Django Libertado: Como utilizar mais de 100 vezes a palavra ‘Nigger’ sem ser ofensivo

(Fotos: Divulgação)
 

O “western spaghetti” de Quentin Tarantino está mais para uma mistela cheia de molho (das cabeças a explodir) e ingredientes bizarros do que para uma tradicional receita cinematográfica baseada na reinvenção do velho oeste pelos italianos dos anos 60. É certo que estão lá os créditos e a música, por exemplo, mas a variedade de abordagens o classificam mais como uma comédia do que como um western. Até porque nunca passou pela cabeça de ninguém meter um protagonista negro num género que sempre representou uma apologia da audácia desbravadora do homem branco – e onde o inimigo era de outra raça (o índio). Mas isso é só o começo.

O “dentista” e caçador de recompensas alemão (!) Dr. King Schultz (Christoph Waltz) vive, segundo a sua definição, de vender cadáveres. Trata-se das famosas recompensas dos panfletos “procurado vivo ou morto” que enxameavam o Oeste selvagem naqueles tempos (meio do século XIX). Schultz providencia então ao Estado o corpo do malfeitor procurado e recebe o seu pagamento. Para reconhecer os criminosos que tenta encontrar no momento que a história começa, precisa de um escravo chamado Django (Jamie Foxx), que ajuda a fugir por meios não propriamente lícitos. Estes são os minutos iniciais do filme: na sua sequência, o McGuffin serve apenas para Tarantino rechear sua obra com os diálogos e as bizarrices do costume – encontrando aqui o seu melhor momento desde “Pulp Fiction”. 


O dia em que a Ku Klux Klan encontrou os Monty Python
 
 

Se a apetência de Tarantino pelo gore e por cabeças a explodir aproximam-no do terror trash, a melhor sequência de “Django Libertado” é puro Monty Python. Nela uma “heroica” cavalgada justiceira da Ku Klux Khan termina numa enorme discussão entre eles a propósito dos buracos para os olhos nas máscaras, que estão “mal feitas” e impedem os nobres cavaleiros de ver um palmo à frente do nariz… 

Há mais: uma escrava chamada Broomhilda von Schaft que fala alemão, um pistoleiro negro que usa trajes de época e óculos escuros (Foxx), um negro que chama todos os outros de nigger e é mais racista que qualquer branco (Samuel L. Jackson). E há o algodoeiro/carniceiro Calvin Candie (Leonardo di Caprio, em grande performance), adepto de um pitoresco “desporto” chamado “mandingo” – que, à maneira dos gladiadores romanos, põe escravos negros a lutarem selvaticamente até a morte de um deles. Os historiadores dizem que não há qualquer prova de que tal coisa existisse, mas o forte de Tarantino nunca foi mesmo o realismo histórico (não esquecer que ele explodiu Hitler em “Sacanas sem Lei”). 


Como usar  mais de cem vezes a palavra “nigger” sem ser ofensivo
 

Alguém contou: segundo o The Hollywood Reporter, entre outros, em “Django Libertado” é pronunciada 112 vezes (outros sites avançam com 109 vezes) a palavra “nigger”, um termo nada saudável utilizado normalmente pelos racistas para os afro-americanos. Para muito boa gente, este tipo de agressão verbal é completamente gratuita e sem fundamento. Na América a coisa rendeu e, segundo o THR, abriu um “um intenso debate sobre racismo, o uso da palavra na arte e a fina linha que separa um do outro”.

O frequentemente controverso Spike Lee pôs mais lenha na fogueira. Segundo disse na revista Vibe, ele recusa-se a ver o filme, afirmando que a obra é um insulto aos seus ancestrais escravos, pois o esclavagismo no sul dos Estados Unidos jamais poderia ser tratado como um western spaghetti. “O esclavagismo sulista foi um holocausto”, disse.

E o que diz o próprio Tarantino disso tudo? Segundo declarou ao site The Root, toda essa controvérsia é ridícula, pois quem tem criticado a obra não está a dizer que no filme a palavra “nigger” aparece mais vezes do que as pessoas falavam em 1858. Portanto, o que elas gostariam é que o filme fosse mais fácil de digerir. “Eu não quero ser mais fácil de digerir. Quero ser uma rocha gigante, uma pílula que as pessoas terão de engolir sem água”.  


Spaghetti com muito molho 
 
 

Na raiz do projeto está o filme “Django”, de Sérgio Corbucci, um clássico absoluto de western spaghetti que tinha Franco Nero no papel principal (e que faz aqui um cameo). Tarantino sempre gostou de temperar suas singulares receitas cinematográficas com banhos de “polpa de tomate” (e aqui não foi diferente). Portanto, não admira que a sua fonte de inspiração seja aquele que é considerado um dos mais violentos westerns de todos os tempos – obra que só em 1993 obteve a aprovação para ser exibido na Grã-Bretanha. O realizador andava a escrever um livro sobre este filme. Lá pelo meio desistiu: deixou de se importar com o que Corbucci queria dizer e passou a ficar centrado na ideia do que “ele” queria dizer. 


Comédias não ganham Oscars

“Django Libertado” está nomeado em cinco categorias – entre as quais a de Melhor Filme. Já ensinava Umberto Eco em “O Nome da Rosa” que nada pode ser mais transgressivo para o poder instituído do que o riso – e é provavelmente essa razão pela qual comédias não levam Oscars, esse símbolo do poderio da indústria cultural norte-americana. 

Não é que Tarantino deva ter ilusões: quando foi nomeado a Melhor Realizador por “Pulp Fiction”, levando o prémio, com Roger Avary, de Melhor Argumento, ao receber a estatueta disse que “ia agradecer logo a toda a gente porque naquela noite já não ganhava mais nada”. De facto, era a noite de “Forrest Gump”, assim como a desse ano será, provavelmente, a da seriedade perversa de “Zero Dark Thirty” ou da hagiografia solene e irrealista de “Lincoln”. Para já, levou um Globo, o de Melhor Argumento. 
 
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Realizador: Quentin Tarantino
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Don Johnson, Samuel L. Jackson, Kerry Washington, Walton Goggins, James Remar. EUA, 2012.{/xtypo_rounded2} 

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