Entre os mais singulares mitos criados pela cultura popular dos Estados Unidos estão os serial killers. Estreiam na mesma semana em Portugal dois filmes que estão de alguma forma ligados a momentos fundadores deste sub-género do cinema de terror. Um diretamente, caso do “Psycho”, de Alfred Hitchcock, e outro de forma indireta – a pretensa sequela do clássico de Tobe Hooper (“O Massacre no Texas”, de 1974) no caso do “Texas Chainsaw: O Massacre” (2013, versão em 3D).
Comparar em termos de contexto histórico e abordagem visual o filme de Hitchcock com a obra de Tobe Hooper (sem juízos de valor) revela-se interessante. Separados por uma diferença de 14 anos, a comparação entre alguns dos seus elementos fornece testemunhos bem concretos sobre a evolução cultural, social e estética do cinema e do gosto do seu público.
Ambos iniciam com um mesmo ponto de partida: a história de um famoso psicopata do Wisconsin da década de 50 chamado Ed Gein (que também serviu de modelo para “O Silêncio dos Inocentes”). Na verdade, a folha de serviços de Gein para a galeria dos serial killers é bem pobrezinha: ele confessou dois homicídios e foi condenado (ainda que à prisão perpétua) por apenas um. Nada de acumular um terrível número de assassinatos segundo algum obscuro padrão ritualístico.
Mas quantidade não é sinónimo de “qualidade”: o que sempre chamou atenção na figura de Gein foi o seu estranhíssimo gosto por colecionar “artefactos” que, por acaso, eram membros de seres humanos. Excetuando as duas mulheres que assassinou, no entanto, a maior parte dos seus “brinquedos” foi buscar a cadáveres, dedicando seu tempo à “arte” da exumação.
A evolução visual/emocional: das punhaladas invisíveis aos membros amputados
A obra do mestre do suspense foi rodado em preto-e-branco para evitar a visão “intolerável” do sangue vermelho a escorrer pela banheira após a célebre cena do chuveiro. Nesta sequência, Janet Leigh é golpeada por um agressor que nunca se vê, assim como não é mostrado o punhal a atingir o corpo da atriz. A intensidade da cena vem dos cortes rápidos e da banda sonora de Bernard Herrmann. De violência “explícita”, uns fiapos de um líquido escuro a escorrer para o ralo…
Hitchcock estava interessado essencialmente na intensidade psicológica da história, embora ainda hoje consiga ter o seu impacte a cena em que uma personagem depara-se com um cadáver empalhado, assim como da sensação de loucura provocada por um ataque vindo de um homem vestido de mulher.
Mas se, de maneira geral, “Psycho” influenciou gerações de realizadores de filmes de terror por razões temáticas, “O Massacre no Texas” inaugurou uma nova era no cinema de suspense/terror: os slasher movies. Aqui o terror sugerido, psicológico e implícito do género no seu ambiente clássico dava a lugar à cenas de gore explícito, com direito a membros amputados, cadáveres a rodo, uma mulher pendurada num gancho do talho (!), um homem morto a machadadas, uma cena de atropelamento por um camião ainda hoje espectacular e, obviamente, uma motosserra que não está lá para cortar árvores.
A velhota empalhada de “Psycho” é multiplicada por um verdadeiro museu de relíquias macabras, num filme que inicia com a solene exibição de um cadáver decomposto de braços abertos em cima de uma estaca. No mais, já não é possível comparar a loucura “refinada” de Hitchcok com a insanidade mais total e absoluta de um trio de sádicos que aterroriza uma mulher indefesa durante um bom quarto de hora – numa cena que ainda hoje mantém uma aura de demência doentia.
Decadência da sensibilidade ocidental? Talvez, mas convém não esquecer que “Massacre no Texas” não foi apenas um sucesso subterrâneo sustentado por gente de “mau gosto”: a sua estreia deu-se na prestigiada Semana da Crítica do Festival de Cannes!
Os novos padrões da censura
Outro parâmetro interessante é verificar a evolução da própria censura nos Estados Unidos (acompanhado em maior ou menor grau pelos outros países ocidentais) neste período. Se para os padrões atuais “Psycho” é um filme que (quase) se pode assistir em família, na altura Alfred Hitchcock, também produtor da obra, passou maus bocados nas negociações com os censores (que ele considerava pior do que ir ao dentista…) e teve mesmo que cortar algumas passagens.
Em 1960, a censura era ainda regida pelos draconianos, segundo padrões do Código Hayes, uma reminiscência fóssil do decadente sistema de estúdios da Hollywood clássica, mas ainda em vigor. O Código não resistiria à revolução cultural dos anos 60 e em 1968 cairia em desuso, o que não significou a total abolição dos códigos que se atribuem para os filmes (que ainda hoje existem).
O “clássico” trash de Hooper já pertence a outros tempos. Surgido na ressaca dos sonhos hippies de mudar o mundo, a estas alturas substituídos pelo conhecimento da dura realidade da administração Nixon e das selvagerias praticadas no Vietname, “O Massacre no Texas” introduz um cinema de fundo muito mais negro. Os problemas com a censura também foram consideráveis e estenderam-se aos mais diversos lugares fora dos Estados Unidos por onde a obra passou – tendo sido, inclusive, proibido ou retirado de cartaz por queixas do público em vários países.
O público gosta do lado escuro
Ambos os filmes tiveram um sucesso de público extraordinário. “Psicose” foi o segundo filme mais visto de 1960 (atrás apenas de “Ben-Hur”) e um dos mais rentáveis de Hitchcock. Já a obra de Hooper e a despeito dos enormes problemas com a censura (somadas às dificuldades de distribuição) alcançou o valor impressionante de U$ 30 milhões (para um custo de U$ 300 mil, um terço do filme de Hitchcock!), vindo a ser um dos filmes mais rentáveis de sempre.

