Há cidades que aprendem a conviver com as ruínas da sua prosperidade, assim como há pessoas que precisam reaprender a existir depois que um sonho desmorona. Em “The Gymnast”, longa de estreia na ficção da americana Charlotte Glynn, esses dois movimentos se encontram numa história sobre perdas, reinvenção e a necessidade de encontrar alguém capaz de compreender as nossas dores. Exibido na competição Tiger do Festival de Roterdã, o filme chega à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo com um colorido invernal e uma delicadeza que não confunde intimismo com passividade. Em vez de conduzir o espectador pela mão com uma banda sonora que antecipe sentimentos, Glynn aposta na força dos planos, nos ruídos do quotidiano e nos silêncios que se acumulam entre as suas personagens. A produção terá projeção neste sábado no festival paulistano neste 17 de outubro, às 14h, no Cine Tutu. Passa no Brasil com o título traduzido literalmente: “A Ginasta”.
Ambientado no início dos anos 1990, “The Gymnast” acompanha Monica (Britney Wheeler), uma jovem ginasta determinada a disputar os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. A possibilidade de representar os Estados Unidos naquela competição é o eixo em torno do qual ela organiza a vida, com o apoio de um pai que investiu tudo o que podia na carreira da filha. Um acidente repentino, porém, ameaça encerrar esse projeto antes que ele alcance o destino imaginado. A queda não é apenas física: ela desestabiliza uma estrutura familiar construída em torno da promessa de sucesso e obriga pai e filha a descobrir quem são quando já não podem se definir pelo mesmo objetivo.
Glynn encontra nessa relação uma forma de discutir a solidão sem transformá-la numa experiência exclusivamente individual. Monica e o pai precisam lidar com o esvaziamento das suas certezas, mas também com a dificuldade de estabelecer vínculos para além da rotina que os mantinha unidos. O desporto, nesse contexto, oferece mais do que um cenário de competição. É uma linguagem de pertencimento, um espaço em que a ideia de equipa pode ajudar a reorganizar a vida quando a realização pessoal parece ter se tornado impossível.

A realizadora leva essa investigação para Pittsburgh, cidade que funciona quase como uma terceira protagonista. A sua geografia, marcada por rios que separam bairros, e a sua história económica, atravessada pela decadência da indústria siderúrgica, espelham a desorientação das personagens. A transformação urbana acompanha a transformação íntima: assim como a cidade precisou procurar uma nova identidade depois de perder parte da sua base industrial, Monica e o pai precisam construir outras formas de existir depois do colapso das suas expectativas. O filme sugere que a paisagem não é apenas um pano de fundo para a ação, mas também uma força capaz de delimitar encontros, impor distâncias e produzir isolamento.
Em conversa sobre a longa, Charlotte Glynn destaca “a importância dos sons ambientes na construção dessa atmosfera”.
“Durante a rodagem, um comboio passava constantemente pelos locais de rodagem, oferecendo uma referência sonora para o trabalho da equipa. Dentro do ginásio, o movimento permanente das pessoas também fazia parte da experiência dos espaços. A cineasta preferiu não recorrer a uma banda sonora que explicasse o que as personagens sentem. A emoção, diz ela, deve surgir da própria imagem. Essa escolha dá ao filme uma qualidade de observação: em vez de sublinhar a dor, a câmara permite que ela se manifeste nos corpos, nos gestos e nos intervalos das conversas”, explica a realizadora, num Zoom com o C7nema.
A solidão, para Glynn, “é uma experiência universal, embora assuma formas diferentes de pessoa para pessoa”. Na fita, Monica e o seu pai são figuras solitárias, mas a busca por conexão com outras personagens transforma-os, aos poucos, numa espécie de equipa. A perspetiva desportiva interessa à realizadora justamente por essa possibilidade de comunhão. O indivíduo pode perder a competição, o futuro que imaginava ou a função que desempenhava dentro de uma família, mas ainda existe a chance de encontrar outras pessoas com quem dividir o peso da reconstrução.
O aspecto visual também foi decisivo para recuperar a atmosfera da época. Com orçamento reduzido e uma equipa pequena, Glynn não dispunha de recursos para recriar amplamente os ambientes ou produzir uniformes de ginástica à medida. “A relativa permanência desses trajes ao longo das décadas ajudou na solução, assim como a busca por um ginásio que evocasse os espaços desportivos dos anos 1990. A limitação financeira, longe de ser apenas um obstáculo de produção, exigiu que a equipa concentrasse a ação e extraísse dos locais disponíveis a textura necessária à narrativa”, lembra Glynn.
A diretora de fotografia Kayla Hoff trabalhou diretamente com Glynn na elaboração de uma luz compatível com o realismo pretendido. A intenção era preservar a conexão da trama com a realidade sem impor exigências excessivas à protagonista, uma atriz iniciante. A montagem de Lia Kulakauskas, brasileira que integra a equipa do filme, completa esse trabalho de contenção, organizando os tempos e os silêncios sem sufocar a espontaneidade das personagens.
Antes de chegar ao primeiro longa de ficção, Glynn havia dirigido curtas de prestígio, entre eles “Jewish Girls Are Easy” (2014), além do documentário “Rachel Is”, realizado cerca de 16 anos atrás e marcado por uma abordagem pessoal. Em “The Gymnast”, essa vocação intimista encontra uma história em que a perda de um sonho não representa necessariamente o fim de tudo. A queda de Monica obriga a personagem e o seu pai a enfrentar o vazio deixado por uma identidade que parecia definitiva. É nesse espaço de incerteza que o filme procura a sua delicada possibilidade de esperança.
“The Gymnast” será exibido novamente 18 de outubro, às 13h30, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 3; em 24 de outubro, às 13h, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 1; e em 26 de outubro, às 16h, no Cine Segall.

