De tempos em tempos alguém lembra-se de ressuscitar musicais, um género que tanto pode render Óscares como grandes falhanços de bilheteira. É claro que a mesma regra pode-se aplicar a qualquer tipo de obra, mas é um facto que eles perderam muito do seu encanto para o grande público a partir dos anos 60, passando a viver de aventuras esporádicas com maior ou menor sucesso. A ousadia coube aqui a Tom Hooper, do oscarizado “Discurso do Rei”.
A hora e a vez da escumalha
A história baseia-se na obra monumental de Victor Hugo, publicada originalmente em 1862 e que fazia um grandioso e belíssimo panorama da sociedade francesa no século XIX. Já marcado pelo realismo e o gosto pelo retrato social que impregnava a literatura europeia na época e produzia uma obra-prima atrás da outra, o livro centra o seu foco num extrato da sociedade largamente desprezado pela literatura pré-realista: o mundo dos pobres.
É nele que gravitam os carismáticos e trágicos personagens de “Os Miseráveis”, que incluem o ex-“escravo” Jean Valjean (Hugh Jackman), a operária transformada em prostituta Fantine (Anne Hathaway), o temível homem do sistema e perseguidor Javert (Russell Crowe), o casal de ladrões Thénardiers (Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter), sua filha Epónime (Samantha Barks) e a filha de Fantine, que será criada por Valjean, Cosette (Amanda Seyfried).
Historicamente, vivia-se a ressaca da Revolução Francesa – quando a Restauração monárquica já tinha dado cabo de parte das suas conquistas e cuja existência do povo francês não tinha conseguido mudar. Em 1830, a monarquia foi novamente posta a correr pela revolução liberal, mas este novo mundo controlado por banqueiros e industriais em pouco ajudou a situação da arraia-miúda.
Conteúdo bastante atual, aliás, especialmente ao se pensar que a história hoje caminha no sentido contrário, quando elites sem oposição empurram a escumalha diretamente para o buraco de onde a custo de muito sangue saíram ao fim de algumas décadas após os acontecimentos mostrados no filme.
Do you hear the people sing…?
Ao contrário do que vozes desafinadas andaram por aí a dizer, a obra de Hooper tem umas tantas músicas que “colam nos ouvidos” e ficam para sempre. A abertura tem uma delas: “Look Down” é cantada por um poderoso coro de vozes masculinas enquanto escravos trabalham sob uma tempestade. Ao todo, são cantadas 49 músicas, incluindo uma reprise e uma única que não estava no palco, “Suddenly” – interpretada por Jackman. Apenas duas do musical original não foram cantadas no filme.
Outro destaque são os grandes momentos ao som de “Do You Hear The People Sing…?”, o hino revolucionário que sintetiza todo o vigor e a beleza da fúria popular e da revolução. Utilizada em dois momentos-chaves do filme, a música tornou estas cenas inesquecíveis. Destaque ainda para a Fantine de Hathaway a interpretar “I Dreamed A Dream” – que aliás tornou-se um single que pôs, pela primeira vez, a atriz na lista da Bilboard.
Mostra que sabe cantar
Começaram com Alan Parker, em 1988, as tentativas para transformar a peça em filme. 24 anos depois, acaba por chegar ao grande ecrã pelas mãos Hooper, ainda a viver da consagração dos Oscars pelo seu “Discurso do Rei”. Pela primeira vez saída do âmbito literário para o género em França em 1980, a obra de Victor Hugo ganhou uma versão em inglês em 1985 que se tornou um grande sucesso. Estreou na Broadway em 1987 e a estas alturas já tinha um sucesso global.
Vida difícil para os agentes cinematográficos que gostariam de pôr seus clientes no cast deste “Os Miseráveis”: uma das exigências do realizador foi que as “cantorias” fossem gravadas em direto nas filmagens, sem recurso a gravações.
Todos os atores do elenco sabem mesmo cantar: Hugh Jackman vem de uma longa experiência teatral onde entrou em diversos musicais; Anne Hathaway, com quem, aliás, ele fez uma parceria na apresentação dos Óscares em 2009, é soprano e também tem um currículo marcado por participações em peças do género; Amanda Seyfried deu seu primeiro grande passo na carreira com um musical (“Mamma Mia”) e Russell Crowe começou a sua vida artística como músico.
Eddie Redmayne também canta e é conhecido dos palcos ingleses, onde já recebeu diversos prémios. No cinema passou por cá no início de 2012 com “Minha Semana com Marylin”. Samantha Barks, por fim, vem direto da encenação do musical e aqui faz a sua estreia no grande ecrã.
{xtypo_rounded2}
http://www.youtube.com/watch?v=25sBSaecx_E
Realização: Tom Hooper
Elenco: Hugh Jackman, Russell Crowe, Anne Hathaway, Amanda Seyfried, Eddie Redmayne, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen. Inglaterra, 2012.
{/xtypo_rounded2}

