Hitchcock: a visão intolerável do sangue a escorrer

(Fotos: Divulgação)

Já faz parte da mítica do cinema a história de que Hitchcock teria filmado “Psycho” em preto-e-branco porque “a visão do sangue na banheira seria intolerável”. Décadas depois, todo o tipo de barbárie possível já foi mostrada no grande ecrã, mas o que “Hitchcock” – que aborda os meandros da realização do clássico – vai recuperar é exatamente este outro tempo (anos 60) – onde a simples intenção de um cineasta consagrado em adaptar um livro sobre um serial killer causava repulsa. 

Essa é um dos enredos desta história que o realizador Sacha Gervasi (que deu nas vistas no circuito de festivais com o documentário sobre uma banda de rock, “Anvil! The Story of Anvil”, em 2008) foi buscar a um livro de não-ficção publicado em 1990 por Stephen Rebello. A obra tratava de reconstituir o making of de “Psycho”, desde a descoberta pelo realizador do livro de Robert Bloch que tratava dos crimes de Ed Gein, até os problemas com a censura e a repugnância que a ideia inspirava na elite bem pensante da época. Para piorar, o cineasta então em alta com o enorme sucesso de “Intriga Internacional”, teve que financiar o projeto, a única maneira de tira-lo do papel – uma vez que executivos assustados com o tema recusavam-se a pôr dinheiro no filme. 

Paralelamente, o filme de Gervasi conta um pouco da vida pessoal do “mestre do suspense” – nomeadamente o seu relacionamento com Alma Reville (Helen Mirren), com quem estava casado há 33 anos e que teve um papel importante nas decisões da sua carreira. 

Bem mais simpática que a obra produzida pela HBO sobre o cineasta (“The Girl”, baseada nas terríveis acusações de Tippi Hedren, a loura de “Os Pássaros” e “Marnie”), o filme não deixa, no entanto, de tocar em alguns pontos sensíveis, como o voyeurismo desenfreado e a gula que o levava a assaltos clandestinos e noturnos ao frigorífico.
 
 

Meio ao estilo de telefilme com elenco de luxo (além do par principal há um James D’Arcy perfeito como Anthony Perkins, Scarlet Johansson como Janet Leigh e Jessica Biel como Vera Miles), “Hitchcock” conta a história com humor (a cena final é excelente) – ainda que talvez fosse mais interessante como um verdadeiro retrato de bastidores do clássico dos anos 60. A melhor cena do original também é a da homenagem – a famosa sequência do chuveiro, onde o próprio mestre, insatisfeito com a fragilidade dos “golpes”, pega ele mesmo na faca e aterroriza Leigh… de verdade. 

A obra de Gervasi estreia uma semana antes do regresso do filme original que, depois de “A Mulher que Viveu Duas Vezes”, retorna aos ecrãs portugueses. Está nomeado ao Oscar na categoria de Melhor Caracterização – sem dúvida um reconhecimento abaixo do que esperavam os produtores, que o lançaram na época dos prémios. 
 
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Realização: Sacha Gervasi 
Elenco: Anthony Hopkins, Helen Mirren, Scarlett Johansson, Toni Collette, Danny Huston, Jessica Biel, James D’Arcy, Michael Wincott. EUA, 2012. {/xtypo_rounded2} 
 

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