Mesmo saindo de Berlim de mãos a abanar — já que no palmarés oficial não conquistou nenhuma estatueta — The Loneliest Man in Town foi facilmente uma das grandes surpresas do certame, muito por mérito da dupla austríaca Tizza Covi e Rainer Frimmel, que criou a atmosfera perfeita para o (agora) ator e (há décadas) cantor Al Cook brilhar.
Sem qualquer dúvida, um dos nomes mais falados na Berlinale, este austríaco nascido Alois Koch construiu carreira no seu país pela dedicação aos blues, género que acompanha todo o filme, centrado nos últimos tempos deste homem no seu apartamento em Viena, de onde está a ser despejado por promotores imobiliários. Falar de “interpretação” é aqui complexo, pois Al encarna uma versão de si próprio numa docuficção que confirma os cineastas austríacos como nomes a ter em conta no panorama do Cinema europeu.

Mas afinal quem é este cantor austríaco que se enamorou do blues e fez carreira com isso? “Até aos 15 anos não tinha qualquer interesse por música, só queria ser cientista. Queria estudar astronomia e física, porque esperava poder trabalhar na América, na NASA”, disse-nos Cook na Berlinale, explicando as raízes da sua persona, que vive rodeada de memórias, seja na forma de vinis, cassetes VHS ou inúmeros posters e imagens de Elvis. “Os meus pais não tinham dinheiro suficiente para pagar uma educação superior, então tive de trabalhar como mecânico. Estava frustrado. Aborrecido.”
No primeiro dia de trabalho, Al desceu a rua e viu num cinema um filme de Elvis Presley. Pensou para si que já tinha ouvido falar dele, mas não sabia exatamente o que fazia. “Entrei, comprei um bilhete, sentei-me e fiquei à espera para ver o que acontecia. E foi isso. Para mim, ele não era apenas o maior cantor, era o homem mais bonito do mundo. Sempre quis ser como Elvis Presley.”
Aos 15 anos começava a interessar-se por raparigas, mas sentia que não era particularmente atraente, pelo que decidiu comprar uma guitarra. “Tinha 18 anos e disse: tenho de ser como este homem (Elvis) para poder ter qualquer rapariga que queira. Mas isso não era verdade.”
O sucesso local chegou, apesar de o primeiro concerto ter sido, segundo o próprio, um desastre. Manteve-se sempre fiel ao seu espírito e ao blues, música que nasceu nos campos de algodão. “É esta a música que me entra nos ossos e no coração”, diz-nos com um brilho nos olhos, antes de recordar a recusa de uma carreira internacional. “A minha editora disse que queria fazer um disco comigo, John Mayall e Eric Clapton. Olhei para eles e disse: não. Não quero que a minha música seja tocada em estilo rock ou psicadélico. Mil músicos ficariam felizes. Eu não quis que a minha música fosse estragada.”

A dupla de realizadores interessou-se por Al Cook quando o descobriu num concerto, há cerca de 20 anos. Convidaram-no para sua casa, com o interesse apenas em fazer um trabalho fotográfico, mas começaram a fazer-lhe perguntas sobre a sua vida e, durante uma década, foram reencontrando-o e gravando-o.
Foi então a certa altura que perceberam que a sua história devia ser contada de forma ficcional e que, através dela, poderiam falar do que está a acontecer em Viena e um pouco por toda a Europa: as pessoas estão a ser expulsas das suas casas.
“É uma parábola sobre capitalismo, guerra, perder tudo. Pessoas inocentes a perderem tudo por causa do lucro. Havia muitos temas que encaixavam com o Al”, explicaram Tizza Covi e Rainer Frimmel ao C7nema, recusando qualquer continuação da história de Al: “São 90 minutos, mas nesses 90 minutos conseguimos captar a essência de um ser humano. Não estamos a pensar fazer uma continuação com o Al. Achamos que guardámos tudo o que queríamos guardar dele: que é um lutador solitário, que luta pelo blues, que é realmente especial. Isso ficou neste filme.”
The Loneliest Man in Town (2025) já tem distribuição assegurada em Portugal.


