Notas De Amor: Troque Um Casamento Velho Por Uma Paixão Nova

(Fotos: Divulgação)

Das poucas certezas existentes uma delas é a de que tudo que é novo um dia ficará velho. Verdade reiterada de diferentes formas ao longo deste filme, a frase é dita explicitamente numa curiosa cena em que várias mulheres tomam duche numa piscina pública e onde a realizadora Sarah Polley ousa confrontar as noções entre o novo e o velho através de um registo naturalista dos próprios corpos delas. 

É também nesta sequência que se resume o dilema da protagonista Margot (Michelle Williams), quando a sua cunhada Geraldine (Sarah Silverman), que inconvenientemente já adivinhou a situação, pergunta: “Vale a pena trocar o que tenho por alguém que posso não gostar daqui há dez anos?”

Os tormentos de Margot começaram de uma forma bastante inocente. Ela é a tranquila (aparentemente) esposa de um especialista em culinária à base de frango (Seth Rogen) cuja relação afetiva é marcada pela cumplicidade, mas que começa, após cinco anos, a carecer de verdadeira paixão. 

É então que, enquanto faz turismo sozinha e assiste a uma encenação de uma execução pública por adultério, conhece Daniel (Luke Kirby). Ele é o típico galã de serviço: inconveniente, cínico, atraente e, para piorar, muito assertivo, pondo rapidamente a nu as fragilidades da pobre protagonista. Se esse princípio de história tem a aparência de comédia romântica, o seu desenvolvimento vai seguir mais o registo realista do cinema indie do que as fórmulas de Hollywood.

Questões perturbadoras

A realizadora acredita, conforme disse a Playlist, que propõe questões que incomodam os espectadores – entre as quais a relação entre familiaridade e paixão. Seu filme é marcado pela noção de lacuna, de falta, algo que é comum a todas as pessoas. E nunca esta deficiência fica tão clara quanto nos relacionamentos. “Eu tive sempre a ideia no filme de começa-lo e terminá-lo com a mesma cena (…) para demonstrar que algo estava a faltar”, observou. Implicitamente, a obra coloca vários temas, como a verdadeira possibilidade (ou não) da monogamia, a relação amor-sexo e a própria realidade do amor.

Em relação à cena do duche, Polley observa que a ideia era mostrar o corpo feminino de uma forma completamente diferente do que é o padrão do cinema anglo-saxão, onde normalmente é um objeto sexual. Aqui ele aparece como algo natural, simplesmente parte do quotidiano.


Histórias que nós contamos
 
 

Se os percalços da monogamia estão presentes nos seus dois filmes de ficção, eles ganham outro contorno no seu último trabalho, o documentário Stories We Tell, que ela apresentou na última edição do Festival de Veneza. Neste registo a cineasta mergulha nas suas raízes autobiográficas para encontrar uma história tão cinematográfica quanto as suas obras: a sua mãe Diana, que morreu quando ela tinha 11 anos, teve uma relação extraconjugal da qual a consequência pode ter sido… ela própria. O filme colheu muitos elogios no certame, entre os quais da Playlist, que afirmou que ele “serve simultaneamente como um absorvente mistério, um registo familiar e uma fascinante investigação em torna da natureza da verdade, da memória e do próprio documentário”.

Polley tem uma forte ligação com o cinema do seu país (Canadá) e foi com alguns dos seus mais famosos cineastas (David Cronenberg, Atom Egoyan) que ela construiu a sua carreira de atriz. Sua estreia na realização não podia ter corrido da melhor forma: “Longe Dela”, de 2006, rendeu-lhe uma nomeação ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado. Também foi lembrada pela Academia a veterana Julie Christie, que encarnava uma mulher acometida pela Doença de Alzheimer.

A vida independente de Michelle Williams

Michelle Williams acrescenta mais um título à sua longa e respeitável folha de serviços prestados ao cinema independente, género de produção do qual raramente se desviou desde que saiu do seriado “Dawson’s Creek”, em 2003. No terreno dos blockbusters, no entanto, aguarda-se a estreia em março da estreia mundial “Oz, o Todo Poderoso”, onde compõe com Mila Kunis e Rachel Weisz um trio de bruxas verdadeiramente de luxo. Pobre Oz (James Franco)!

Seth Rogen, um dos mais conhecidos atores da “fábrica” de Judd Apatow aparece por aqui num registo muito mais sereno e intimista do que nas comédias que o tornaram famoso. Já Luke Kirby é um ator de televisão canadiano, que no cinema tem algumas produções de cunho local no currículo. 
 
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Realização: Sarah Polley
Elenco: Michelle Williams, Seth Rogen, Luke Kirby, Sarah Silverman. Canadá, Japão, Espanha, 2011.{/xtypo_rounded2}

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