Barbara: as paixões escondidas na Alemanha comunista

(Fotos: Divulgação)

Filme de uma beleza muito particular, “Barbara” foi um dos grandes destaques da edição do Festival de Berlim do ano passado – rendendo o Urso de Prata de Melhor Realizador a Christian Petzold. Aqui os tempos ditatórias da Alemanha do Leste prestam-se bem aos costumeiros jogos de paixões e sombras com os quais gosta de se divertir o realizador alemão. 

“Barbara” (Nina Hoss) é uma médica transferida para um hospital de província como punição por um crime político não determinado. Lá passa a ter um relacionamento ambíguo com o médico principal do hospital, ciente de que ele foi contatado para emitir relatórios sobre ela. Mas, como sempre, nem tudo é o que parece.

Nina Hoss: uma loura sem fetiche…

 

É o quinto trabalho (quatro para cinema e um para a televisão) de Christian Petzold com a sua “musa” Nina Hoss. Segundo relatou à revista britânica Electric Sheep, a força da colaboração vem da participação ativa da atriz na construção dos projetos, que lhes permite uma grande cumplicidade – e que se torna mais forte a cada novo trabalho. Mas segundo salienta, a utilização dela e o facto das mulheres serem as protagonistas nas suas obras nada tem de fetichismo. 

“O modo como vejo as mulheres nos meus filmes não tem relação com o olhar hitchcockiano, onde a mulher funciona como o objeto de desejo erótico do homem. Eu não estou a ‘fetichizar’ nada. Especialmente com Nina, é mais como olhar para alguém que eu não conheço e que não posso ser, alguém completamente estranha para mim.” Ao ver a forma gélida com que aborda a paixão dos seus protagonistas em “Jerichow”, por exemplo, é difícil não acreditar…

Além deste “Barbara”, Hoss também viveu a personagem-título em “Yella” (2007, pelo qual venceu o prémio de Melhor Atriz no Festival de Berlim). Ela esteve no televisivo “Something To Remind Me” (2003) e em “Wolfsburg” (2003) e “Jerichow” (2008), este em cartaz em Portugal no final do ano passado. Fora do universo do cineasta, a atriz protagonizou em 2010 uma elogiada revitalização da temática vampiresca em “We Are The Night”, que venceu o prémio do Júri em Stiges. 

Uma história de livros

 

A literatura é uma parte importante do trabalho do realizador. “Barbara” sofreu a inspiração indireta não de uma, mas de duas obras. Uma delas pertence a um dos grandes nomes da literatura germânica da primeira metade do século XX, Hermann Broch, cujo livro tem o mesmo título do filme mas com uma curiosa inversão nos papéis políticos. Se no cinema a médica é perseguida por suas atividades anticomunistas, na obra de Broch ela esconde-se no interior (década de 20) por ser suspeita de ação pró-comunista.

Os comunistas não ficaram nada contentes com o outro livro que inspirou o cineasta, “Rummelplatz”, lançado na década de 70. Obra póstuma de Werner Bräunig, trata das duras condições de trabalho nas minas alemãs, para além da exploração do trabalho feminino no pós-guerra. Os comunistas condenaram o livro, afirmando que ele denegria a imagem da classe trabalhadora. Segundo Petzold, a importância desta obra está no facto de que as temáticas acima andam desaparecidas da literatura da Alemanha ocidental.

O consenso crítico

“Barbara” reuniu um enorme consenso crítico. Muito gostam de Petzold no Festival de Berlim e os seus três últimos filmes fizeram parte da competição oficial. “Barbara” rendeu ao realizador o Urso de Prata na categoria. A obra também foi escolhida pelos alemães para representá-los no Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mas não chegou à seleção final.

Uma mulher (Nina Hoss?) será novamente a protagonista no próximo trabalho do cineasta, ainda sem nome. Na Berlim de 1945, ela será uma sobrevivente dos campos de Auschwitz em busca de retomar a sua vida.
 
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Realizador: Christian Petzold
Elenco: Nina Hoss, Ronald Zehrfeld, Mark Waschke, Rainer Bock, Jasna Fritzi Bauer, Christina Hecke. Alemanha, França,  2012. {/xtypo_rounded2} 

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