O cineasta mergulha no labirinto dos gabinetes políticos do final do século XIX para apresentar um retrato histórico sobre as batalhas legais e políticas que se travaram para a aprovação da décima terceira emenda no parlamento. Esta previa a abolição definitiva da escravatura nos Estados Unidos.
Enquanto avizinha-se o fim da sangrenta Guerra Civil norte-americana (1861-1865), o então presidente Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) tenta a aprovação de uma lei que ratifique na Constituição aquilo que havia feito dois anos antes quando, utilizando poderes excecionais concedidos ao presidente em caso de guerra, havia proclamado a liberdade para os escravos.
A fim de evitar o retrocesso da medida com o fim do conflito, quando os estados derrotados do sul poderiam juridicamente contestar a decisão, Lincoln tem urgência em aprovar a lei – mas para isso precisará vencer uma dura batalha de bastidores. Enquanto tenta negociar com os democratas da oposição, ainda terá de convencer a linha dura conservadora do seu próprio partido a apoia-lo. Para dificultar, misturam-se as negociações com os sulistas para proceder ao fim do conflito.
Em segundo plano aparecem as questões familiares de Lincoln, como a mulher Mary (Sally Field) psicologicamente arruinada pela culpa pela morte do filho, e outro filho inconformado por não participar da guerra, Robert (Joseph Gordon-Levitt).
Os labirintos do poder
Como em geral nas obras políticas, não é fácil situar-se neste emaranhado de cores partidárias e personagens históricos, dificuldade acentuada pela escuridão permanente do filme derivada da opção por tentar reproduzir realisticamente um tempo onde não existia iluminação elétrica. “Lincoln” vai saltando de reunião em reunião, intercaladas com os acalorados debates no parlamento, e só mesmo uma pesquisa póstuma (ou prévia…) para apreender à primeira o jogo político da altura – algo difícil mesmo para um norte-americano de cultura média que tenha faltado algumas aulas de história…
O que também vale para agremiações políticas, pois o próprio partido Republicano (assim como os seus adversários Democratas) não são os correspondentes diretos do atual modelo político dos Estados Unidos. Lincoln movia-se entre os republicanos, onde estava o influente Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones), líder congressista e abolicionista ferrenho, e conservadores inveterados como os Blair, todos dentro do seu próprio partido. Mas ainda existia a oposição formal – os democratas (liderados por Fernando Wood, vivido por Lee Pace), que na altura estavam em minoria, mas cujos votos eram essenciais para o projeto passar. Para tornar tudo ainda mais confuso, restavam ainda as personagens da Confederação sulista, onde se misturam as já complexas negociações pela emenda da abolição com as da declaração de paz com o sul, a estas alturas à beira da exaustão.
O idealismo romântico de Spielberg
Talvez nada mais seja representativo do tema sobre o qual se trata aqui do que o discurso no parlamento de um hesitante congressista, George Yeaman (Michael Stuhlbarg), que pergunta sob uma grande balbúrdia: “O que virá depois da abolição da escravatura? O voto dos negros? O voto para as mulheres”? Ou seja, a acreditar nas suas boas intenções, Spielberg crê na democracia, acredita que foram os norte-americanos que a inventaram (quem contou o número de palavras “nigger” no filme de Tarantino deveria fazer o mesmo para saber quantas vezes aparece a bandeira dos Estados Unidos nesta obra) e que Lincoln foi uma espécie de messias omnisciente que soube contornar o farisaísmo dos seus contemporâneos e proclamar a abolição da escravatura – vista aqui como um das primeiras conquistas nas lutas pelos direitos civis.
Esse idealismo romântico e em vários momentos ingénuo, esbarra, no entanto, na dura realidade do pragmatismo do verdadeiro jogo político, mesmo que se admita que os políticos da altura, ao contrário dos de hoje, ainda fossem portadores de algo chamado “ideologia”. Neste sentido, é curiosa a solução que o filme adota para uma das táticas do assessor de Lincoln em arranjar maioria para aprovação. Ou seja, se por um lado o proíbe de utilizar “métodos ilegais” – entre as quais a comum prática de compra de votos, por outro torna perfeitamente lícito a obtenção dos mesmos através de oferta de empregos para os apoiantes – o que em bom português hoje chamaríamos de “tráfico de influência”…
Em termos de bilheteira e crítica as coisas correm bem na América, único lugar onde o filme faz realmente sentido. Na mesma linha, o filme está nomeado para 12 Oscars e Daniel Day-Lewis venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator.
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Realização: Steven Spielberg
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook. EUA, 2012. {/xtypo_rounded2}

