Por vezes, entre os filmes de ação e/ou ficção científica que saem todos os anos, aparece um que nos surpreende: “Chronicle” é um desses filmes. Após uma descoberta com algo fantástico (e que nunca nos tentam explicar), três amigos começam a ganhar super-poderes, desenvolvendo-os em brincadeiras uns com os outros. Rapidamente os poderes vão ganhando um potencial perigoso e tentam estabelecer regras, mas inevitavelmente, as coisas acabam por correr mal. Ao contrário da história clássica da origem de um qualquer super-herói, a moral de “com grande poder vem grande responsabilidade” deturpa-se aqui no quotidiano e nos desejos de adolescentes típicos, habitantes de estruturas sociais estratificadas e constantemente bombardeados com sonhos mediáticos e exigências das suas redes sociais (digitais ou não). A escolha de três elementos de classes diferentes permite explorar melhor essas pressões e revelá-las quando os poderes obtidos permitem pôr em causa o status quo.
Uma das grandes críticas do filme é o ser mais um do estilo “found footage”, mas na realidade não é esse o caso. Apesar do filme ser construído apenas por imagens de câmaras, isso permite-nos refletir sobre duas coisas: a sua ubiquidade e a forma como a mediatização da realidade construiu uma realidade alternativa, onde todos temos de nos representar diariamente com o risco de sermos ostracizados (veja-se a forma como o facebook se tornou tão parte das nossas vidas) e onde podemos aspirar a ascender ao estrelato mediático, a celebridade. Isso pode ver-se na forma como cada um dos três amigos usa os seus poderes a nível social, como se dedica ao seu desenvolvimento ou na utilização das próprias câmaras. Andrew, o inadaptado, surge sempre acompanhado pela sua câmara, o que é posto em causa por Matt, o intelectual (ou pelo menos tão intelectual quanto se pode ser dentro do anti-intelectualismo norte-americano). Num momento mais perto do final, Andrew, fugido do hospital, avança sobre um grupo de pessoas, não para as atacar, mas para poder retirar-lhes os telemóveis, portáteis, máquinas fotográficas, os instrumentos da mediatização da sua realidade, da construção da sua fantasia de poder sobre os que sente que o rejeitaram. Assim, o estilo não se poderá classificar como “found footage”, mas como “media-driven” ou “image-constructed”.
{xtypo_quote_left}Uma boa surpresa, que possivelmente irá ser estragada pelas sequelas que dela sairão. {/xtypo_quote_left}É, no entanto, verdade que o terceiro ato é demasiado caótico, incapaz de lidar com o que tinha construído até aí, mas, tendo em conta que há professores académicos cujo dia a dia é estudarem estes assuntos e a inutilidade de todos os “especialistas” que enchem os media cada vez que acontece algum tumulto ou novo fenómeno social, não se pode ser muito exigente com um realizador e o seu primeiro filme.
Uma boa surpresa, que possivelmente irá ser estragada pelas sequelas que dela sairão, e, mesmo não conseguindo dar respostas, consegue explorar os temas dos media e da auto-representação de uma forma interessante e levantar perguntas pertinentes sobre a representação estético-social diária de cada um de nós.
O Melhor: A surpresa, o não querer explicar demais.
O Pior: Um terceiro ato caótico.
| João Miranda |

