Esse foi o filme que transformou Gérard Depardieu numa celebridade, lançado numa época em que ele ainda não falava russo nem pesava mais de 200 quilos (sim, estamos a exagerar). A obra de Bertrand Blier, lançada em 1974, tornou-se um clássico transgressivo: se por um lado sofre de uma evidente falta de ritmo para os padrões atuais, por outro ainda consegue ser bastante ousado pelo seu erotismo provocador e pela sua completa amoralidade – o que não é pouca coisa depois de quase 40 anos.
Esta espécie de “Easy Rider” pós-hippie segue as andanças sem rumo de dois tipos (vividos por Depardieu e Patrick Dewaere) que qualquer pessoa de boa família classificaria como “más rés”: são rudes e mal-educados, apalpam senhoras de meia-idade na rua, espancam/humilham mulheres, assaltam casas e fartam-se de roubar supermercados, carros, bicicletas etc. etc. Mas se os roubos são uma questão de sobrevivência, o que os move realmente é a procura por sexo. Um dos momentos desta busca é o plácido “ménage à trois” estabelecido com Marie-Anger (Miou-Miou), uma jovem frígida que pede-lhes para “ensiná-la” a ter prazer. Pelo seu caminho também se cruzam Jeanne Pirolle (Jeanne Moreau) e Jacqueline (Isabelle Huppert).
“As Bailarinas” foi um grande sucesso na época, tendo sido o terceiro filme mais visto em França naquele ano. Também representou um grande arranque para a carreira de Bertrand Blier, que se tornaria um dos mais importantes realizadores franceses do último terço do século XX – com obras que circularam por Berlim, Cannes e Veneza, para além de obterem diversas nomeações ao César. Aos seus trabalhos estariam sempre ligados a provocação (o título “As Bailarinas” refere-se ao calão francês para “testículos”…), o desdém pelos modelos burgueses e o gosto pela utilização de tipos sociais marginais.
Entre os seus filmes que passaram pelos ecrãs portugueses estão “Quanto me Amas?” (2005), “O Meu Homem” (1996), “Que Raio de Vida!” (1991), “Bela de Mais para Ti” (1989), “Traje de Noite” (1986), “A Mulher do Meu Melhor Amigo” (1983), “O Padastro” (1981), “Crimes a Sangue Frio” (1979), “Uma Mulher para Dois” (1978) e “Calmos” (1976). Seu último trabalho, “Le bruit des glaçons”, de 2010, continua inédito por cá.
Escalada para o sucesso
O trio de atores principais já tinha uma longa história em conjunto: todos começaram como integrantes de uma trupe de performers chamada Café de la Gare nos anos 60. “As Bailarinas” colocou os três no mapa. Depardieu dispensa maiores apresentações, vindo a tornar-se o mais conhecido ator do cinema francês das últimas três décadas.
O mesmo se pode dizer de Miou-Miou, que manteve no cinema o estranho pseudónimo que lhe foi conferido por um colega dos tempos das performances. A partir de “As Bailarinas”, ela começou a conseguir diversos papéis como protagonista e tornou-se uma das mais emblemáticas atrizes francesas dos anos 70, 80 e 90. Além de trabalhar com muitos dos melhores realizadores da época, teve dez nomeações ao César de Melhor Atriz, vencendo uma vez – por “Crónica da Mais Velha Profissão do Mundo”, em 1979.
Para Patrick Deware, que foi casado com Miou-Miou, as coisas também pareciam correr bem: ele faria alguns filmes importantes nos anos 70 e, especialmente, uma retomada da parceria com Blier e Depardieu (“Uma Mulher para Dois”) e outra obra importante do realizador, “O Padastro”, que esteve na seleção oficial do Festival de Cannes de 1981. O ator, no entanto, cometeu suicídio em 1982.
No elenco destaque ainda para Jeanne Moreau, musa da Nouvelle Vague e do cinema francês dos anos 60 que aqui pergunta aos rapazes se eles “interessam-se por uma velha”… No extremo oposto, uma novíssima, rechonchuda e quase irreconhecível Isabelle Huppert, com uma pequena participação, três anos antes do início da sua ascensão (que se daria em 1977, com “Uma Rapariga Frágil”).
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http://www.youtube.com/watch?v=lXeaV-zQ73k
Realização: Bertrand Blier
Elenco: Gérard Depardieu, Miou-Miou, Patrick Dewaere, Jeanne Moreau, Isabelle Huppert. França, 1974.
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