Cirkus Columbia: na sala de espera do inferno

(Fotos: Divulgação)

Estamos em 1992 e as coisas estão a mudar rapidamente na república Jugoslávia da Bósnia-Herzegovina. Os comunistas, que durante longos anos detiveram o poder, cederam lugar a uma nova elite, mais preocupada com o processo de independência e com um forte sentido nacionalista. É nesse contexto que volta para a sua terra o agora rico empresário Divko Buntic (Miki Manojlovic), foragido na Alemanha durante 20 anos, após as escaramuças políticas de 1971. Traz consigo uma jovem e atraente namorada e, sem meias medidas, consegue a expulsão sumária da sua antiga casa da ex-mulher e do próprio filho que lá viviam. Essas quatro personagens estão na base do enredo de “Cirkus Columbia”, sempre em contato com as mudanças políticas em curso.

O drama deles é intenso mas, sem que eles saibam, é suave perto do que vira a seguir – e que apenas plana sobre o filme como uma nuvem. Trata-se do desmembramento da antiga Jugoslávia, que gerariam as guerras balcânicas dos anos 90, marcadas por uma selvageria que não se encontrava na Europa desde a 2ª Guerra Mundial. E será a Bósnia, país do realizador Danis Tanovic, a ficar com a pior fatia: Sarajevo, a capital, seria objeto de um cerco absolutamente bárbaro que durou sete anos, com direito às limpezas étnicas levadas a cabo pelo exército de Milosevic.

Filmado na região da Herzegovina, serviu para Tanovic revisitar locais e pessoas do seu passado e reviver em termos cinematográficos um tempo cuja inocência não mais voltará. Terra marcada pela tragédia, ainda assim conserva muito daquela característica de “parado no tempo” nas suas aldeias. Mas, conforme relata o realizador, infelizmente muita coisa mudou de forma irreversível. “Quando o comunismo caiu, em 1992, nós ficamos nas fronteiras do abismo, com o mundo a assistir silenciosamente do outro lado. Fomos obrigados a saltar, mas não havia outro lado: nós ainda estamos a cair.”
 
 

Quarta longa-metragem do cineasta, que em 2001 atingiu a consagração mundial com seu filme de estreia, “Terra de Ninguém”, que obteve uma das maiores coleções de prémios de sempre – 42 distinções que incluem Cannes e um Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. O conflito na Bósnia era o assunto principal, uma espécie de primeiro capítulo de uma trilogia não planeada sobre a guerra. 

No final do ano passado foi exibido em Portugal um segundo filme sobre assunto – desta vez desta vez dedicado ao pós-guerra: “Os Olhos da Guerra”, que tinha Colin Farrell no papel principal e tinha a ação situada no Iraque. Faltava um projeto dedicado ao período anterior à guerra – e para tal Tanovic volta ao seu país para realizar “Cirkus Columbia”. Completa a filmografia do cineasta a produção francesa “Inferno”, lançado em 2005 e que tinha Emanuelle Béart como protagonista.

O ator Miki Manojlovic passou há pouco tempo pelos ecrãs portugueses, em “Largo Winch – o Império”, onde era o pai do protagonista. Ele participou em vários trabalhos de outro ilustre “conterrâneo”, o sérvio Emir Kusturica, para além de figurar em obras de François Ozon e Jean-Jacques Beineix, entre outros.
 
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Realizador: Danic Tanovic
Elenco: Miki Manojlovic, Mira Furlan, Boris Ler, Jelena Stupljanin. Bósnia, França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Eslovénia, 2010.{/xtypo_rounded2} 

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