“Tenho vergonha de passar muito tempo online”
Festival de Berlim, 2011. Abrigados do frio de rachar que se sente lá fora, uma conversa calorosa sobre o processo criativo, as suas origens e a disponibilidade artística. Miranda July tem isso tudo. E sabe-o. “O Futuro” pode não ter tão bom quanto o precioso “Me, You and Everyone We Know”, mas evidencia a disponibilidade para a liberdade performativa. Sente-se isso no filme. O que já não é nada mau.
Considera ser o cinema a sua plataforma favorita de expressão artística? Ou é apenas uma entre várias?
Sim, é uma delas. Mas é aquela que queria fazer há muito tempo. É um sonho de crianças. Ficaria muito desapontada se não o fizesse. Eu queria fazer arte. Mas tudo acaba por fazer parte do processo de filmmaking.
Como criança, onde foi que despertou essa atenção para a arte?
Quando era ainda muito nova – e eu era muito determinada -, gostava de representar peças de teatro e fazer pequenos filme. No liceu acho que fiquei muito impressionada pelas curtas da Jane Campion (vários filmes entre 1982-84). Era adolescente na altura, mas senti que era algo que poderia também fazer. A verdade é que acabei por fazer uma seis curtas antes da minha primeira longa (Me You and Everyone We Know).
Gosta de se dirigir a si própria?
Nas duas ocasiões em que me dirigi achei que teria alguém para me ajudar, mas isso não aconteceu… (risos) Acho que é um pouco como voar às escuras. Depois também não há muito tempo. Normalmente, é a escolha de ver o playback e fazer um outro take.
Sente que fazer um filme se assemelha um pouco com as suas performances.?
Sim, tudo começou com as performances. Mas agora é tudo muito mais difícil.
O que procura alcançar com essas performances?
Acho que é o medo, um fogo que me consume… Isso poderá ativar uma parte sobre-humana de mim própria. Às vezes sentia um pânico durante a rodagem em que só me apetecia fugir dali para fora.
Até que ponto sentiu a pressão de fazer um segundo filme, depois do sucesso da crítica do primeiro?
Com o primeiro filme senti-me um pouco abalada, porque nunca sabemos como será recebido. Depois senti-me confortada por perceber que o meu plano tinha sido bem sucedido. Entretanto quis fazer outras coisas, como acabar o meu livro de contos e fazer outra performance. Este filme surgiu, aliás, no seguimento dessa performance.
Sente que esse sucesso poderia ser cobrado agora?
Acho que esse problema sofrem todos os artistas. Isso faz até parte desta atividade.
De onde acha que lhe vem esse poder criativo?
Há dois tipos de energias: por um lado, um desejo juvenil de alguém que gosta de ser notada, mas também um interesse genuíno em criar coisas.
Então este filme começou por ser uma performance…
Sim, nem estava para ser um filme. Todas as noites eu escolhia pessoas do público dentro da minha performance. Foi complicado, mas no final ninguém acreditava que tinham sido escolhidos ao acaso.
A ideia de usar um gato é mesmo interessante. Quando e como foi que surgiu nesta performance/filme?
Sim, estava na performance e no guião. Mas não tinha ligação com o casal, era uma história paralela, o que me parecia bem. Acabava por fazer uma pausa com o casal. Mas mais tarde acabei por sentir que essa ligação acabava por fazer sentido.
No filme, a internet é um elemento muito presente. Até que ponto a Miranda também está ‘ligada’ assim a esse meio?
Provavelmente, não tanto como as pessoas mais novas do que eu. Acho até que tenho alguma vergonha se passo muito tempo online. Mas não fazia ideia de que há dez anos atrás passaria a minha vida ligada a este meio.

