Somos todos voyeuristas!
O fenómeno do cinema erótico estreia-se em 3D
E onde se percebe que a vida de um monge zen “é muito melhor que sexo.”
E as barreiras do crescente cinema sexy na China: “não podemos mostrar um pénis erecto ou sexo explícito”
Acabou por ser um dos acontecimentos paralelos ao festival de Cannes do ano passado e um dos que mais curiosidade gerou. Palavras para quê, tratava-se do famosíssimo filme erótico em 3D que superou as receitas de «Avatar» em Hong Kong. O filme chega finalmente a Portugal esta semana.
Imagine-se o desplante! Uma fita de 4 milhões de dólares com a ousadia de afundar o todo-poderoso blockbuster… A verdade é que podem mesmo ser sucessos como este a ajudar a recuperar a indústria e combater a pirataria. O que não deixa de ser algo paradoxal, sobretudo se pensarmos que o autor e produtor de «Sex and Zen: Extreme Escstasy 3D », Stephen Shiu encontrou esta galinha dos ovos de ouro ao contratar estrelas de cinema porno, um segmento que alimenta um valente caudal de downloads ilegais, para reproduzir milhões com um filme repleto de cenas de sexo simulado. E pelo qual aceitamos pagar um preço acima da média. Mas não é esta a regra do sistema capitalista? Sobretudo quando é comprovada pela máxima do vouyeurismo.
A razão parece estar do lado dele. Para quê fazer gastar dinheiro a fazer um filme porno se estaria disponível online? Mas agora, com o fenómeno 3D, consegue-se o impacto visual de observar uma cena de sexo (simulado ou não), como se estivesse a decorrer mesmo ao nosso lado. Sim, Hitckcock tinha razão: “somos todos voyeuristas!”
A verdade é que um mês antes do filme do Sr. Shiu estrear já fora vendido a meio mundo e até a países mais conservadores, como a Índia e Singapura (embora estes tenham de contentar-se com a versão censurada).
E assim chegamos àquela suite do Hotel Majestic, em Cannes (2011), em que as publicistas andavam numa corrida a agradar aos jornalistas ansiosos por falar com as vedetas hard e softcore que promoviam «Sex and Zen 3D» no festival mais elitista. Espreitámos por uma porta e lá estavam três ninfas deitadinhas numa cama em amena cavaqueira. De repente, pensámos no mais do que óbvio título “na cama com…” para vender a matéria. Mas não, acabámos por ter um encontro a três com o relizador Christopher Sun Key, o argumentista Mark Wu e a atriz Yukiko Suô.
O fenómeno
O fenómeno aguçou-nos a curiosidade de conhecer os originais. Nada que a grande biblioteca virtual, e a fibra óptica, não faculte em pouco mais de meia hora. Tudo começou com o primeiro «Sex and Zen», de 1989, adaptando um conto erótico do século XVII, sugestivamente apelidado de «O Tapete de Oração Carnal». Trilha-se aqui uma jornada de amor e karma sexual, com direito até a um transplante… Rezam as crónicas da época que este filme destinado ao fracasso logo na primeira sessão de teste, em 1991, teve o toque de Midas do Sr. Shiu. E o que fez ele? Cortou meia hora de fita e colocou um homem no meio das duas damas do cartaz de promoção do filme, para dissipar algum eventual rumor de que se tratava de filme lésbico. A sua visão de marketing geraria duas sequelas douradas e um fenómeno de culto global.
O maior desafio foi fazer um filme com diferentes línguas e diferentes experiências. É difícil explicar aos japoneses como é a cultura sexual chinesa. Felizmente, as duas raparigas japonesas eram muito profissionais, muito rápidas a tirar a roupa.
Uma dela é Yukiko Suô, uma famosa atriz nipónica do cinema adulto. Bonita, curvilínea e em pose de boneca de animação manga. Sentada no sofá com os joelhos a tocar, as pernas afastadas e os olhos arregalados, espera a sua oportunidade. “Na verdade”, esclarece o sensei Christopher em inglês, “Yukiko é uma famosa atriz japonesa de filmes AV (adult video). Foi contratada porque é muito nova, mas muito entusiasta e muito gira (kawai em japonês)”. O seu papel? “Uma psicopata num filme de época!”
A tradução do japonês é longa, pois o original é primeiro traduzido para cantonês e só depois para inglês. “A personagem é completamente diferente de mim”, começa por explicar, “por isso necessitei de muito tempo para explorar as posturas e encontrar a melhor forma para entrar na personagem. Acaba por ser um grande desafio.”
Apesar de ser experiente no género ‘filmes para adultos’, confessa ainda que “este foi de longe o mais exigente”. E quando lhe perguntámos acerca da cena que lhe deu mais prazer filmar, Yukiko vai soltando risinhos enquanto explica à tradutora; quando chega a vez da tradução em inglês vai-nos fitando sorridente, pontuado com acenos de cabeça e exclamando ‘hai’. Até que sabemos que foi mesmo a cena de sexo em cima de um baloiço. “Oh, yes, bery mux!”, confirma.
Será fácil perceber a filosofia chinesa de sexo e zen? O argumentista faz uma tentativa, descrevendo uma cena em que uma actriz (Sahori Hara) “vai a um mosteiro tentando seduzir um monge, isto porque no Japão os monges podem casar e até possuir Ferraris, podem comer carne. Podem fazer tudo.” Ao contrário do que sucede Na China. “A vida de um monge zen é muito rígida. Não podem comer carne, não se podem despir diante outras pessoas, têm de purificar a mente através do vazio. Mas isso”, confirma, “É muito melhor que o sexo.”
A verdade e que a reação do filme tem superado largamente as expectativas.
“Talvez o público esteja agora mais aberto a este tipo de filmes”, admite o realizador. “Agora até temos uma sequência de kung-fu e punhais voadores… É uma boa mistura de géneros.” Sim, aqui os punhais voam como se fossem autênticos boomerangs. A liberdade criativa é total. Só não se pode ultrapassar a barreira do hardcore, ou seja, “por exemplo, não podemos mostrar um pénis erecto ou sexo explícito.” De facto, o sexo continua existir – e o filme não deixa de ser pornográfico por isso – se bem que mantém toda a sugestão e a lascívia dos movimentos. Por outro lado, recorda o realizador, “se o filme fosse mais hardcore iríamos perder o público feminino.” E isso é o ponto crucial. Ao limitar o erotismo aos contornos aceites pela censura ou comissão de classificação de espectáculos, abrem-se as portas das salas de cinema.
“Em todo o caso”, parece querer sossegar-nos,”tentámos manter tudo o mais realista possível, puxámos os limites o mais possível ». O suficiente para poder partilhar um ménage a trois numa sala cheia, aperitivada com pipoca. Assim se cria o filme mais lucrativo da História no seu segmento.

