MOTELx arranca hoje e espera mais de 10 mil espectadores

(Fotos: Divulgação)

A manter-se a tendência de crescimento dos últimos anos, esta é uma expectativa bastante razoável para o Motelx, cuja sexta edição arranca nesta quarta-feira na capital portuguesa. Trata-se do único festival exclusivamente dedicado ao género terror em Portugal. De 12 a 16 de Setembro, no cinema São Jorge, os fãs podem apreciar um vasto panorama que inclui 27 filmes na mostra principal, cinco dedicados a Dario Argento, homenageado deste ano, e mais de duas dezenas de curtas-metragens – entre os quais dez que concorrem a um prémio para a produção portuguesa. Uma amostra de filmes japoneses e “Território”, relíquia do terror português, completam a programação. 

De acordo com João Monteiro, co-organizador do Motelx, é até difícil explicar o crescimento contínuo e sustentável do evento ao longo destes cinco anos. De um público de 4 mil espectadores no primeiro ano, passou para 13.100 no ano passado. Não consigo entender ou explicar o que se passou. Ano após ano ficamos a um olhar uns para os outros a pensar o que é que estamos aqui a fazer bem, comemora. 

 

O CINEMA ENQUANTO EXPERIÊNCIA “RELIGIOSA” 

A tendência ainda é mais interessante quando se tem conta a dura realidade da pirataria, ainda mais facilitada pelo facto de que muitos exemplares do cinema de terror são lançados nos Estados Unidos diretamente para Video on Demand. Monteiro não esconde que esse panorama causa surpresa entre os organizadores, ou seja, que a presença do público continue a crescer numa época em que, uma vez anunciada a programação, os apreciadores do género podem ir tentar fazer downloads dos filmes. Para ele, a explicação para isso tem a ver com o facto do cinema não ser apenas o filme, mas toda a magia do ritual que o envolve. “As pessoas ainda acorrem aos festivais pela experiência comunitária e não só para ver filmes. O cinema não é só o filme, é a sala escura, as demais pessoas, o jogo de emoções. Antigamente era um ritual como ir a ópera, e aqui também às vezes temos pessoas mascaradas. Acho que isso transforma o cinema numa experiência religiosa, mais do que apenas consumo de entretenimento. 

Neste sentido, o facto de existir um espaço como o São Jorge favorece largamente a manutenção deste ritual, pois se o festival fosse realizado num centro comercial o sucesso não seria o mesmo. ”Enquanto houver esse tipo de templo, as pessoas vêm por mais qualquer coisa que não seja só o filme”. 

Todo esse processo é acompanhado por uma ligeira melhora a nível de financiamento, embora inferior a de outros festivais. O Motelx consegue manter a sua estrutura a contar com algum apoio estatal, da Câmara Municipal de Lisboa, de embaixadas e de entidades privadas. Ainda não é o necessário, mas é satisfatório, especialmente tratando-se de um género um pouco mal visto, marginal”, observa. 

 

DO CINECLUBE PARA O FESTIVAL 

Uma evolução consistente para um projeto que nasceu a partir de um antigo Cineclube, um espaço para os fãs verem e discutirem cinema de terror, e que hoje se constituiu na base legal da organização do certame. Na época que surgiu, em 2007, chegou a ser considerado uma resposta lisboeta ao Fantasporto, associação com a qual João Monteiro não concorda. Isso tem a ver com a necessidade que às vezes as pessoas sentem para estabelecer uma âncora para entender qualquer coisa. Na altura eu e os mesmos companheiros entendemos que (o Fantasporto) não chegava… A ideia era fazer um festival só de filmes de terror, com todos os inconvenientes que esta opção pudesse trazer. Portanto, não posso dizer que o nosso ideal seja o Fantas, até porque eles também se distanciaram muito do seu modelo inicial – hoje é mais generalista. O Motelx nem sequer é um festival de fantástico, é só mesmo de terror. Mantemos a mesma filosofia do primeiro ano. 

 
The Raid, um dos filmes em destaque no MOTELx 

Apesar disto, a nova edição não se furta a introduzir algumas inovações na programação, como o filme de ação “The Raid Redemption”, “The Yellow Sea” ou “Revenge: A Love Story”. O organizador do Motelx explica que, no caso do “The Raid”, por exemplo, o realizador Gareth Evans, inspirou-se em estruturas de filmes de terror – principalmente dos filmes de John Carpenter. Há o cerco, há o inimigo e o tom de violência gráfica do filme é de facto muito forte e traça uma linha muito ténue entre o filme de ação e o filme gore. Estes filmes trazem alguma variação e enriquecem a programação – para não ficar só no clássico do filme de terror”, acredita. 

Em relação à preparação do festival em termos de programação, Monteiro explica que são cinco pessoas completamente diferentes a nível de gosto a escolher os projetos. “Acabamos assim por conseguir uma programação que vá de encontro à variedade do gosto das pessoas”. 

 

O PODER DE ATRAÇÃO DOS FILMES DE TERROR 

E de onde vem o gosto dos organizadores e do público por um cinema de medo, sangue, sustos e, frequentemente, imagens indigestas? O co-organizador do Motelx acha que este fenómeno está ligado a uma lógica de catarse, um libertar de tensões – ao lado terapêutico do cinema. Corresponde a uma necessidade sobre a qual as pessoas preferem não perceber o porquê. É como parar nas auto-estradas para ver acidentes, ou ler o Correio da Manhã, que é horrendo. A diferença é que enquanto no caso da imprensa esse sentimento é explorado pela via sensacionalista, os filmes de terror no seu melhor propõem uma meditação sobre essa a necessidade das pessoas. 

Para além disto, nesta era de intenso bombardeamento visual, os filmes de terror tem um bocado esse lado de mexer com as pessoas de uma forma visceral, de forma diferente de outros géneros. Estamos numa era de muito ruído; os filmes de terror têm que aumentar o bocado o volume para serem ouvidos. Depois temos uma carga política, um subtexto que foi bastante revelador, algo que eu descobri a partir dos clássicos de George Romero e John Carpenter”. 

 

O CINEMA DE TERROR EM PORTUGAL 

O festival não é competitivo, uma opção tomada desde a sua criação e que se mantém na sua sexta edição – com exceção dos curta-metragens portugueses, cujo vencedor recebe um prémio. “Entendemos que criar uma competição desviava a atenção para fatores secundários”, diz. Perceção muito diferente no caso do objetivo de incentivar a produção nacional, que sempre guiou o Motelx.  “Desde o começo a ideia era dar apoio à produção nacional, não em dinheiro, porque não é possível, mas possibilitando que os filmes fossem vistos. Mas depois achamos que para a coisa movimentar teríamos que instituir um prémio”, assinala.

O evento deste ano recupera ainda um raro momento do terror no cinema português, “O Território”. Produção de Paulo Branco, presença confirmada depois da sessão, teve problemas de produção que forneceram o tema de “O Estado das Coisas”, clássico de Wim Wenders que também será exibido.

 

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