clément, uma atriz com algumas nomeações a prémios importantes do seu país (Canadá) acabou por faturou o prémio de Melhor Atriz na mostra A Certain Régard (Cannes) do ano passado. No elenco destaque também para a veterana Nathalye Baye, como a mãe de Laurence, uma das mais importantes atrizes francesas das últimas três décadas. 
 
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 http://www.youtube.com/watch?v=1YjIWEky81M
Realização: Xavier Dolam
Elenco: Melvil Poupaud, Suzanne Clément, Nathalie Baye, Monia Chokri. Canadá, França, 2012. {/xtypo_rounded2} 

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