Paul Thomas Anderson gosta de se aventurar por insólitas biopics e por aqui aparece com uma obra parcialmente inspirada no criador da cientologia e contada de forma muito particular. A ser encarada como biografia, não há dúvida que este “O Mentor” está bem longe das estruturas tradicionais do género.
Mais do que retratar um líder religioso que tanto pode ser um charlatão como um filósofo sério (Lancaster Dodd, vivido por Philip Seymour Hoffman), Anderson prefere construir a sua obra tendo como centro a relação entre o criador da “Causa” e o seu violento discípulo Freddie Quell (Joaquim Phoenix), um alucinado neurótico de guerra que aos poucos vai se tornando num irracional “cão de guarda” do seu “mestre”. Da obra de Dodd, propriamente, há alguns excertos, rendendo momentos interessantes quando ela questionada por um jornalista laico ou por uma fervorosa discípula vivida por Laura Dern.
Na verdade não seria preciso o toque particular de Anderson para transformar uma história que por si só já guarda vários elementos bastante estranhos. Como todo o líder religioso, L. Ron Hubbard, que em parte inspira esta obra, é em si uma figura altamente controversa, cuja imagem varia entre os seguidores, que o descrevem em termos hagiográficos, e os críticos, que classificam como mentiras tudo que contou sobre si próprio. Entre estes o próprio filho, Ron Hubbard Jr., afirmou que 99% do que pai escreveu é mentira. Fraudulenta ou não, o número de membros famosos da cientologia, às voltas com a Justiça por fraudes e associação criminosa em vários países, é considerável – entre os quais John Travolta e Tom Cruise.
O tema da neurose de guerra interessou particularmente ao realizador e pela sua mente passaram outras biografias por aqui. Uma delas foram os relatos dos seus tempos de bebedeiras a serviço da marinha norte-americana do ator Jason Robards; outra foram as experiências de John Steinbeck, que após a sua participação na 2ª Guerra Mundial trabalhou em alguns dos seus livros os traumas que adquiriu no conflito. A estas duas fontes unem-se ainda rascunhos abandonados de “Haverá Sangue”, projeto anterior de Anderson.
Oscar is bullshit!
Joaquin Phoenix, que às vezes parece não ficar muito longe da sua personagem em termos de instabilidade emocional, andou a fazer mais uma das suas. Depois de ficar quatro anos sem filmar e de promover uma esdrúxula “retirada” do cinema (documentada no filme de Casey Affleck, “I’m Still Here”), ele voltou às polémicas em novembro do ano passado, quando disse na revista Interview que o Oscar não passava de “bullshit”!
Já nomeado três vezes (por “Gladiador” e “Walk The Line”), incluindo por este “O Mentor”, talvez tenha hipotecado as suas hipóteses este ano. Ainda que ele depois se tenha retratado. Na UKScreen, tempos depois, disse “que não lembrava do contexto da afirmação”, mas que o Oscar nunca podia ser “bullshit” porque muitos realizadores de talento só conseguiam continuar a trabalhar por causa do prémio. Já no Festival de Veneza, onde “O Mentor” esteve em competição, o ator também chamou a atenção na conferência de imprensa. No evento ele teve um comportamento bastante estranho, saiu várias vezes da sala e a única pergunta que se dignou a responder foi para dizer “não sei”.
Polémicas do seu principal ator à parte, “O Mentor” seguiu uma brilhante trajetória de aclamação desde que estreou em Veneza, onde os dois atores principais e Paul Thomas Anderson foram premiados. Está nomeado para três Oscars (além de Phoenix, Seymour e Amy Adams fazem parte da lista para Ator/Atriz Secundários), e já concorreu a quatro BAFTAs e três Globos de Ouro.
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http://www.youtube.com/watch?v=DCK5fpYhFQs
Realização: Paul Thomas Anderson
Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern. EUA, 2012.
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