Vivemos tempos estranhos, onde o famoso aforismo de Andy Warhol (“No futuro todos serão famosos por 15 minutos”) vai abandonando o seu carácter profético para parecer uma verdadeira maldição. Se talento e celebridade nunca andaram, necessariamente, de mãos dadas, chegamos ao tempo em que, via reality shows, todos podem gozar os seus minutos na montra sem ter qualquer habilidade especial – por vezes bastando uma história bizarra ou “sórdida” (falsa ou não) ou um comportamento singularmente estúpido ou amoral (fingido ou não).
Não é que Luciano (Aniello Arena) seja completamente desprovido de talento: através de suas performances drag queen, ele é a grande estrela dos casamentos da família – cenário onde pode abandonar, assim como todos os comuns mortais, a realidade da dura labuta de todos os dias. Mas a sua vida de pai de família e trabalhador dedicado vira de cabeça para baixo depois de uma audição fortuita para o Big Brother italiano, o que fez só para a agradar a filha pequena. É que de repente,e a hipótese de ficar rico e famoso torna-se uma possibilidade real…
Longe da atmosfera negra de “Gomorra”, filme de estreia que consagrou o cineasta italiano Matteo Garrone, “Reality” ficou, no entanto, mais sombrio do que aquilo que pretendia o realizador – que buscava fazer uma comédia para diversificar a sua carreira. Conforme disse à “Arts & Culture”, a sua segunda obra não estava focada diretamente para questão da televisão, mas o que o seduzia era a ideia de fazer uma “sátira social”.
Quando a realidade supera a ficção: o homicida que virou ator
Parece que as prisões italianas não albergam apenas carradas de mafiosos e assassinos perigosos. Depois da abordagem dos irmãos Taviani, “César Deve Morrer”, que retratava uma encenação teatral numa prisão de segurança máxima, foi a vez de Aniello Arena abandonar o estabelecimento onde está confinado desde 1991, por participação num triplo homicídio, para ter ele próprio os seus 15 minutos de fama. Condenado à prisão perpétua, teve autorização judicial para sair da prisão durante as filmagens [ver notícia].
Os Taviani, de facto, devem se orgulhar de ver um exemplo tão nítido do pressuposto primordial do seu projeto humanista: todos merecem uma segunda oportunidade. E é como o próprio Arena define o seu estatuto: numa entrevista ao The Guardian, por ocasião do Festival de Cannes, afirmou que foi salvo pela arte e o passado foi “…uma página negra que virou há muitos anos”. “Não sou mais aquele homem. Nunca me imaginaria a abrir um livro ou recitar trechos de Brecht ou Shakespeare”.
Quanto ao Big Brother, Arena disse que na prisão é um espectador assíduo, lamentando apenas ser ele próprio um homem confinado ao seu próprio “Grande Fratello” – referindo-se às câmaras na prisão que o vigiam dia e noite.
Controvérsias em Cannes: absurdos e bravatas nacionais
“Reality” ficou com o segundo prémio mais importante da última edição do Festival de Cannes. Na altura levantou-se uma ideia, aparentemente sem nexo, de que a premiação da obra de Garrone se deveria a interesses económicos, pois o presidente do júri, Nanni Moretti, também tem os seus filmes distribuídos pela Le Pacte. Ninguém levaria tal argumentação muito a sério se não tivesse sido levantado pelo Le Monde, cujo artigo ainda listava vários outros exemplos de como os interesses dos presidentes do júri do festival determinavam a atribuição final dos prémios em edições anteriores do festival.
A organização do festival considerou a tese “absurda” e reiterou que o líder do grupo de jurados tem apenas direito a um voto, ao qual são somados outros oito. Já o jornal italiano Corriere della Serra esteve bem quando disse que para evitar que os presidentes do júri tivessem a mais remota conexão com as obras premiadas, estes teriam que ser procurados num mosteiro.
Mais duvidosa foi a ideia que os italianos lançaram quando afirmaram que o “choradinho” da imprensa francesa tinha a ver com a falta de premiação de filmes daquele país. Para além de ser questionável pelo facto de “Amour”, vencedor da Palma de Ouro, ser uma coprodução falada e protagonizada por franceses, a razão das obras transalpinas não ganharem prémios não se deve, certamente, à falta de qualidade. O que se pode questionar mesmo é como um filme medianamente bom como “Reality” ficou com o segundo prémio, à frente de obras como “Rust’n’Bone” e “Holy Motors”. Mas isso é outra conversa…
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Realização: Matteo Garrone
Elenco: Aniello Arena, Loredana Simioli, Raffaele Ferrante, Claudia Gerini, Paola Minaccioni, Ciro Petrone, Nunzia Schiano, Nando Paone. Itália/França, 2012.{/xtypo_rounded2}

