Já muito foi dito sobre o «The Iron Lady» (A Dama de Ferro), que agora se pode ver nas nossas salas, essencialmente sobre a representação de Meryl Streep, candidata aos Óscares, mas a maioria das críticas recusa-se, à imagem do que manifestaram as pessoas na produção do filme, lidar com as implicações políticas deste. Será mesmo possível fazer uma obra de ficção de uma personagem tão polémica e tão recente como foi Margaret Thatcher?
À primeira vista, até o próprio filme parece duvidar disso. Por várias vezes, personagens diferentes têm de nos dizer qual o objetivo do filme: tentando vender-nos a patranha de que Thatcher era feminista. Haveria mesmo necessidade para estas tão estranhas linhas de diálogo que vão surgindo ao longo do filme? Até a Meryl Streep o disse há dias ao receber um prémio pelo papel. Parece que há alguma insegurança de quem fez o filme e que querem garantir que a leitura a ser feita é mesmo esta, nem que seja à custa de o repetirem até à exaustão.
Admitamos, então, que se trata de um filme sobre uma personagem feminista: é normal que se roube a esta personagem todas as suas grandes decisões e as bases para as suas crenças políticas, atribuindo-as a homens? Vejamos: as bases políticas são as do pai, que ouviu quando era nova e trabalhava na sua mercearia; a decisão para se candidatar ao partido fica atribuída a um conselheiro político próximo, que morre pouco tempo depois, num atentado bombista. Numa discussão com o marido a verdade vem ao de cima, não sendo de feminista que ele a acusa, mas de uma desmesurada ambição. Parece que o argumento do feminismo de Thatcher não tem pernas para andar, pelo menos da forma como o filme está feito.
Porquê recusar explicitamente a componente política desta personagem, se é apenas isso que a define? A ideia que fica é a de uma tentativa de branqueamento da imagem de Thatcher, da humanização desta figura tão polémica. Aceitaríamos isso de outras figuras? Um Pol Pot agricultor e bem intencionado? Um Estaline rodeado pela família e incompreendido? Ainda que grande parte das pessoas que irão ver este filme ainda se lembrem de Thatcher e de toda a polémica que a rodeou, este filme ficará como uma forma de testemunho distorcido e parcial. Thatcher foi uma das grandes defensoras da escola de Chicago e das suas medidas neo-liberais, grandes responsáveis por várias ditaduras sul-americanas, cujo legado inclui também a crise que começou em 2008, que sentimos ainda hoje e perdura nas medidas de austeridade que nos vão prejudicando diariamente. Este filme é propaganda pura e num momento crucial. Se se quer afastar explicitamente da política é porque na realidade é só sobre isso. Tendo em conta que Thatcher não foi a primeira, única ou mais interessante das líderes políticas da altura ou daatualidade, tendo em conta que este não é um filme feminista, o que pretende então este filme? É como um truque de ilusionismo, onde se chama a atenção para algo irrelevante, para se poder esconder o verdadeiro segredo que o faz funcionar. Qual o segredo por detrás de “The Iron Lady”?
João Miranda

