00:30 Hora Negra: o enterro viking de Osama Bin Laden

(Fotos: Divulgação)
Em maio de 2011 forças norte-americanas invadiram com sucesso uma casa nos arrabaldes de uma cidade paquistanesa e mataram Bin Laden e seus mais próximos assessores. Como “provas” ficaram uma fotografia tirada por um soldado e exames de DNA feitos em tempo recorde – já que apenas poucas horas depois do feito as tropas norte-americanas proporcionariam ao seu inimigo um funeral à velha maneira dos guerreiros escandinavos: um “enterro” no mar. Bin Laden desapareceu da mesma forma fantasmagórica com que planou pelos noticiários dos meios de comunicação de massa ao longo da última década. 

De qualquer forma, o filme de Kathryn Bigelow não é sobre nuances, mas sobre certezas. Conforme esclareceu o veterano repórter de guerra Mark Boal, autor do argumento, a ideia essencial é responder à curiosidade de como se chegou a Bin Laden. O que o filme faz com esmero: “00:30 Hora Negra” é um mergulho no labirinto de ruelas islâmicas e bastidores de organizações governamentais até a captura do líder terrorista – que, curiosamente, nunca assumiu a autoria dos atentados ao World Trade Center.


Os bons, os maus e os inteligentes

Os méritos do filme enquanto cinema têm sido excessivamente salientados pelos críticos, na mesma medida em que pretendem não ver todo o contexto em que está inserido. É certo que existe a seriedade da cineasta a lançar-se na sua missão de contar uma história que entende relevante. O problema é que, se esta intenção teve uma execução a rigor, o filme frustra completamente quem for procurar algo algo mais do que a versão oficial amplamente divulgada pelos meios de comunicação na altura – deixando ao comum dos mortais as pouco interessantes opções de, ou acreditar religiosamente no que é dito, ou mover-se no pantanoso mundo das “teorias da conspiração” – forma cínica com que o establishment designa tudo o que questiona as verdades oficiais. 

Baseado em documentos e testemunhos supostamente secretos, objetos por si só de polémicas (ver abaixo), “00:30 Hora Negra” tem nas suas entrelinhas uma ideia simples: se existe alguém tão mau que é capaz de atirar aviões contra inocentes, este tem que ser punido a qualquer preço. Longe de pretender retratar toda a complexidade do jogo geopolítico internacional, o filme sucumbe assim a um mero panfleto proselitista travestido de objetividade.
 
 
Jessica Chastain

Ficam justificadas não só as torturas, mostrando-as como prática comum dos agentes da CIA, como diversas infrações do direito internacional (incluindo a execução sumária de um suspeito sem direito a julgamento) – para além de uma operação ilegal e secreta dentro de um país soberano (o Paquistão). Se tudo isso é justificado pelo estado de guerra, então ações semelhantes do “outro lado” poderiam se pautar pela mesma lógica, certo?

Na verdade o filme é daquele género que se presta para que um certo de tipo de inteligentzia norte-americana o considere seríssimo e profundo, quando nada mais é do que um exercício de enorme superficialidade que consegue parecer estar a falar de muitas coisas sem estar a se comprometer com nenhuma. 

A tortura como um negócio sujo e a hagiografia da CIA 

Se a imprensa internacional foi simpática com as omissões, não o foi com a suposta apologia da tortura. Jornalistas de diversos veículos, como New Yorker, Vulture, Huffington Post, entre outros, fizeram duros ataques à amoralidade do filme nesta área. 

Algumas das críticas mais fortes vieram de jornalistas do The Guardian, que chamaram o filme de “propaganda perniciosa e hagiografia da CIA”. Gleen Greenwald, por exemplo, afirmou que “o filme apresenta a tortura (…) como um negócio sujo mas necessário para garantir a segurança da América”. Naomi Wolf, do mesmo veículo, foi muito mais longe, comparando Bigelow a Leni Riefensthal, a famosa cineasta oficial do regime nazi. Em carta aberta à cineasta, disse que ela será lembrada como uma artista de qualidade, mas “defensora da tortura”. 
 
 Kathryn Bigelow

Diversos políticos vieram à baila e, num dado momento, um dos mais importantes membros do governo Bush, Donald Rumsfeld, admitiu que a tortura foi importante como meio para apanhar Bin Laden. A polémica continua e até mesmo um membro da Academia veio a público pedir que não se concedessem Óscares ao projeto [ler artigo].

Restam ainda controvérsias de cunho mais local. Bigelow e a Sony tiveram que responder (e negar) acusações dos republicanos de que o filme seria lançado em outubro (a data original para a estreia), um mês antes das eleições de novembro, para influenciar o eleitorado a favor de Obama – que ficaria visto como o presidente que capturou Bin Laden. Da mesma forma, o governo de Obama e a própria CIA teriam fornecido informações confidenciais aos produtores do projeto – tudo negado por toda a gente.

Falta de sexo

 
Jessica Chastain

Se politicamente o filme se descarta à beira da iniquidade, resta a história pessoal da agente Maya… que não é nenhuma. “00:30 Hora Negra” estreia na mesma altura que um filme (“Seis Sessões”) que retrata a perda da virgindade por um tetraplégico. Aqui passa-se o contrário, embora seja de forma puramente involuntária que Bigelow revele uma pessoa fisicamente apta mas psicologicamente incapaz de fazer outra coisa que não perseguir Bin Laden. E isto inclui ter um relacionamento. 

A questão não é anedótica e a cena final da obra o confirma. Além do mais, basta ir até “Estado de Guerra”, o filme anterior da cineasta, para perceber que os modelos heróicos de Bigelow são pessoas plenamente imbuídas da sua “missão”, sendo incapazes de ter uma vida afetiva, sexual ou social de relevo. Gostos não se discutem…

À espera da recompensa

O filme caiu bem numa sociedade que vê cada vez mais o seu papel de líder mundial questionado. Agora é hora de esperar pelas recompensas. Está nomeado aos Oscars de Melhor Filme, Melhor Atriz (Chastain) e Melhor Argumento. A atriz já venceu o Globo, o que pode ser indicativo das suas hipóteses.

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 http://www.youtube.com/watch?v=4yfzpm7wwz4
 
Realização: Kathryn Bigelow
Jessica Chastain, Jason Clarke, Joel Edgerton, Mark Strong. EUA, 2012. {/xtypo_rounded2}

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