A Vida de PI: uma longa e difícil travessia no oceano

(Fotos: Divulgação)
Muito mais difícil que travessia de Pi, que circulou pelo Pacífico durante 227 dias na companhia de um tigre, foi o desenvolvimento do filme baseado no best-seller de Yann Martel. O livro do autor canadiano, publicado em 2001 – vencedor do Booker Prize e traduzido em 40 países – foi comprado pela Fox 2000 em 2003. Depois da euforia inicial, o projeto passaria por diversos problemas e só seria lançado nove anos depois.

Realizado por Ang Lee, que vinha de um falhanço de público e crítica, “Taking Woodstock” (2009), a obra narra em flashback a história de Pi, um rapaz que teve uma infância agradável junto da família, proprietária de um Jardim Zoológico na Índia, até que o pai decide emigrar para o Canadá levando os seus animais no navio. As coisas não correm bem e Pi, já adolescente, termina por ficar preso numa embarcação no oceano junto do terrível animal, unidos unicamente por uma luta desesperada pela sobrevivência. 

Neste momento, tudo corre bem à obra do cineasta chinês: o filme já tem três nomeações aos Globos de Ouro (Melhor Realizador, Melhor Filme e Melhor Banda Sonora), é um consenso de crítica e a nível de público não poderia ir melhor. Até o momento, já arrecadou U$ 204 milhões no Box Office mundial e U$ 71 milhões nos Estados Unidos. Excelentes números, especialmente se levarmos em conta que a obra ainda será lançada em mais 30 países – incluindo grandes mercados como Japão, Brasil, México, Rússia e Alemanha. 


A Travessia no Oceano da Produção: De Shyamalan a Alfonso Cuarón

Nada na história da produção do filme faria prever este belo desenlace. Após a compra do projeto, em 2003, “A Vida de Pi” entrou numa verdadeira via crucis que se prolongaria por oito anos. O primeiro a pegar no projeto foi M Night Shyamalan, na altura às voltas com a realização de “A Vila”. De descendência indiana, agradava ao realizador um filme com uma história passada na Índia (ou parte dela, pelo menos) e com as personagens principais originárias desse país. Ele substituiu o argumentista original e trabalhou no seu próprio script
 
 

Ocorre que depois do filme com Joaquim Phoenix ele optou por rodar primeiro “A Senhora das Águas”, o que ocasionou uma imediata procura da Fox por outro cineasta. Sobre o assunto, Shyamalan, consagrado com “O Sexto Sentido”, comentou na Entertainment Weekly: “Eu estava hesitante em realizar o filme porque o livro tinha uma espécie de ‘twist’ no final. E eu fiquei preocupado porque assim que pusesse meu nome no projeto, ele poderia ser associado a algo diferente”.

Já a situação envolvendo Alfonso Cuarón foi mais simples. O mexicano, famoso por “E Tua Mãe Também”, simplesmente recusou ir mais longe, preferindo antes rodar “Os Filhos do Homem” (2006). E foi então que as coisas pareciam a encaminhar-se para um final feliz: Elizabeth Gabler, segundo o Los Angeles Times, a grande mentora da produção desde o início, conheceu o homem de “O Fabuloso Destino de Amélie”, Jean-Pierre Jeunet.

A Dramática saída de Jean-Pierre Jeunet

O francês foi apresentado a Gabler por produtores da Fox, os mesmos que haviam sido responsáveis pelo seu début hollywoodiano, “Alien: Ressurreição”, de 1997. Jeunet adorava o livro e trouxe o seu partner de “O Fabuloso Destino de Amélie” e “Longo Domingo de Noivado”, Guillaume Laurant, para trabalhar no script. Na altura, segundo a Variety, uma entusiasmada Gabler exclamava que a conversa com o realizador na altura de o contratar havia sido apaixonante e que Jeunet verbalizou tudo aquilo que ela tinha como ideal para a transposição do livro para o filme. 

Mas ainda não seria dessa vez. As dificuldades girariam em torno do custo do filme, problemas que acompanhariam a sua produção mesmo depois da entrada de Ang Lee. Jeunet revela no seu site oficial toda a amargura que sentiu ao ter dois anos de trabalho perdidos e ver o filme vir a ser realizado, com um budget ainda maior, por outro cineasta.

Conforme relata, a Fox fez-lhe o convite depois do lançamento de “Um Longo Domingo de Noivado”. Uma vez escrito o argumento, que a companhia “adorou”, iniciou um longo trabalho de pré-produção. Estas incluíram visitas ao Baja Studio, no México, onde havia sido rodado “Titanic” (e onde Lee efetivamente concretizaria parte do filme) e à Índia, acompanhado de uma equipa de trabalho que incluía os diretores de arte e fotografia.

Após a surpresa negativa da Fox ao receber das suas mãos as contas que davam a conhecer um custo de U$ 85 milhões, foi solicitado a Jeunet que fizesse um storyboard detalhado para justificar os custos – trabalho no qual o realizador mergulhou durante meses, apresentando um complexo trabalho de fotografia e computadorização. 
 
 

Mas o custo continuava a incomodar os executivos, que solicitaram ao francês que estudasse a possibilidade de realizar a obra na Europa. Mais dois meses e meio foram gastos em estudos de todas as possibilidades em diferentes países, chegando-se ao custo de € 59 milhões, como a Fox queria… Mas a altura económica não era boa: na hora de fazer o câmbio o custo beirava outra vez o apresentado inicialmente.

E então pediram-lhe novamente para começar do zero e encontrar novas soluções. “Foi quando eu percebi que poderia passar o resto da minha vida a trabalhar naquilo. Assim informei a Fox do meu desejo de rodar ‘Micmacs’, propondo-lhes rodar ‘A Vida de Pi’ logo a seguir, quando os avanços da tecnologia o tornariam, eventualmente, mais fácil de fazer”.

Mas a Fox não esteve para esperar e entregou o projeto a Ang Lee. “Infelizmente ele fez exatamente aquilo que eu faria no seu lugar: nem sequer leu o nosso guião e encomendou outro. E basta uma simples olhadela no IMDB para verificar o que tínhamos previsto: o filme custou U$ 120 milhões!”. 

Aparentemente, o cineasta chinês conseguiu parte do financiamento na sua terra natal, Taiwan. “Como consolação, penso que muitos realizadores dedicaram-se arduamente a projetos que acabaram por não realizar. Além do mais, se eu o tivesse persistido, isso significaria que eu teria ficado sete anos envolvido num mesmo trabalho”. Por fim, Jeunet conclui: “Se o filme ficar bom, vai me incomodar; se ficar mal, vai me chatear da mesma forma…”


A Entrada de Ang Lee

 

Mesmo depois da entrada de Ang Lee os percalços prosseguiram. Segundo o Los Angeles Times, em 2010 Ang Lee e o produtor Gil Netter apresentaram um orçamento (em torno de U$ 70 milhões) à Fox 2000, que considerou-o excessivo e o pôs novamente na gaveta até que eles apresentassem um número diferente. Foi outra vez a persistência de Glaber que manteve o projeto ativo. Ela era respeitada pelo estúdio por já ter trazido para a Fox dois best-sellers (“Marley e Eu” e “O Diabo Veste Prada) que resultariam em filmes de sucesso. Mas enquanto aqueles eram baseados em obras comerciais, a história de um rapaz a navegar no oceano com um tigre podia ser bem mais difícil de vender. Foi o investimento chinês que finalmente garantiu que a obra saísse do papel…


De Bollywood Para o Mundo 

Irrfan Khan, que faz de Pi na meia-idade, quando este narra a sua história a um escritor canadiano (Rafe Spall), é um conhecido de Bollywood, a hiperprodutiva indústria indiana, onde apareceu em mais de 30 filmes. No Ocidente, é conhecido por participações em “Quem Quer ser Bilionário, “Um Coração Poderoso” e “O Fantástico Homem Aranha”

Assim, como ele, Tabu, que faz a mãe de Pi, é uma atriz conhecida na Índia. No Ocidente, ambos protagonizaram o filme de Mira Nair “O Bom Nome” – pelo qual Khan recebeu uma nomeação aos Independent Spirit Awards.

Já o jovem Suraj Sharma, o protagonista, não se pode queixar da sorte: saiu diretamente de uma escola de Nova Delhi para o estrelato, já que a “A Vida de Pi” é o seu primeiro trabalho. Quem teve para ocupar o seu lugar foi Tobey McGuire, mas a ideia não agradava Ang Lee por ele ser demasiado conhecido.
 
  

Rafe Spall, por sua vez, é o “Millburn” de “Prometheus”, de Ridley Scott. A completar o elenco principal, Gérard Depardieu tem uma pequena participação como um cozinheiro asqueroso. 

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Realização: Ang Lee.
Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan,Tabu, Rafe Spall, Gérard Depardieu. EUA/China, 2012.
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