Ou pelo menos rendem nomeações para eles, já que os resultados só se saberão em fevereiro. Os reflexos do universo original do realizador David O. Russell (“The Fighter – O Último Round”) estão espalhados por todo lado nesta idiossincrática comédia romântica que acabou por cair no gosto de muita gente responsável por atribuição de prémios. Trata-se do cinema independente norte-americano, cujo apreço pelo realismo e com um à vontade muito maior para o tratamento de temáticas mais variadas do que o cinema mainstream, vem garantindo ao longo dos anos muitas das melhores surpresas da sétima arte a nível mundial.
Aqui as liberdades começam pelas personagens: Pat (Bradley Cooper) é um bipolar recém-saído de um hospício que volta para a casa dos pais (Robert de Niro e Jacki Weaver). Sempre com a miragem do casamento desfeito oito meses antes a guiar as suas ações, ele lê livros inteligentes (nem que seja para invadir o quarto das pais às 4h da manhã para queixar-se do final de um livro de Hemingway!), faz corridas cobrindo o tronco com sacos de lixo e filosofa com a profundidade de um adepto da neurolinguística sobre a procura de um final feliz para a história de cada um.
Se isto e mais uma série de outras esquisitices lhe garante a ausência no catálogo de tipos das comédias românticas made in Hollywood, não menos pitoresca é a misantropa e ninfomaníaca Tiffany (Jennifer Lawrence), às voltas com uma traumática viuvez ainda recente e a perda do emprego. Não é que desta improvável mistura sairão logo faíscas: “Guia para Um Final Feliz” explora tanta as aproximações quanto os distanciamentos de figuras fragilizadas, cujos laços se fortalecem com o treino para um concurso de dança.
Fatalidades
Russell está indicado para o Oscar de Melhor Argumento Adaptado, o que por si sinaliza uma identificação sólida entre realizador e a obra que o inspirou – e, não por acaso, ele tem um filho com o mesmo diagnóstico de bipolaridade que a personagem de Cooper.
O livro homónimo, escrito por Matthew Quick, foi publicado em 2008, mas antes disto os irmãos Weinstein já tinham comprado os direitos. E nem de longe tinham Russell em mente: o projeto foi entregue a Anthony Minghella (“O Paciente Inglês”) que, no entanto, viria a falecer. Foi então que entrou na história outro veterano, Sydney Pollack, que seria o produtor do filme se não tivesse tido o mesmo destino que seu antecessor. Só que a estas alturas, Pollack já tinha convidado Russell para realizar o filme.
Os “loosers” e os homens dos prémios
Se “Guia para Um Final Feliz” não tem atributos por aí além para ser considerado genial, tem o suficiente para estar acima da média. Um dos seus pontos fortes, por exemplo, são os diálogos, que incluem várias tiradas inteligentes e muitas citações de livros (entre às quais uma bastante sarcástica ao “O Senhor das Moscas”, de William Golding). Acrescenta-se a isso muita música – que inclui até uma inusitada “crise” de loucura de Pat (à procura do vídeo do casamento!) ao som de “What Is and What Should Never Be”, clássico do Led Zeppelin.
Resultado: esse filme sobre personagens que os americanos adoram chamar de “loosers” teve quatro indicações aos Globos, cinco ao Independent Spirit Awards, três aos Baftas e, grande façanha, oito nomeações aos Oscars! Questioná-las a estas alturas é conversa de mesa de café (embora seja difícil de explicar o que estão lá a fazer De Niro, Weaver e mesmo Cooper, quando John Hawkes ficou de fora, assim como vale lembrar que a força dos irmãos Weinstein no xadrez hollywoodiano não deva ser negligenciada).
O que importa, afinal, é que a obra está na lista final para Melhor Filme, os seus quatro atores principais estão indicados, para além de Russell (argumento e realização) e, talvez a nomeação mais justa, os editores Jay Cassidy e Crispin Struthers – que não devem ter tido pouco trabalho para reproduzir toda a loucura nervosa do filme.
http://www.youtube.com/watch?v=DBwt1kASxPk
Realização: David O. Russell
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert de Niro, Jacki Weaver, Chis Tucker, Julia Stiles. EUA, 2012.

