Mais surpreendente — e vigoroso — dos concorrentes de ficção apresentados até agora na disputa pelo Redentor da Première Brasil, O Filho da Puta faz uma animação entrar pela porta da frente na conversa sobre os melhores filmes do 28.º Festival do Rio. Resultado da associação entre a Otto Desenhos Animados e a Anaya Produções, o filme mistura Chaplin, Glauber Rocha e ecos de Graciliano Ramos num sertão mineiro com fisionomia nordestina, embalado por Odair José.
Vindo da secção Contrechamp do Festival de Annecy, em França, e distinguido com uma menção especial no Animafest Zagreb, na Croácia, o projeto tem realização de Sávio Leite, Érica Maradona, Otto Guerra e Tania Anaya, a partir do argumento de Carla Guimarães. A animação foi ainda produzida pela Otto Desenhos Animados, em coprodução com a Anaya Produções.
A primeira sedução vem dos olhos. A direção de arte aproxima a imagem da xilogravura e da iconografia de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), sem transformar essa herança numa simples citação. Otto e os seus parceiros apropriam-se dela para fabricar um Brasil seco, miserável, obsceno e irresistivelmente cómico. “Passámos pela Suíça, estivemos também no CineBH e, aos poucos, vamos ganhando ecrã”, diz Otto Guerra, que regressa aqui à longa-metragem depois de trabalhos como Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll (2006) e A Cidade dos Piratas (2018).

É pela pequena Veredas que caminha Ismael, filho da proprietária da Casa Rosa, o bordel local, e por isso condenado desde criança ao epíteto que dá título ao filme. Quer encontrar aquilo que nunca conheceu: o pai e o oceano. Acompanhá-lo-á Bacalhau, um cão sem uma pata, tagarela e dotado de uma sabedoria de sobrevivência que se torna um dos achados do filme. Gabriel Martins dá voz a Ismael e Matheus Nachtergaele interpreta Bacalhau.
Nachtergaele já tinha trabalhado com Otto Guerra em A Cidade dos Piratas (2018) e vê uma diferença decisiva entre participar numa animação brasileira ainda em construção e dobrar uma produção estrangeira já concluída. “Quando colocamos a voz numa personagem, vemos os desenhos, os esboços, os realizadores explicam-nos a vibe, mas o filme ainda não está pronto. Vai ser construído também a partir da nossa voz. Portanto, colaboramos realmente na construção do filme”, explica.
A relação do ator com a animação, porém, antecede a sua carreira no cinema. Aos 15 anos, pediu ao pai um curso de animação no Museu da Imagem e do Som, chegou a estudar artes plásticas e guarda até hoje uma curta de um minuto realizada em acetato. “Aprendi cinema antes de pensar que faria cinema. E aprendi cinema quadro a quadro”, recorda.
Entre os documentários em competição na Première Brasil, Uma Missa para Dom Angélico, de Emília Silveira, recupera a trajetória do bispo ligado aos movimentos sociais e à defesa dos direitos humanos durante a ditadura militar, enquanto O Sertão das Nossas Memórias, de Lúcia Murat, regressa ao sertão da Bahia para revisitar as histórias de Carlos Lamarca e José Campos Barreto, o Zequinha, mortos pela repressão em 1971. Ambos integram a competição de longas-metragens documentais do festival.

