“Todos os pides mentiram no julgamento (…) Nunca se chegou a Salazar. Ao não se condenar ninguém (…) toda a cadeia de comando fica ilibada. Perante a História, legalmente, eles não são culpados”. Estas declarações do realizador Bruno de Almeida à revista Medeia, corrobora aquilo que a “Operação Outono” é para o seu criador: “É um filme sobre a mentira”.
Dois anos de pesquisa foi o tempo necessário para que Bruno Almeida concluísse o argumento de “Operação Outono”, baseado nas investigações do neto de Humberto Delgado, Frederico Delgado Rosa. Filme não apenas sobre os acontecimentos que envolveram o assassínio do dissidente político, em 1965, pela PIDE, como sobre a tentativa de encobrimento deste pelas autoridades judiciais pós 25 de abril.
As atrocidades cometidas pela PIDE são de conhecimento público, embora nunca seja de mais lembrá-las a uma sociedade em crise que de vez em quando suspira pelos “bons tempos” de Salazar. O que já não é tão lembrado foram as diferentes metamorfoses que os agentes do antigo regime operaram para se manter, de alguma forma, após o 25 de abril. Sobre isso, o cineasta é afirmativo: “Não há muitas diferenças. Portugal é diferente do que era, mas em termos de corrupção e tribunais, continuamos uma sociedade arcaica”.
Outro aspeto muito pouco conhecido é a verdadeira natureza da direção da PIDE na altura da Operação Outono. Silva Pais, Barbieri Cardoso e Álvaro Pereira de Carvalho só assumiram o comando em 1962, quando o regime continuava a patinar e Salazar resolveu despedir todo o topo da hierarquia. De acordo com Almeida, foram eles que montaram o aparelho de informação – sob orientação da CIA. “A primeira operação grande que montaram foi a Operação Outono, que foi um sucesso e um insucesso, porque foi uma grande trapalhada. As pessoas pensam que a PIDE era muito eficaz, e era, com os 20 mil informadores, mas ao mesmo tempo eram uns patetas…”, arremata.
A cena do julgamento foi filmada no Tribunal de Santa Clara, no mesmo lugar onde decorreu o acontecimento que a inspira.
A História
Como se sabe, Portugal viveu durante 48 anos sob a ditadura de Salazar. Essa longevidade não passou sem sobressaltos, mas só mesmo o terramoto Delgado a pôs verdadeiramente em apuros quando, no final da década de 50, o regime dava sinais de impopularidade. Humberto Delgado concorreu então nas urnas contra o candidato do governo, Américo Tomás, e obteve enorme aclamação nas ruas. O processo fraudulento, no entanto, determinou a sua derrota e posterior exílio.
Sem acreditar numa possibilidade pacífica de revolução, o general tratou de organizar um golpe de Estado no exílio. O filme aborda a vida de Delgado a partir de sua estadia na Argélia, quando rompe com os exilados comunistas, “que só falavam e nada faziam”, e decide-se por um plano que pretendia a ocupação do sul de Portugal. Interceptado pela PIDE, estes enviaram agentes para encontrá-lo junto à fronteira de Espanha – que terminaram por assassina-lo.
A Escolha de John Ventimiglia para o papel de Humberto Delgado
Um grande elenco de atores portugueses dá brilho à história, embora o general seja vivido pelo ator John Ventimiglia – conhecido da série “Os Sopranos” e outros trabalhos televisivos. A escolha tem sido muito questionada, pois o ator não fala português e teve que ser dobrado. É possível que se deva à confiança no ator por parte de Bruno Almeida, uma vez que o ator trabalhou em todos os trabalhos de ficção do realizador – como “Em Fuga” (1999), “The Collection” (2005), “The Lovebirds” (2007).
O próximo projeto de Bruno de Almeida
O cineasta trabalha nas filmagens de seu novo trabalho, “The Lecture”, que aborda a visita de um escritor norte-americano (vivido por John Frey) a Guimarães, onde fará uma leitura de um texto de Edgar Allan Poe. No entanto, o que era ser uma viagem agradável torna-se num pesadelo. Com Marcello Urgeghe e Ana Padrão no elenco, a obra ainda não tem data de estreia.
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http://www.youtube.com/watch?v=gfKQAZ89aAw
Realização: Bruno de Almeida.
Elenco: John Ventimiglia, Nuno Lopes, Marcello Urgeghe, Carlos Santos, Pedro Éfe, Camané, Júlio Cardoso, José Nascimento, Adriana Carvalho, Carlos Paulo, Tiago Rodrigues, Ana Padrão, Cleia de Almeida, Diogo Dória. Portugal, 2012.{/xtypo_rounded2}

